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Futebol internacional

O conflito devido à proposta do Mundial a cada dois anos intensifica-se: federações europeias poderiam abandonar a FIFA

De acordo com a Associated Press, mais de "uma dúzia" de federações europeias estão a considerar a opção de abandonar a FIFA para lutar contra a proposta de um Mundial de dois em dois anos. Ao mesmo tempo, segundo a Reuters, Ceferin, presidente da UEFA, avisou Infantino, líder da FIFA, acerca das "terríveis consequências para o futebol" que poderiam ocorrer caso o principal organismo do jogo continue a pressionar para que haja uma decisão sobre o assunto já em dezembro

Pedro Barata

DeFodi Images

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O grande tema do momento no futebol internacional continua a provocar reacções crispadas por parte de alguns dos nomes com maiores responsabilidades no desporto a nível mundial. A ideia de realizar um Mundial a cada dois anos, associada a uma renovação total do calendário de seleções, preconizada por Arsène Wenger e rapidamente promovida pela FIFA, tem encontrado resistência por parte de entidades como a União Europeia, o Comité Olímpico Internacional e, sobretudo, a UEFA.

Na véspera de uma importante reunião do Conselho da FIFA, que se realizou esta quarta-feira, Gianni Infantino, presidente do mais importante organismo do futebol mundial, participou numa reunião virtual com as 55 federações-membro da UEFA e ouviu o que a ninguém surpreenderá: reacções europeias de rejeição face à possibilidade de disputar um Mundial a cada dois anos.

A FIFA tem pressionado para que, numa reunião global com as 211 federações que a compõem, a 20 de dezembro, se faça uma votação sobre a polémica proposta — e uma decisão sobre a realização desta votação poderá sair da já referida reunião do Conselho da FIFA. No entanto, segundo uma gravação do encontro entre Infantino e a UEFA, obtida e divulgada pela Reuters, Aleksander Ceferin, presidente da principal entidade do jogo a nível europeu, pediu "seriamente" a Ceferin para não "pressionar" para que haja uma "votação", visto que isso "poderia ter consequências terríveis para o futebol em geral".

Gianni Infantino, presidente da FIFA

Gianni Infantino, presidente da FIFA

Anadolu Agency/Getty

"Não creio que seja sensato avançar para uma votação numa matéria como esta", opinou Ceferin, segundo a Reuters, não só "devido às consequências severas" que esta teria, mas também porque "interessados como as ligas e os clubes não têm poder de voto e esta ideia tem impactos determinantes na sua vida".

De acordo com a Reuters, dirigentes de Itália, Roménia, Portugal, Alemanha e outras federações expressaram a sua oposição à ideia. Tiago Craveiro, o diretor-geral da FPF, terá sugerido que seria uma melhor ideia criar mais um Mundial, mas somente com equipas que não se tivessem qualificado para a edição anterior. "Garante que a FIFA só avançará com este projeto se não causar danos a ninguém?", terá perguntado Craveiro a Infantino, que frisou sempre que a sua função é "facilitar o diálogo" e "não a de decidir".

Ainda assim, segundo a Associated Press, há já federações europeias a ponderarem medidas mais radicais, caso a FIFA não recue nas suas intenções. "Mais de uma dúzia" de federações da UEFA estarão a considerar a saída da FIFA como medida de luta contra a proposta do Mundial a cada dois anos. A Tribuna Expresso pediu um esclarecimento à FPF sobre esta possibilidade, com a federação a remeter apenas para o primeiro comunicado em que rejeita a ideia, assinado em conjunto com a Liga e com o Sindicato de Jogadores.

É importante salientar que abandonar a FIFA não afetaria a possibilidade de que estas federações europeias disputem competições — de clubes ou seleções — da UEFA. Em 2013, Gibraltar tornou-se membro da UEFA, sendo só admitida na FIFA em 2016.

Mike Hewitt - FIFA/Getty

Na reunião com a UEFA, Infantino, segundo a Associated Press, disse que o "inimigo do futebol" não é a "FIFA nem o Mundial", mas sim "outras atividades que são do agrado dos jovens" de hoje em dia, precisando o futebol de, "em conjunto", perceber "como os pode trazer de volta para o futebol". Apesar de ter referido várias vezes a importância de "entendimentos", Infantino fez questão de lembrar que "não é possível desenhar as novas propostas somente com base nas opiniões da Europa".

Na conferência de imprensa que se seguiu ao Conselho da FIFA, Infantino voltou a realçar que "as gerações mais novas têm muitos outros interesses" e que a FIFA deve "garantir que os nossos filhos, e os filhos dos nossos filhos, se continuem a apaixonar pelo jogo". Para Infantino, é preciso "mais jogos apelativos", vincando ter motivações "desportivas", não "financeiras".

Na referida conferência de imprensa, o presidente da FIFA deixou uma mensagem que parece ter como destinatário o futebol europeu: "Nós só nos preocupamos com o que está certo para o futebol global e, neste sentido, quero realçar que todos são iguais. Falamos muito de discriminação e, para nós, os nossos 211 membros são iguais e devem ser iguais. O meu papel é ouvir todos os lados, para dar voz aos que nunca são ouvidos. As discussões em torno do novo calendário e do Mundial provocaram reações fortes. O debate e discussão são completamente diferentes em diferentes partos do mundo e o meu trabalho é ouvir todos e juntá-los, porque este é o jogo global".

Além de apoiar a realização de um Mundial a cada um ano, a proposta da FIFA inclui, também, a realização de um Europeu a cada dois anos, o que significaria um grande torneio de seleções todos os verões. Várias entidades, como sindicatos de jogadores ou ligas, já expressaram preocupações para a "saúde física e mental" dos futebolistas com esta possíveis alterações.

As ideias de Arsène Wenger incluem ainda uma nova estrutura do calendário internacional: ao invés de haver janela de seleções em setembro, outubro, novembro e março, o "chefe de desenvolvimento global do futebol" da FIFA pretende apenas uma paragem, com cerca de um mês de duração, em outubro-novembro, durante a qual se disputariam as partidas de qualificação.

A ideia da FIFA seria colocar em prática estes planos após o final do Mundial 2026, o que significaria, se o projeto avançasse, ter um Mundial em 2028. Isto colidiria com o Euro 2028, para cuja organização a UEFA já anunciou a abertura do período de candidaturas.

Também por parte de entidades ligadas ao futebol feminino tem havido oposição à ideia da FIFA. Os campeonatos da Dinamarca, Inglaterra, Alemanha, Finlândia, Itália, Países Baixos, Roménia, Suécia e Suíça, bem como a Associação de Clubes Europeus, já emitiram um comunicado a mostrar "reservas" quando ao impacto do projeto no desenvolvimento do futebol feminino.