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Futebol internacional

Continua a haver só uma equipa que jogue futebol em Manchester

Depois do 0-5 contra o Liverpool, a visita do City a Old Trafford impôs um 0-2 ao United da endinheirada hipótese de ter Ronaldo, Bruno Fernandes, Porgba, Varane ou Sancho e a sua imensurável qualidade per capita, mas que continua a ser desaproveitada por um treinador inflacionado pelo passado que já lá vai com chuteiras calçadas, incapaz, em quatro temporadas, de elevar um conjunto de jogadores cada vez melhor numa equipa que, na prática, consiga ser uma com pés e cabeça

Diogo Pombo

Michael Regan/Getty

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Uma variante da frase “façam por ter a bola e depois amanhem-se com a vossa inspiração criativa” é, já quase por tradição, o retrato fiel do que o Manchester United de Ole Gunnar Solskjaer é quando tem de atacar. Uma confiança forçada na possibilidade de que algo coletivamente frutuoso seja magicado pela soma de todas as ideias individuais que possam coincidir no tempo e no campo e, depois, logo se vê. O problema é quando também há a coincidência com a vizinhança citadina.

A pela que futebolistas incríveis vão salvando, quando se insurgem da banalidade coletiva, a um treinador que não é jogador, mas parece ter oxigénio infinito pelo que fez quando jogava no United, chocava de frente com a oleadíssima equipa do Manchester City. Este sábado foi dia para os antípodas futebolísticos postos na mesma cidade se tocarem nos aproximados 120 metros de comprimentos por 60 de largura. E os vermelhos de Manchester levaram com tudo o que não são.

Os onze de azul-celeste esmagaram-nos com a bola, omnipresentes no meio-campo contrário onde ensanduichavam o adversário contra os três centrais a que Solskjaer reverteu, há poucas semanas, quando as derrotas se juntaram às exibições parcas. O carrossel do City, com médios a furarem a última linha com diagonais em corrida e passes sempre a encontrá-los. Cedo o United cedeu com o desespero próprio de ter muitas coisas a apagar, quando Eric Bailly desviou (8’) um cruzamento de Cancelo para a própria baliza.

Mais tarde, quase o mesmo acontece a Lindelöf, desastradamente virado para o retângulo de David de Gea, guarda-redes que impediu De Bruyne ou Gabriel Jesus de engordarem um jogo a que faltava apenas encher a barriga dos golos para ilustrar uma avalanche de superioridade. Só a segundos do intervalo, outro cruzamento em banana de Cancelo, da esquerda, chegou ao esforço de Bernardo Silva para desviar a bola e a fazer entrar na nesga possível.

OLI SCARFF/Getty

Mesmo que magro, 0-2 era um resultado condizente para a miniatura de existência do United, incapaz de possuir a bola para, ao menos, a fazer cair nas redondezas de Cristiano Ronaldo na área, cada vez mais a única condição que o português necessita para fazer de qualquer passe um remate de qualquer maneira que seja à baliza: assim foi, aos 26’, com uma bola cruzada por Luke Shaw, meio que para trás e caído no seu pé esquerdo. O rebento de planta único no terreno árido da equipa.

A desmontagem dos três centrais, ao intervalo, ineficazes e inúteis pelo jogo de sombras em que o City os enrolava, sem um avançado fixo a dar-lhes uma referência, não melhorou o United. Apenas o mudou, mais serrador de dentes nos jogadores, com outra capacidade de pelo menos morderem as receções de bola dos homens tranquilos vestidos de azul-celeste. Já havia gente para perseguir os esbracejares de Cristiano, quando o português de quem é corretamente dito que não pressiona, corria feio louco a pressionar aquelas jogadas-chamariz com que o adversário atrasava a bola para o guarda-redes.

Chegou a parecer vir aí um jogo canalizado por outros caminhos, sensação duradoura em tão só uns 10 minutos. A equipa do City adaptar-se-ia à mudança e retornaria à subjugação do adversário à sua lei da bola — uma intricada forma de ir avançando no campo, muitas vezes recuando para que espaços se desbravem com engodos, cheia de pequenos passes e poucos toques de cada vez que sempre descobrem o jogador que está livre. Esse tipo, muitas vezes, era Bernardo Silva, o pequeno dínamo que constantemente desaparece do radar dos adversários para se mostrar aos seus.

A primeira chance, de caras, para se ver outro golo veio de Phil Foden (82’), rematador da bola que ainda tocou no poste após a equipa reagir rápido à cratera de espaço aberta no United, acabado de ser desarmado a meio-campo e ter os seus jogadores a correrem atrás de um erro. Serem postos a correr no rasto da bola foi ato contínuo para os caseiros, em mais uma partida em que outrem destapou tudo o que têm de frágil, desorganizado e, no fundo, pouco trabalhado. Justo é considerar que este jogo era um dos que mais potencial tinha para o demonstrar.

Já o 0-5 contra o Liverpool, também caseiro, evidenciara a coletividade trabalhada inexistente no Manchester United, clube com a endinheirada hipótese de ter Ronaldo, Bruno Fernandes, Porgba, Varane ou Sancho que lhe dão uma imensurável qualidade per capita, mas que a desaproveita por um treinador inflacionado pelo passado que já lá vai com chuteiras calçadas, incapaz em quatro temporadas de elevar um conjunto de jogadores cada vez melhor numa equipa que, na prática, consiga ser uma com pés e cabeça. Continua a faltar uma equipa de futebol ao United.

  • O Manchester United de Solskjaer. Ou como ninguém espera por gigantes presos no passado
    Crónica

    Um exemplo paradigmático de Ole Gunnar Solskjær no Manchester United é o milagre de Paris, há dois anos, quando a desfalcada equipa inglesa conseguiu uma vitória épica sobre o favorito Paris Saint-Germain. Analisar resultados sem ter em conta as circunstâncias que os provocam leva demasiadas vezes a decisões imediatistas e esse jogo, escreve o analista de futebol Tomás da Cunha, agarrou o treinador norueguês ao cargo — até hoje, que tem melhor plantel, mas continua a não conseguir montar uma equipa. E a Premier League, no topo, já não aceita a mediania coletiva