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Futebol internacional

O Newcastle tornou-se no "clube mais rico do mundo", mas onde ficam os direitos humanos e a moralidade no futebol com o dinheiro saudita?

O emblema de Inglaterra, um dos mais populares do país, foi comprado por um consórcio liderado pelo fundo soberano da Arábia Saudita, ganhando um músculo financeiro que levou à euforia dos adeptos. Mas, apesar da Premier League assegurar ter recebido "garantias legais" de que o Reino da Arábia Saudita, Estado cujo respeito pelos direitos humanos é considerado "atroz" pela Amnistia Internacional, não controlará o clube, o fundo é liderado por Mohamed bin Salman, príncipe saudita responsabilizado pelos EUA pela morte de Jamal Khashoggi, jornalista assassinado no consulado do país em Istambul, em outubro de 2018

Pedro Barata

Owen Humphreys - PA Images/Getty

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O ambiente nas horas anteriores ao Newcastle-Tottenham, da jornada 8 da Premier League, era bem diferente do que vem sendo normal em redor de St. James' Park. O Newcastle, clube com uma massa adepta fervorosa, foi, nos últimos 14 anos, detido por Mike Ashley, milionário britânico de quem, sendo eufemísticos, os adeptos não gostavam muito. E os magpies viveram anos como que de adormecimento, de conformismo, sem entusiasmo. Mas antes da recepção aos spurs, respirava-se um ar de optimismo e esperança no noroeste inglês.

A partida frente à equipa de Nuno Espírito Santo foi a primeira do Newcastle desde que Mike Ashley vendeu o clube, num dos momentos que os seus apaixonados adeptos mais aguardavam. E o comprador foi um consórcio liderado pelo PIF, o fundo soberano da Arábia Saudita, o qual tem possibilidades financeiras superiores a qualquer outro dono de um clube de futebol do mundo.

"Somos sauditas, podemos pagar o que quisermos", disse, na antecâmara do jogo contra o Tottenham, um adepto do Newcastle, vestido com uma tentativa de imitação de um traje típico árabe, à Associated Press. No entanto, entre a felicidade geral pela saída de Ashley e a euforia de muitos pela esperança de ver contratações milionárias fazerem o seu clube lutar por títulos, o passado e a moralidade dos novos donos do Newcastle têm trazido um intenso debate ao futebol inglês.

James Gill - Danehouse/Getty

No passado dia 7 de outubro, Mike Ashley vendeu o Newcastle por 353 milhões de euros a um consórcio formado pelo fundo soberano da Arábia Saudita, que passou a deter 80% do clube, por Amanda Staveley, uma empresária britânica, e o seu marido, Mehrdad Ghodoussi, que possuem outros 10% através da sua empresa, a PCP Capital Partners, e os irmão David e Simon Reuben, dois milionários ingleses, que em 2020 ficaram em 2.º lugar na lista de famílias mais ricas do Reino Unido para o "Sunday Times" e que são detentores dos restantes 10%.

Após o anúncio da compra, cenas de enorme festejo foram vistas nos arredores do estádio do clube, com cerveja a ser atirada ao ar e cânticos a serem entoados, como se o Newcastle tivesse feito algo que já não consegue desde 1927: vencer o campeonato inglês.

No entanto, como explica à Tribuna Expresso Chris Waugh, jornalista do The Athletic especializado no clube, os adeptos iriam sempre festejar a saída de Mike Ashley, fosse quem fosse o comprador: "Ele foi dono do clube durante 14 anos, tendo tomado várias decisões danosas, como afastar lendas do clube, como Kevin Keegan ou Alan Shearer", lembra Waugh, que recorda que, com Ashley, o "Newcastle desceu duas vezes de divisão".

O agora antigo dono era, para Waugh, o "símbolo de um clube estagnado, sem ambição", cujo dono "parecia ter uma relação de antagonismo com os adeptos". Por isso, alguns dos primeiros cânticos e tarjas dos adeptos depois da oficialização da venda lembravam que os fãs "tinham o seu clube de volta" e prometiam "não exigir uma equipa que ganhe, mas sim um clube que tente". O sentimento de adormecimento sob a liderança de Ashley era algo que, há muito, desesperava os adeptos.

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A hipótese de haver uma mudança de donos nos magpies não era um cenário novo. Em 2020, a venda por parte de Ashley esteve bastante próxima. O mesmo consórcio tentou, há um ano, comprar o Newcastle, mas na altura deparou-se com um obstáculo: a pirataria de jogos de futebol.

No final de julho de 2020, os compradores retiraram a sua oferta, temendo, segundo o "The Guardian", não passar no "teste de proprietários e directores" feito pela Premier League aos interessados em adquirir um clube. Segundo o referido jornal, a entidade que organiza a competição disse, em privado, ao consórcio que considerava "o fundo soberano da Arábia Saudita como parte do Estado da Arábia Saudita", o que nos leva à questão da pirataria.

Chris Waugh explica-nos que "a Arábia Saudita, alegadamente, roubava conteúdo da 'beIN Sports', detentora de direitos de transmissão da Premier League para o Médio Oriente e Norte de África, através da televisão nacional e da beoutQ, um serviço pirata, devido a uma espécie de 'guerra fria' com o Catar, de onde é a beIN". Desde 2017 que a Autoridade da Concorrência Saudita tinha suspendido os canais da "beIN" no pais, tendo, em 2020, "cancelado permanentemente" a licença de transmissão da operadora no país.

Ora, aceitar a compra do Newcastle por um consórcio liderada pelo fundo soberano da Arábia Saudita, acusada pela "beIN" de roubar direitos de transmissão, não seria do agrado de um dos importantes parceiros estratégicos da Premier League. Assim, e após semanas em que muitos também apontaram o dedo à forma como os direitos humanos não são respeitados na Arábia Saudita, a compra não avançou em 2020.

Mike Ashley, o antigo dono do Newcastle

Mike Ashley, o antigo dono do Newcastle

IAN MACNICOL/Getty

Até que, no dia 6 de outubro, toda a imprensa internacional informou que a Arábia Saudita iria levantar a suspensão dos canais da "beIN" no país, "especulando-se muito sobre que tipo de acordo terá sido feito entre as partes", como aponta Chris Waugh. E, um dia depois deste "cessar-fogo" entre o Catar e os sauditas, a compra do Newcastle pelo consórcio liderado pelo PIF foi oficialmente anunciada.

No comunicado em que revelou que a operação foi concluída com sucesso, depois de "terminado o teste de proprietários e directores", a Premier League escreveu que "recebeu garantias legalmente vinculativas de que o Reino da Arábia Saudita não ira controlar o Newcastle".

De acordo com o que nos diz Chris Waugh, a organização "insiste que a razão pela qual a compra aconteceu foi porque recebeu a garantia de que a Arabia Saudita, como Estado, e o fundo soberano são entidades diferentes", não mencionando, nunca, o tema da pirataria. Mas há outra questão além de disputas de direitos televisivos.

Dois adeptos do Newcastle, festejando a compra ao pé da estátua de Bobby Robson, uma referência da história do clube

Dois adeptos do Newcastle, festejando a compra ao pé da estátua de Bobby Robson, uma referência da história do clube

OLI SCARFF

O fundo soberano que passou a deter 80% do Newcastle é liderado por Mohamed bin Salman, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, que é também vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa do país. Ora, "MBS", como é normalmente conhecido, foi responsabilizado, em fevereiro deste ano, pelos EUA, pela morte de Jamal Khashoggi.

Jamal Khashoggi era um jornalista saudita que havia abandonado o país e vivia exilado nos EUA. Em outubro de 2018, Khashoggi foi assassinado no consulado do seu país em Istambul, onde foi tratar de um assunto burocrático, por agentes sauditas. Um relatório das Nações Unidas considerou que "altos cargos da Arábia Saudita planearam a missão". Já a CIA escreveu, num relatório divulgado pela diretora nacional de informação, Avril Haines, de acordo com o “New York Times”, ter "chegado à conclusão que o príncipe Mohammed bin Salman aprovou uma operação" para "sequestrar ou assassinar" o jornalista. O príncipe herdeiro nunca enfrentou qualquer julgamento por este caso.

Além desta mediática situação, a Amnistia Internacional descreve o respeito pelos direitos humanos na Arábia Saudita como "atroz". A organização acusa o reino de fazer "prisões sistemáticas sem julgamento" ou "perseguição de ativistas pelos direitos das mulheres".

A "Freedom House", uma organização sem fins lucrativos sediada em Washington, afirma que "a monarquia absoluta saudita restringe todas os direitos políticos e liberdades civis", com um "regime que confia na vigilância generalizada e criminalização dos dissidentes", enfrentando as "mulheres e as minorias religiosas grandes discriminações nas leis e vida prática".

Os direitos LGBT são inexistentes (e a Premier League promove campanhas contra qualquer tipo de discriminação) e a Arábia Saudita está envolvida numa guerra no Iémen onde, segundo a "Human Rights Watch", já houve "pelo menos 90" ataques aéreos protagonizados pela coligação liderada por forças militares sauditas que não respeitaram a lei, "incluindo contra hospitais e autocarros escolares". Em sete anos de guerra, dezenas de milhares de pessoas foram mortas, a maioria civis, e milhões deslocadas, indicam diversas organizações internacionais.

Mohammed bin Salman

Mohammed bin Salman

MANDEL NGAN/Getty

Ao vincar a "separação" entre o Reino da Arábia Saudita e o fundo soberano, a Premier League tenta proteger-se das acusações de ter um dos seus clubes detido por um estado sob o qual recaem estas acusações. Também Amanda Staveley, detentora de 10% do clube que, nos primeiros tempos da nova era tem sido a cara mais visível para a imprensa, diz que "o parceiro é o fundo, não o Estado da Arábia Saudita. A questão da separação já foi resolvida", vincou ao "The Athletic".

Mas, segundo Nick McGeehan, da organização "FairSquare", dirigida por James Lynch, antigo diplomata britânico no Médio Oriente, "qualquer perito na Arábia Saudita dirá que o fundo é a Arábia Saudita e as garantias legais não significam nada", disse ao "The Independent".

Com efeito, como já referimos, o fundo é liderado pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita. O seu governador, Yasir al-Rumayyan, uma pessoa muito próxima de "MBS", foi nomeado presidente não-executivo do Newcastle. Seis dos outros sete membros da direção do fundo são ministros do governo saudita. O outro era ministro até ao ano passado.

A página web do fundo soberano refere que este "reporta ao Conselho de Assuntos Económicos e de Desenvolvimento", um organismo criado por decreto real e dirigido por Bin Salman.

"Todo o poder na Arábia Saudita deriva do rei", diz Bradley Hope, jornalista e co-autor do livro "Blood and Oil: Mohammed bin Salman's Ruthless Quest for Global Power", ao "The Athletic". Segundo Hope, "não há dúvidas de que o fundo soberano é parte do governo saudita, e uma parte crucial do governo. O Newcastle é detido pelo fundo e é, na verdade, controlado pelo governo da Arábia Saudita".

Yasir al-Rumayyan, governador do PIF e e presidente não-executivo do Newcastle, e Amanda Staveley, dona de 10% do clube, no jogo contra o Tottenham

Yasir al-Rumayyan, governador do PIF e e presidente não-executivo do Newcastle, e Amanda Staveley, dona de 10% do clube, no jogo contra o Tottenham

Ian MacNicol/Getty

Assim, as manobras de comunicação da Premier League parecem esbarrar na evidência de que o Reino da Arábia Saudita, cujos líderes surgem com frequência na imprensa internacional por más razões, tem, pelo menos, uma palavra muito importante a dizer no futuro do Newcastle. A Amnistia Internacional já pediu uma reunião com o director da Premier League, Richard Masters, para tentar explicar que "fazer com que as regras para ser dono de um clube estejam relacionados com direitos humanos só pode ser bom, a longo prazo, para o jogo".

Chris Waugh diz que "a maioria dos adeptos está feliz" com a compra, ainda que haja "alguma divisão" e "descontentamento de certas partes dos fãs" pela chegada dos sauditas, ainda que alerte para esta ser ainda "uma situação nova".

"A maioria dos adeptos está radiante com a saída de Mike Ashley e isso também explica algumas reacções", aponta o jornalista. Já Ward, um adepto de 18 anos ouvido pela Associated Press antes do Newcastle-Tottenham, garante que "os direitos humanos são, obviamente, uma preocupação a ter", mas que "enquanto houver uma separação clara entre isso e o clube", não "vê onde está o problema".

Vários membros da associação de adeptos do Newcastle têm vindo a público comentar que "os adeptos de futebol não devem ser perseguidos" e que as "questões deveriam ser colocadas ao governo, que lida com a Arábia Saudita", recordando que o fundo soberano também tem participações em empresas como a Disney, a Uber ou o Facebook. A Tribuna Expresso entrou em contacto com três responsáveis da associação, mas não obteve qualquer resposta.

Alan Shearer, melhor marcador da história da Premier League e ídolo do Newcastle

Alan Shearer, melhor marcador da história da Premier League e ídolo do Newcastle

Mike Egerton - EMPICS/Getty

O que a Arábia Saudita pretende com o Newcastle é, na essência, algo semelhante ao que levou ao envolvimento do Catar com o PSG ou de Abu Dhabi com o Manchester City: "sportswashing", isto é, utilizar o poder do desporto para limpar e melhorar a imagem do Estado. Basicamente, para que milhares de pessoas em Inglaterra gritem pelo nome do país num estádio de futebol, como aconteceu antes do Newcastle-Tottenham, ou para que, no futuro, se passe a associar mais o dinheiro do estado a uma contratação milionária, a um patrocínio numa camisola ou no nome de um estádio do que a bombardeamentos no Iémen ou mortes de trabalhadores migrantes na construção de infra-estruturas.

"A causa de tudo são jogos de 'soft power, como o investimento de Abu Dhabi no Manchester City", diz ao "The Athletic" Steffen Hertog, professor associado em política comparada na London School of Economics, que acredita que "a Arábia Saudita irá tratar da direcção do Newcastle com muito cuidado, tendo em conta os vários problemas de imagens que tem tido no passado recente."

Já Minky Worden, diretor de iniciativas globais da "Human Rights Watchs", diz que o Reino tem "uma estratégia para usar equipas, atletas e grandes eventos desportivos no país para criar distracções da sua crise nacional de direitos humanos". As boas relações do estado com a FIFA, o Grande Prémio de Fórmula 1 em Jeddah ou a Supertaça de Espanha de 2020, que se disputou no país, são disto exemplos.

Mas também do ponto de vista económico e empresarial parece haver interesses dos sauditas nesta aquisição. Simon Chadwick, professor na Emlyon Businnes School e perito da "BBC" em finanças do futebol, afirma que o reino está "a tentar diversificar a sua economia, para ir além das receitas com petróleo e gás". Chadwick recorda que "deter um clube de futebol permite construir relações com pessoas-chave" no mundo do negócio e da política, e que esses contactos privilegiados terão, também, pesado na decisão de comprar um clube na liga de futebol mais mediática do planeta.

Um adepto do Newcastle com uma bandeira da Arábia Saudita no jogo contra o Tottenham

Um adepto do Newcastle com uma bandeira da Arábia Saudita no jogo contra o Tottenham

Daniel Chesterton/Offside/Getty

Paralelamente a tudo isto, há uma equipa de futebol em crise. Com a derrota, por 3-2, frente ao Tottenham, o Newcastle é 19.º e penúltimo da Premier League, sem qualquer vitória em oito partidas. Das 29 jornadas da liga que os magpies disputaram em 2021, só venceram sete.

Amanda Staveley não esconde que o consórcio tem "os bolsos fundos e grandes ambições", mas que falar agora em contratar "Mbappé ou Neymar" é "irreal", apontando para a necessidade de "construir algo sustentável". As expectativas dos novos donos até podem ser "dentro de cinco a 10 anos, competir regularmente pela Premier League", como nos refere Chris Waugh, mas para já, a meta do clube passa por evitar a descida de divisão.

"É preciso aumentar a qualidade do plantel e, por isso, acredito que os novos donos tragam alguns novos jogadores, não contratando estrelas por 100 milhões de euros, mas com investimentos na ordem das dezenas de milhões de euros", diz, à Tribuna Expresso, Chris Waugh. A falta de investimento no plantel era, justamente, uma das maiores críticas ao antigo dono, sendo evidente que o elenco dos magpies se encontra entre os mais limitados da Premier League. "O Newcastle é um dos favoritos a descer", referiu, na "Sky Sports, Jamie Redknapp, antigo jogador de Liverpool, Tottenham ou seleção de Inglaterra.

No olho do furacão está, neste momento, Steve Bruce. Na sua terceira temporada como técnico do clube de que era adepto em criança, muito se escreveu sobre a possibilidade de o antigo jogador do Manchester United nem se sentar no banco diante do Tottenham, no primeiro jogo com os novos donos. No entanto, Bruce dirigiu, contra os spurs, a sua milésima partida como treinador, vendo a crise de maus resultados do seu conjunto agravar-se.

Steve Bruce

Steve Bruce

Stu Forster/Getty

Após uma semana em que foi praticamente dado como despedido, Bruce afirmou, na sequência de nova derrota, que a sua continuidade no cargo "é assunto para que outras pessoas decidam", prometendo "continuar da melhor forma que consiga até ordem em contrário".

Desde Zidane até Conte, passando por Brendan Rodgers ou Steven Gerrard, muitos nomes foram já apontados ao banco do Newcastle, mas Chris Waugh opina que "nem mesmo os donos parecem saber quem querem para treinador", até porque "o processo de compra passou de hipótese a realidade muito rapidamente", o que terá dificultado o processo de decisão.

O jornalista do "The Athletic" esclarece que "a ideia passa por, no final da década, o Newcastle ter erguido troféus", algo que, excluindo o Championship (a segunda divisão inglesa), o clube não faz desde a FA Cup em 1954-55. Ainda assim, Waugh considera que "enquanto estes donos estiverem no clube, haverá sempre um asterisco sobre o Newcastle", referindo-se às ligações à Arábia Saudita.

Uma mensagem a pedir justiça para o jornalista assassinado

Uma mensagem a pedir justiça para o jornalista assassinado

Ian Forsyth/Getty

Areej al-Sadhan é uma mulher saudita. 24 horas antes do anúncio da compra do Newcastle, Areej viu a condenação a 20 anos de prisão imposta ao seu irmão, Abdulrahman, ser mantida. O crime do seu irmão? Escrever um tweet a criticar o regime saudita.

Numa entrevista ao "The Guardian", Areej garante que o seu irmão foi "constantemente espancado" quando foi detido. Para a saudita, o Newcastle pode agora "ser parceiro de uma pessoa selvagem que tortura e mata pessoas", em referência a Bin Salman.

Bin Salman com Infantino e Putin no Rússia - Arábia Saudita do Mundial 2018

Bin Salman com Infantino e Putin no Rússia - Arábia Saudita do Mundial 2018

TF-Images/Getty

Areej diz-se "chocada" com a compra, que acontece "na semana do terceiro aniversário do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi e 24 horas depois da sentença de 20 anos de prisão, seguida de 20 anos de proibição de viajar", ao seu irmão por "escrever tweets". Para a saudita, o "timing da compra é para lavar estes abusos e normalizar as violações de direitos humanos".

Al-Sadhan, que não fala com o seu irmão "há três anos e meio", desafia os "adeptos do Newcastle" a "entender o real preço humano por detrás deste negócio", que "não é só desporto". A saudita diz que a sua mãe "nem tem acesso a falar" com o seu irmão, que foi "privado de qualquer direito de contactar com a família".

A política e o dinheiro estão sempre a entrar em campo, porque o futebol, como parte da sociedade, não fica alheio às forças que a movem. Enquanto se debate mais um tema em que o jogo parece viras as costas à moralidade, Chris Waugh resume-nos a única regra que parece imperar: "Mal a questão da pirataria entre o Catar e a Arábia Saudita foi desbloqueada, a compra avançou. O dinheiro manda. Se és um Estado e tens dinheiro suficiente para comprar um clube de futebol, então podes fazê-lo".