Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Futebol internacional

Entrevista ao sócio do Bayern que não quer o patrocínio da Qatar Airways: “Não podem comprar o nosso silêncio em relação a direitos humanos”

Michael Ott tem 28 anos, é advogado estagiário na Alemanha e sócio do Bayern desde 2007, considerando-se "um membro do clube, não um cliente". E vai levar à assembleia-geral anual do clube, a 25 de novembro, uma moção para terminar com uma situação que, em conversa com a Tribuna Expresso, descreve como "vergonhosa": a "associação do clube ao Catar", Estado sobre o qual recaem "acusações de violação de direitos humanos e corrupção", o que é "incompatível com os valores" do Bayern

Pedro Barata

Visionhaus/Getty

Partilhar

Em 2002, os olhos do mundo fixaram-se a Oriente. O Mundial da Coreia e do Japão reuniu Zidane e Ronaldo, Figo e Beckham, Ronaldinho e Totti, mas estava na baliza da seleção da Alemanha o homem que encantava Michael Ott, então com 9 anos. "Comecei a interessar-me por futebol quando a Alemanha chegou à final desse Mundial. Vi o Oliver Kahn a jogar e ele passou a ser o meu ídolo, o que me levou a tornar-me adepto do clube onde ele jogava". Isto é, adepto do Bayern Munique.

Quase duas décadas depois do primeiro contacto com o mundo da bola, Ott é, aos 28 anos, um licenciado em direito que está a fazer os dois anos de estágio obrigatórios antes de se tornar, oficialmente, advogado. E atende a chamada da Tribuna Expresso para falar sobre uma iniciativa que o tem levado a receber atenções mediáticas, na Alemanha e não só.

Michael Ott levará à assembleia-geral anual do Bayern, agendada para 25 de novembro, em Munique, uma moção que propõe "não dar continuidade ao contrato de patrocínio com a Qatar Airways, por ser incompatível com os valores do clube". De acordo com a moção, a companhia aérea é "100% detida pelo Emirado do Catar", país sobre o qual recaem "acusações de violações dos direitos humanos", desde "exploração de trabalhadores migrantes até aos direitos das mulheres e homossexuais", bem como "financiamento do terrorismo" e "corrupção no desporto".

Recorde-se que, segundo os cálculos feitos pelo "The Guardian", morreram cerca de 6.500 trabalhadores migrantes desde 2010 no Catar, quando se soube que lá seria o palco do próximo Campeonato do Mundo, um dos eventos desportivos mais rentáveis do planeta (o "New York Times" estimou que a edição de 2018 renderia €6,1 mil milhões em lucros para a FIFA).

Michael Ott, que é sócio do clube desde 2007, explica-nos que "a moção não tem como objetivo revogar o patrocínio, mas sim que este não seja renovado", dizendo que "o acordo com a Qatar Airways termina no final da época 2022/23" e que, a partir desse momento, o "Bayern não deve ter mais ligações ao Catar".

O advogado estagiário resume o grande objetivo da sua moção: "Não podem comprar o nosso silêncio, não podem comprar o silêncio do Bayern em relação a violação de direitos humanos, alegações de corrupção e tudo o que há mais há sobre o Catar", explica Ott, realçando que, "hoje em dia", o "Bayern não critica nada, remete-se ao silêncio e, para acabar com isso, é preciso acabar com esta situação vergonhosa".

O Bayern costuma jogar com o nome da Qatar Airways numa das mangas da camisola, além de realizar, regularmente, estágios no Catar e ser mencionado nas redes sociais da companhia.

Michael Ott considera que o "princípio básico" deste acordo é a "obrigação que o Bayern tem de publicitar o Catar" e que, através dessa publicidade, o clube "está a apoiar estas violações, porque o Catar lucra com a imagem positiva do Bayern e, enquanto isso acontece, desviam-se atenções de trabalhadores que morrem no país ou mulheres privadas dos seus direitos".

Jogadores do Bayern num estágio em Doha em janeiro de 2020

Jogadores do Bayern num estágio em Doha em janeiro de 2020

TF-Images/Getty

O promotor desta moção refere à Tribuna Expresso que é sócio do Bayern porque se considera "um membro do clube, não um cliente que somente compra um produto", mas sim "alguém que pode ter influência, uma voz com impacto no clube". "Não quero ir lá só aplaudir as vitórias e deixar que alguém decida tudo", explica. Não sendo membro de qualquer grupo organizado, recorda-nos um momento no qual ganhou "outra consciência crítica" em relação ao clube.

"No começo de 2020, um grupo de adeptos do Bayern organizou um painel de discussão sobre a situação de direitos humanos no Catar. Convidaram trabalhadores migrantes que estavam no país e um especialista em direitos humanos. A direção do Bayern foi convidada e não compareceu, tendo-se até recusado a falar em privado com os trabalhadores. Eu senti-me envergonhado com o meu clube, porque é um comportamento nojento em relação aos teus adeptos e, especialmente, em relação aos trabalhadores migrantes, que voaram até à Alemanha só para ter esta discussão", frisa Ott.

É esta "vergonha" que culmina agora nesta moção.

Michael Ott explica que, um pouco como sucede em Portugal, há uma divisão no Bayern entre "o clube detido pelos sócios, no qual estão outras modalidades que não o futebol", e a "sociedade por ações, com presença na bolsa, que gere a equipa de futebol masculino profissional". No Bayern, o conjunto dos sócios detém 75% da sociedade que administra o futebol masculino profissional, sendo os restantes 25% detidos, em partes iguais, pela Adidas, Audi e Allianz.

Os adeptos do Bayern têm, no geral, um histórico recente de fortes reivindicações. Em 2019, fizeram parte da campanha "twenty is plenty", para que os preços dos bilhetes destinados às zonas visitantes dos estádios não fossem superiores a 20 euros. Também quando surgiu a proposta da Superliga, que nunca foi aceite pelo Bayern, os adeptos mostraram a sua oposição firme.

Um cartaz a criticar os bilhetes dos preços dos adeptos visitantes é mostrado pelos fãs do Bayern em Anfield, na Champions 2018/19

Um cartaz a criticar os bilhetes dos preços dos adeptos visitantes é mostrado pelos fãs do Bayern em Anfield, na Champions 2018/19

OLI SCARFF/Getty

Ott indica, ainda assim, que a assembleia-geral — que não se realizou o ano passado devido à pandemia — "não é, na maior parte das vezes, um evento muito especial", servindo só para "se falar sobre os títulos conquistados e haver muitos aplausos", ainda que, por vezes, "haja assembleias com discussões mais tensas".

Em 2019, um sócio do Bayern propôs uma moção para incluir, nos estatutos do clube, uma cláusula segundo a qual a instituição teria de atuar de acordo com os princípios de direitos humanos das Nações Unidas. Na altura, contudo, a moção nem foi admitida a votação porque "o comité executivo entendeu que não poderia ser discutida por questões estatutárias e legais".

De acordo com Ott, "esta afirmação, sob o ponto de vista legal, é muito discutível", mas este exemplo de 2019 mostra como "é difícil introduzir moções deste tipo", dada a necessidade de "entrar em matérias legais complexas", havendo "uma dada estruturação" do clube que "dificulta que certo tipo de influência seja exercida" pelos sócios". O advogado estagiário explica que a maior parte das moções que falharam no passado foi, justamente, devido a "questões legais complexas".

Stefan Matzke - sampics/Getty

Quanto à sua proposta em específico, Michael Ott indica o desejo de, pelo menos, "forçar o clube a ter um debate sobre este tema com os seus sócios", na medida em que "o Bayern está sempre a evitar" essa discussão": "Se eles não aparecem quando são convidados, não resta outra opção que não seja forçar a discussão através desta moção".

Ott considera que "não podemos ficar calados face ao que se passa no Catar", pois "o silêncio é, também, uma declaração política" e considera-a uma "expressão de indiferença face às violações de direitos humanos". Para o alemão, é importante fazer ver que "não é só um pequeno grupo de ultras ou de adeptos muito ativos que estão atentos", mas sim "uma maioria de sócios do Bayern".

O autor da moção diz que "não lhe chegou qualquer feedback por parte dos jogadores" do clube, mas relembra as notícias sobre as expressões de preocupação feitas por Joshua Kimmich e Leon Goretzka quanto ao Mundial do Catar, sendo esses dois atletas do Bayern "vozes a favor da necessidade de haver uma postura crítica do futebol", frisa Michael.

DeFodi Images/Getty

Ott acha que as opções de ver a moção aprovada são "50-50", revelando que tem recebido "reacções muito positivas de sócios" face à proposta. No entanto, o advogado estagiário explica que "é difícil prever resultados", pois "só uma pequena parte dos sócios vai à assembleia", sendo esta, normalmente, "muito heterogénea" e composta "por alguns ultras, membros críticos e outros sócios mais acríticos, que só vão aplaudir os títulos que foram ganhos", o que, a juntar às dúvidas sobre quantas pessoas irão, "torna tudo imprevisível".

Seja qual for o resultado, Michael Ott quer que fique claro que "há adeptos do Bayern que não querem ligações ao Catar", muito menos com "este patrocínio, o qual é um sinal de indiferença e mostra que o dinheiro é mais importante que a violação de direitos humanos".

O jovem dá o exemplo da compra do Newcastle por parte de um consórcio liderado pelo fundo soberano da Arábia Saudita como "definição do que é o 'sportswashing', dado que "o clube acabou de ser adquirido e já vês adeptos do Newcastle com bandeiras da Arábia Saudita e a defender acusações contra o país". Michael Ott não quer "nada disso" para o seu clube.

E termina com a defesa de algo que é uma espécie de dogma da maneira de viver o futebol no seu país: "Na cultura do futebol alemão, é fundamental que os adeptos tenham uma voz, que sejam parte da decisão. Para nós, isso é crucial e não se negoceia".