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Futebol internacional

Bodø/Glimt, um "Barcelona ou Ajax em pleno Círculo Polar Ártico" que arrasou Mourinho depois de surpreender na Noruega

Um clube pouco conhecido, localizado numa inóspita região da Noruega, impôs a mais pesada derrota da carreira de José Mourinho. Mas há algum tempo que o Bodø/Glimt vem protagonizando uma trajetória ascendente, graças a um projeto bem pensado, executado e carismático. A Tribuna Expresso falou com João Pedro Cordeiro, especialista em futebol nórdico, para perceber as chaves de um dos novos conjuntos de culto na Europa

Pedro Barata

FREDRIK VARFJELL

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Há vitórias que não são só vitórias. Há triunfos que significam muito mais do que ganhar três pontos, do que derrotar um adversário. De vez em quando, há noites mágicas que entram para a história dos clubes, nas quais se forjam lendas, que são contadas - e amplificadas, claro - por avós a netos. Contos que engrandecem clubes e fazem com que os mais novos tenham o desejo de, um dia, serem eles os protagonistas de semelhantes façanhas. São noites que compõem o imaginário coletivo de uma massa adepta e desenham a entidade de um clube.

Contra a Roma, o Bodø/Glimt viveu uma dessas noites.

A goleada por 6-1, em duelo da Liga Conferência, foi a mais pesada derrota da carreira de José Mourinho, um dos mais marcantes treinadores da história do jogo, mas para as gentes de Bodø foi uma espécie de legitimação internacional de um processo de crescimento. Como quando o Papa reconhecia internacionalmente um Estado soberano, dando-lhe legitimidade, de Roma chegou o certificado de que o Bodø/Glimt precisava para ser unanimemente visto como uma realidade incontornável no panorama da bola nórdica.

Mats Torbergsen

É, sempre, impossível entender o futebol sem ter um olho na geografia, mas no caso desta equipa norueguesa é ainda mais importante termos um mapa à mão (ou, vá, aberto num separador do navegador de internet). Bodø é uma cidade de 52 mil habitantes que fica a Norte do Círculo Polar Ártico, a cerca de 16 horas de carro de Oslo.

Basicamente, fica localizada muito, muito a Norte.

E Bodø é a casa do campeão da Noruega. Historicamente um clube sem o peso dos grandes do país, o Bodø/Glimt venceu, na temporada passada, a Eliteserien - liga da Noruega - pela primeira vez, tornando-se o clube mais a Norte a sagrar-se campeão de uma liga europeia. E fê-lo em grande estilo, somando 81 pontos em 90 possíveis e marcando 103 golos em 30 jogos. Uma proeza que se explica pela aposta por uma identidade bem vincada.

"É um clube que faz tudo bem e que tem sucesso com um projeto que devia ser visto como ideal na gestão desportiva: ideia bem definida, aposta clara na formação e recrutamento inteligente, quer em custos, quer na identificação com a tal ideia definida", explica, à Tribuna Expresso, João Pedro Cordeiro, especialista em futebol nórdico e autor do "MÅL", um espaço digital dedicado ao futebol dessa região do globo.

Uma imagem panorámica de Bodø

Uma imagem panorámica de Bodø

NurPhoto

O Bodø/Glimt é "um fenómeno recente", como refere João, sendo um "clube que, historicamente, não é triunfador nem popular". Com efeito, ainda em 2017 a equipa estava na 2.ª divisão da Noruega. "Estar nos limites do Círculo Polar Ártico nunca jogou a seu favor, tendo o Bodø/Glimt beneficiado muito da evolução das infra-estruturas, com a criação de relvados sintéticos que aguentassem o rigoroso inverno e campos indooor que possibilitassem um treino contínuo ao longo de todo o ano. Até 1991, altura em que o clube teve acesso a um campo coberto, muitas vezes os jogadores treinavam no gelo e com picos nas botas para se conseguirem manter de pé", contextualiza Cordeiro.

O crescimento do Bodø/Glimt tem vários momentos marcantes, sendo "impossível dissociá-lo da chegada de Kjetil Knutsen", opina João Pedro Cordeiro, referindo-se à contratação, em 2018, do atual técnico da equipa, um homem que o médio Ulrik Satlnes disse, numa reportagem do "New York Times" de novembro de 2020, "amar".

Mas, de acordo com o seus dirigentes, foi a partir de 2019 que o clube começou a adotar uma filosofia mais vincada, uma estratégia mais clara rumo ao crescimento. Segundo João Pedro Cordeiro, "o clube definiu um modelo de jogo, uma identidade e, mais do que estabelecer metas de resultados, importou-se com o estilo", passando a "recrutar de forma mais inteligente", contratando "jogadores bem identificados com o modelo". E os resultados não demoraram a chegar: em 2019, o Bodø/Glimt, na sua segunda temporada após a subida, ficou em 2.º lugar na Liga.

Mats Torbergsen

Em 2020, o clube, que até então só tinha duas Taças da Noruega, conquistadas em 1975 e 1993, conseguiu o título de campeão que, até há bem pouco tempo, seria impensável. "Em apenas três ou quatro anos, o Bodø/Glimt virou a hierarquia do futebol norueguês de pernas para o ar", resume Cordeiro. E nem as grandes estrelas da seleção ficaram indiferentes à equipa de Knutsen e à sua média superior a três golos por jogo durante a liga que conquistaram em 2020.

Patrick Berg, um dos mais influentes jogadores da equipa e autor de um dos tentos contra a Roma, disse ao "New York Times" que, quando foi chamado pela primeira vez à seleção norueguesa, foi cumprimentado de maneira efusiva por Erling Haaland ou Martin Ødegaard, os quais lhe disseram que "não costumavam ver a Liga norueguesa, mas que tinham por hábito ver os encontros do Bodø/Glimt".

Ainda assim, a histórica conquista do título nacional em 2020 não foi um ponto de chegada no percurso do clube, mas sim mais um passo no seu crescimento. Para vencer a Liga, o "histórico tridente ofensivo", como apelidado por Cordeiro, composto por Jens Hauge, Kasper Junker e Philip Zinckernagel, teve papel determinante, marcando, entre os três, 67 tentos em 2020. Mas para a progressão do clube é, também, fundamental o dinheiro de transferências, e Hauge foi vendido para o Milan - que entretanto o emprestou ao Eintracht Frankfurt - por 5 milhões de euros, Junker foi para o Urawa Reds, do Japão, por 2 milhões de euros e Zinckernagel rumou ao Watford.

Jens Petter Hauge foi formado no Bodø/Glimt

Jens Petter Hauge foi formado no Bodø/Glimt

Christian Kaspar-Bartke

No entanto, as ausências de tão influentes elementos não se têm feito sentir, visto que o clube "sabe para onde ir e conjuga condições de treino e humanas", nas palavras de João Pedro Cordeiro, factores que têm marcado "o ponto de viragem" no emblema. E a equipa de Knutsen, além da histórica goleada à Roma, lidera a Liga, com mais três pontos que o Molde após 22 jornadas realizadas.

Na construção do plantel, explicou Orjan Berg, antigo jogador do clube, técnico na formação e pai do já referido Patrick Berg, ao "New York Times", o Bodø/Glimt vinca a importância de ter "jogadores locais, não só noruegueses mas mesmo da zona", dado essa ser a "identidade do clube". Nove dos 11 titulares contra a Roma eram noruegueses, tendo sete deles 25 anos ou menos. Patrick Berg, o estiloso número 7 que marcou o melhor tento da goleada contra a equipa de Mourinho, é um exemplo desta presença local, dado que não só o seu pai, Orjan, jogou no clube, mas também os seus tios, Runar e Arild, o fizeram, sendo o seu avô, Harold, considerado o melhor jogador da história do Bodø/Glimt - era a figura do conjunto que venceu a Taça em 1975.

Outro alicerce do projeto do clube reside na preocupação com a saúde mental. O jogador Ulrik Saltnes contou, ao "New York Times", que existe uma "cultura muito aberta" na entidade, podendo os atletas abrir-se com o seu treinador e "dizer-lhe coisas que, noutro clube, poderiam ser vistas como sinal de fraqueza". Esta preocupação tem como figura central Bjorn Mannsverk, antigo piloto da Força Aérea que fez duas comissões no Afeganistão e é, desde 2017, o "preparador mental" do plantel.

Mannsverk aceitou o desafio, na condição de que "tudo fosse feito de forma voluntária" pelos jogadores, não querendo "andar atrás deles a dizer-lhes o que fazer". O antigo piloto promove sessões individuais, de 30 minutos, com cada jogador, bem como sessões em grupo, e passa-lhes trabalhos de casa, nos quais estes são encorajados a refletirem sobre as suas emoções e experiências. E, cada manhã, a equipa medita antes do treino.

Mats Torbergsen/EPA

Com uma participação europeia que já será histórica e procurando o bicampeonato, o Bodø/Glimt continua a "fazer milagres com muito pouco dinheiro", situação que lhe confere "magia", considera João Pedro Cordeiro, especialista que entende que "Patrick Berg e Frederik Bjorkan são os nomes mais óbvios" para dar o salto para uma grande liga "sem acusar em demasia a subida de nível", realçando também o "potencial enorme" do nigeriano de 20 anos Victor Boniface, que se encontra a recuperar de lesão grave.

Cordeiro acredita que estamos na presença de um "projeto consolidado", com "bases para uma sustentabilidade a longo prazo" que façam com que este não seja um "clube efémero". João Pedro recorda uma entrevista de Kristian Thorstvedt, hoje jogador do Genk, que disse que os feitos do Rosenborg e da Noruega foram determinantes para uma viragem mental e cultural no desporto do país, pois, pela primeira vez, os miúdos tinham ídolos no futebol, ganhando o jogo uma popularidade nova.

Para Cordeiro, "o que o Glimt tem feito nos últimos anos pode ter um impacto semelhante", até "para a região", na medida em que "o futebol da Noruega, por questões geográficas e demográficas, foi sempre dominado por clubes mais a sul, sendo o título do Glimt o primeiro de uma equipa do Norte, zona onde o futebol nunca esteve tão enraizado, levando a que qualquer jovem que quisesse ser futebolista tivesse de sair dali".

O mar a bater em Bodø

O mar a bater em Bodø

TORSTEIN RASMUSSEN

Uma situação que hoje já não se verifica, pois já existe um clube "atrativo" que pode "fixar as pérolas da região", o que, "por consequência, também é positivo para a Noruega", dado que passa a haver "todo um novo território a fornecer jogadores", numa "equação simples: mais jovens a jogar futebol, maio probabilidade de surgirem grandes jogadores".

Numa região pouco habituada aos focos internacionais, bem a Norte de zonas que nós já costumamos considerar que estão muito no Norte, mora um conjunto que tem provado que, com competência, ainda é possível sonhar no cada vez mais elitista futebol europeu, ao mesmo tempo que se inspira uma nova geração de jogadores locais. O fenómeno Bodø/Glimt é resumido por João Pedro Cordeiro, que o conhece como poucos em Portugal: "É um clube que colocou o estilo acima dos resultados, mas cujos resultados aconteceram precisamente devido ao estilo que a equipa decidiu colocar em prática. É uma espécie de Barcelona ou Ajax em pleno Círculo Polar Ártico. Mais carismático do que isto? Impossível".