Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Futebol internacional

Steven Gerrard já só está a 160 quilómetros de Liverpool

Após três épocas e o que já havia desta a treinar o Glasgow Rangers, na Escócia, o inglês regressa à Premier League para tomar conta do Aston Villa de Birmingham, que não fica assim tão longe da cidade e do clube de Gerrard, onde há muito lhe é vaticinado um regresso como treinador, depois de 17 anos a jogar no Liverpool

Diogo Pombo

Craig Foy - SNS Group

Partilhar

Sucede com quem é capaz de se fazer perdurar no mesmo lugar sendo uma concentração ambulante de ingredientes que falam ao coração de adeptos não só desse clube, mas de futebol. Há um canto no coração para histórias como a de Steven Gerrard, nascido em Liverpool, cheio de Liverpool a adornar-lhe o sotaque em cada palavra dita e a representar Liverpool mais ainda, à medida que os anos iam passando.

O rapaz transbordava scouse das entranhas. Aos 23 anos já era o capitão da equipa ainda titubeante, à procura de si própria na pista dos titulados anos 70 e 80 e a desiludir, num e noutro ano, salvo as taças de Inglaterra e da Liga que resgatou à lei das marretadas de longa distância que lhe saiam do pé direito, ou a Liga dos Campeões (2005) conquistada quando foi a sua cabeça a inicia a reviravolta de um 0-3 ao intervalo.

Steven Gerrard contou 17 anos na equipa principal do Liverpool a perseguir a Premier League na qual o clube ficaria três décadas sem tocar. Quase a sentiu de raspão, em 2014, quando escorregou durante a antepenúltima jornada e o retrancado Chelsea de José Mourinho marcou o golo. O momento ficou-lhe etiquetado. De toda a gente possível, a fortuna escolheu falhar à alma do Liverpool que, dois jogos antes e após uma vitória contra o eventual campeão Manchester City, reunira os jogadores em roda para os urgir: "não vamos deixar isto escorregar".

O pé que tragicamente falhou no tal dia a Gerrard precipitou-lhe a saída do Liverpool na temporada anterior à chegada de Jürgen Klopp, o dínamo transformador que mandou abaixo as trepadeiras dos hábitos recentes e restaurou uma vida ganhadora ao clube, ou, pelo menos, uma vertigem para andar sempre perto do taco-a-taco dos troféus.

O inglês levaria o pôr do sol da sua versão jogador para os EUA, cumprindo duas épocas no Galaxy de Los Angeles, longe da notoriedade que o acompanha num passeio pelas ruas de Liverpool, onde retornou em 2016 para se iniciar como treinador nos juniores do clube. Um par de anos lá e o Rangers arriscou que um grandioso futebolista poderia ser o homem a alinhar o ponto cruz na escalada de regresso do gigante de Glasgow ao topo da Escócia.

Neville Williams/Getty

Gerrard fez do Rangers novamente campeão do país (2020/21), o primeiro título após a falência e refundação do clube desde a cave do futebol do país. Agora uma figura de fato, gravata e sobretudo vestidos, o inglês trabalhou do banco uma equipa muito vertical no uso da bola, intensamente pressionante sem ela e com um tipo de jogo que, discutam-se preferências ou eficácias, tornou a equipa competitiva.

Impediu o Celtic de chegar ao décimo título consecutivo e, esta época, ia com quatro pontos de vantagem na frente do campeonato, mais uma vez com a equipa oleada para asfixiar qualquer adversário na reação às perdas de bola. E a Glasgow o Aston Villa foi buscá-lo, após despedir Dean Smith, o treinador que falava ao coração dos adeptos por ser filho de um steward de longa data do clube.

Steven Gerrard aceitou a proposta do atual 16.º classificado, elogiando "o quão ambiciosos são os planos do clube" e dando conta do seu "imenso orgulho" em chegar à Premier League, como treinador, na equipa de Birmingham.

A cidade fica apenas cerca de 160 quilómetros de Liverpool, pouca distância geográfica que ainda assim é superior ao que figurativamente separa o inglês do seu clube de sempre. Não é de agora que ver Gerrard, um dia, como treinador do Liverpool, é matéria de sonhos. Desde as primeiras carícias ao sucesso com o Rangers da maior lenda do clube deste século parece ser uma questão de tempo.