Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Futebol internacional

Barça, aqui está Xavi para tentar que se apaixonem e voltem a desfrutar com uma certa forma de jogar

O espanhol que sofria quando não tinha a bola, enquanto jogador, sofre ainda mais como treinador. Nem com três épocas feitas a orquestrar uma equipa por fora, no Catar, é agora oficial que Xavi regressa ao seu clube de sempre com 41 anos e uma ideia de jogo descaradamente à Barça: "criar superioridades, criar vantagens, jogar para desfrutar e marcar, recuperar para voltar a desfrutar e marcar". Quem o garante e explicou à Tribuna Expresso é Vítor Severino, adjunto de Luís Castro no Al-Duhail, última equipa que defrontou o Al-Sadd do treinador espanhol

Diogo Pombo

David Ramos/Getty

Partilhar

“O mais importante, o mais bonito, o mais valioso do futebol é ter a bola, ir ao ataque e dominar o jogo através de bola”. A frase, primeira no vídeo do “Coache’s Voice”, soa a enchido prosaico recheado com uma afirmação absoluta, tal é a compostura relaxada e a naturalidade da pessoa em quem o carisma embrulha com estas impressões o que é uma mera opinião, uma forma de ver as coisas que franze ninguém com surpresa pois o remetente é ele, Xavi, um dos antigos guardiões da bola que atazanado ficava só de imaginar perdê-la, nem que fosse por uns segundos.

O espanhol era e é pequeno, franzino e atleticamente banal, alguém corrente à vista desarmada que, no campo, jogava de acordo com as possibilidades do corpo perante a sónica velocidade a que pensava coisas no cérebro. Este era Xavi, o médio que via antes dos outros, já sabia o que fazer à bola e também já o tinha feito quando se aproximavam dele, transladou essa segurança para o discurso com que hoje tenta convencer quem treina para jogar como ele jogava.

Saber ao que se pretende jogar é qualidade de gabar a todo o treinador e essa certeza, no espanhol, dança o tango com outra, a que o etiquetou com ‘v’ de volta em 2015, assim que uma versão já cadente de Xavi saiu do Barcelona quando lá morava o último Barça que vimos: acabado de ganhar a Liga dos Campeões com os melhores amigos Messi, Neymar e Suárez a atacarem outras balizas lá na frente e ele, estranhamente, a vê-los muito do banco, sentado pela emergência de Rakitic e por um futebol com um quê mais de frenético e vertical imposto por Luis Enrique.

Já na altura, as arestas que esse treinador esculpia à quase por dogma redonda forma de jogar desejada para a equipa comichavam muitas pessoas em Barcelona, talvez todas desapercebidas de que, em diante, passariam a ver apenas a principal equipa da cidade e não a ideia de Barça que a alcunha invoca. Xavi, como Pep Guardiola antes dele, é um sôfrego assumido se vir as coisas a serem distintas às que iam no goto de Rinus Michels e foram pregadas por Johan Cruyff: “Sofro quando não tenho a bola, já me acontecia quando era futebolista e agora, no banco, ainda mais, por isso faço o que for possível para dominar o jogo através da bola”.

As entranhas de Xavi contorcem-se com a possibilidade por ter sido nado, criado e aproveitado com essa ideia em 24 anos no Barcelona, com direito a 17 épocas na equipa principal. É ao seu clube de sempre que agora torna — o Barça confirmou-o, finalmente, na madrugada deste sábado — nem com três temporadas feitas do lado de lá, feito treinador, a dar voltas à cabeça sobre como fará uma equipa ao gosto do que explicou no “Coache’s Voice”, com câmara e tabuleiro tático à frente. Porque dizer como se quer treinar jogadores e cabeças pensantes não equivale a, de facto, conseguir pô-los a jogar como quer, mas o Al-Sadd era “um retrato fiel da identidade e modelo de jogo” defendidos pelo espanhol no vídeo.

Vítor Severino constatou-o de perto. O português é adjunto de Luís Castro no Al-Duhail que, na quarta-feira, empatou (3-3) com a equipa treinada por Xavi para o campeonato do Catar. Viu-a bem de perto, depois de a analisar ene vezes, e nela reconheceu a pegada vincada pelo espanhol que fideliza o dito ao feito. “É uma equipa que gosta de controlar o jogo em posse, com objetividade e prioridades bem definidas em termos daquilo que é o temporizar, para atrair, para entrar. O objetivo da posse é claramente para entrar em determinados espaços, em função das vantagens posicionais e dinâmicas que vão sendo criadas na circulação”, começou por explicar, à Tribuna Expresso, ressacado de fresco do jogo com o Al-Sadd.

Sem a bola, condição que o espanhol não esconde abominar, o Al-Sadd era “muito agressivo a reagir e encurtar espaços”, sendo uma equipa capaz de também temporizar nessas alturas. Ou seja, ter a paciência e esperteza de esperar “para depois pressionar” quando um passe “entra fora [nas laterais], encurralando o adversário ainda baixo no campo para recuperar a bola e, se possível, atacar logo os espaços disponíveis à profundidade”. Xavi quer ver os seus a serem ladrões sem demoras, precipício de intenções que fez Vítor Severino associar o que no espanhol também evidencia uma patologia de Barça.

David Ramos/Getty

Respondendo, por escrito e em pleno avião para um breve retorno a Portugal, o treinador lembrou o estágio que fez na Cidade Desportiva Joan Gamper, complexo do clube, onde “nunca [ouviu] falar em transições”. Parecia anátema para o futebol idealizado por lá. Do que observou, notou “só mesmo dois momentos, o de posse e o de recuperação”. Tudo o resto era preenchido pela intenção-mestra de uma forma de jogar — “com bola, desfrutamos para marcar, sem ela corremos para a recuperar e voltar a desfrutar”. Vítor Severino reconheceu que o Al-Sadd “é muito isto e dá para perceber que existe sintonia e os jogadores gostam”.

Aí julga estar a chave do que pode vir a ser o Barça com Xavi.

Mais do que “fazer os jogadores entenderem uma ideia”, devemos “fazer com que se apaixonem por uma forma de jogar” e o confesso antigo jogador que se enamorou pela bola à primeira vista assenta as suas intenções nela. Tendo-a, o primeiro projeto de equipa do Xavi treinador montava-se no 3-2-4-1 com “o guarda-redes sempre disponível para jogar”, os três defesas “com amplitude na primeira fase de construção” e os dois médios à espera “em linhas diferentes, diagonais”, nos “meios espaços” a que se chama as brechas de terra de ninguém entre adversários. Depois, explica Vítor Severino, jogava com um par de interiores e extremos “de largura máxima e pé contrário”, mais um ponta de lança “a fixar e a empurrar a linha defensiva do adversário”.

Isto, porém, são números esquemáticos e estruturais.

Via-se ao que Xavi queria jogar nas dinâmicas a fazerem mexer os onze jogadores que tinha em campo e o técnico português esmiúça, indo ao detalhe do que enfrentou na derradeira partida do espanhol no Catar: “Monta-se praticamente um quadrado por dentro e esta é uma das chaves do jogo posicional do Al-Sadd. Conseguem ter gente suficiente para ter superioridade por dentro e não abdicam de ter gente em largura máxima para atrair e entrar por fora, com jogadores de pé contrário [um destro a jogar na esquerda] a favorecer o passe interior diagonal; médios mais altos [no campo] a aproximar nos meios espaços e atacar diagonais curtas de dentro para fora, arrastando centrais; jogadores da largura máxima a receber ligeiramente mais baixos para atrair movimentos de pressão dos laterais e abrir espaços de entrada”.

KARIM JAAFAR/Getty

Um treinador que gosta de atacar assim cria “paradoxos” no adversário, força a que sejam feitas escolhas para os contrariar. “Ideias combatem-se com ideias”, resume Vítor Severino, lembrando o “pré-conceito” empunhado por muitos contra quem tente e tenha jogadores para ser um ditador da bola — “que para ganhar a estas equipas só pode ser a defender baixo e sair em contra-ataque”.

Mas o português vira a agulha para o que uma equipa de Xavi, como uma de Pep Guardiola (Manchester City) ou de Erik Ten Hag (Ajax), outros treinadores quase com Barça escrito na testa, pela forma como pretendem jogar, não gostam de algumas coisas que possam ser jogadas contra eles: “Se atacam assim como é que achas que treinam para defender? Sempre em organização? Estas equipas nem gostam de defender em organização”.

Face à maneira como atacam, preparam-se “como é óbvio” para “levarem contra-ataques” e a maior parte dos adversários lhes “atacar a profundidade [espaço nas costas dos defesas] ao 2.º ou 3.º passe”, resume Vítor Severino, reconhecendo que Xavi e o Al-Sadd sabiam “que é isso que [ia] acontecer mais vezes” durante um jogo. “Do que não gostam é de entrar em organização defensiva, de não ganhar a bola logo no momento de reação à perda, de ser pressionada com critério”, diz, salientando as três armas que também deverão incomodar mais o futuro Barça de Xavi caso um adversário as consiga arremessar.

O português que, antes, também trabalhou com Luís Castro no Rio Ave, Desportivo de Chaves, Vitória de Guimarães, Shakthar Donetsk, atribuiu complexidade à ideia de jogo do espanhol, mas que “resulta num futebol simples” de “criar superioridades e vantagens, jogar para desfrutar e marcar, e recuperar para voltar a desfrutar e marcar”. Vítor Severino julga que Xavi “tem o perfil claro de treinador do Barça” e antecipa-lhe “um grande desafio”, pois precisará de tempo, o que fica a saber que é menor quando se pergunta aos adeptos quanto tempo o tempo tem.

picture alliance

Porque o modelo de jogo de Xavi poderá apaixoná-los e fazê-los desfrutar com os jogadores, mas os modelos “não se explicam apenas aos jogadores nas palestras, vivem-se no campo e na competição, em todos os exercícios, todos os dias”. E este, sobretudo, será sempre carente de futebolistas que “entendam o jogo”. É aí que Vítor Severino trilha “o aspeto” no qual o treinador espanhol fará a diferença: “Jogadores que pensam mais no treino, irão pensar mais no jogo. O treino é um espaço de perguntas, não apenas de respostas. Não posso esperar que alguém identifique espaços se lhe digo sempre onde quero que esteja”.

Xavi ser, hoje, um embaixador do Campeonato do Mundo de 2022 no Catar, onde o "The Guardian" diz já terem morrido 6.500 trabalhadores migrantes desde a atribuição do torneio e a Amnistia Internacional um país a acolher "o Mundial da vergonha", devido ao parco respeito pelos direitos humanos, parecem, de repente, coisas de somenos importância agora que se discute o futuro da bola do Barça com Xavi, que até no vídeo no qual explicou a sua forma de jogar se ornamentou com o logótipo do Catar.

A última camisola dos culés vestida por Xavi também tinha o patrocínio principal da Qatar Airways, vinda do tal país "que não é uma democracia", mas onde, defendeu o espanhol há uns anos, "os cataris que [conhece] são felizes".

  • Fim da novela? Al-Sadd diz que Xavi é o novo treinador do Barcelona
    Futebol internacional

    O Al-Sadd comunicou ter chegado a acordo com o Barcelona para a saída do treinador, mediante o pagamento da cláusula de rescisão. Mas alguns jornais catalães dizem que, por enquanto, ainda não será bem assim, alegando que será uma forma de pressão do clube catari. O antigo médio, que fez 767 partidas, ganhou 25 títulos e simbolizou o estilo da melhor fase da história do clube, estará prestes a regressar a Camp Nou para ajudar a tirar o Barça de uma profunda crise de resultados e identidade