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Futebol internacional

Aos 25 anos, Mason sofreu uma fratura no crânio e retirou-se. Quatro anos depois, é adjunto do homem que o foi visitar ao hospital: Conte

Em janeiro de 2017, Ryan Mason, então jogador do Hull City de Marco Silva, sofreu um grave traumatismo craniano após um choque com Gary Cahill, do Chelsea de Antonio Conte, tendo mesmo corrido risco de vida. O italiano, que orientava a seleção transalpina na única vez que Mason representou Inglaterra, foi visitar o médio ao hospital depois do incidente. Mason teve de se retirar do futebol aos 26 anos e agora, com 30, reencontra Conte como adjunto do técnico no Tottenham

Pedro Barata

Tottenham Hotspur FC/Getty

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A 22 de janeiro de 2017, Ryan Mason entrou em campo em Stamford Bridge para mais um jogo da Premier League. Aos 25 anos, o médio havia realizado 66 partidas pelo Tottenham nas duas últimas temporadas, tendo-se mudado, no início daquela campanha, para o Hull City, formação na qual também se tornou opção regular.

Com Marco Silva a orientar os visitantes - que tinham na defesa Harry Maguire, atualmente no Manchester United, e Andy Robertson, do Liverpool, a primeira parte ainda não ia a meio quando se produziu um violento choque de cabeça entre Mason e o capitão do Chelsea, Gary Cahill. As caras de preocupação rapidamente se alastraram pelo campo e Ryan, após ter tido a necessidade de receber oxigénio ainda no relvado, foi substituído.

O momento do choque entre Cahill e Mason

O momento do choque entre Cahill e Mason

Catherine Ivill - AMA

Mason foi levado para o hospital, onde foi realizada uma intervenção cirúrgica. Dada a complexidade do problema, o inglês esteve mesmo em risco de vida, enfrentando um longo período de recuperação.

Cerca de um ano depois do choque com Cahill, Mason, então com 26 anos, anunciou o fim precoce da sua carreira desportiva: "Trabalhei incansavelmente para regressar. Infelizmente, seguindo o conselho de médicos especialistas, não tenho outra opção que não seja a de me retirar, devido aos riscos inerentes ao tipo de lesão”, escreveu o britânico na sua mensagem de despedida.

Na sequência da sua retirada, Mason contou, à "FourFourTwo", as suas memórias daquele dia do início de 2017, relembrando uma "dor impossível de imaginar" aquando do momento do choque e frisando o papel do médico do Hull, que "percebeu que havia uma fratura de crânio e que podia haver lesões cerebrais", porque o jogador tinha "o lado direito do rosto paralisado".

"O motorista da ambulância queria-me levar para o hospital mais próximo, mas o doutor recusou e insistiu que me levassem para o St. Mary's. Passámos por dois hospitais antes de chegarmos lá", explicou Mason, realçando a importância desta decisão do médico, porque, "se tivesse ido para um dos outros hospitais", teria sido realizada uma radiografia e só depois sido encaminhado para o St. Mary's, "perdendo-se tempo precioso": "61 minutos depois da lesão, eu estava a ser operado, e isso fez a diferença".

"Ao todo, tenho 14 placas de metal no crânio e 28 parafusos que as mantêm no lugar. Levei 45 pontos para fechar a ferida na minha cabeça", revelou o inglês, que contou ter sido informado que, caso tivesse voltado a jogar e voltado a cabecear uma bola, "havia sérios riscos de sofrer de demência ou epilepsia antes dos 29 anos."

Jogadores do Tottenham, em 2017, com camisolas de apoio a Mason

Jogadores do Tottenham, em 2017, com camisolas de apoio a Mason

Andrew Matthews - PA Images/Getty

Após "lidar com o choque de ter de se retirar e com a forma como tudo aconteceu", o "bicho de treinar" picou Mason, que não conseguiu "fugir dele", sobretudo tendo o objetivo de "ajudar jogadores e ter impacto nas suas carreiras e vidas". Em 2019, passou a fazer parte dos quadros técnicos da formação do Tottenham, o clube pelo qual começou a jogar com oito anos e onde passou a maior parte da sua curta carreira de atleta.

Na temporada passada, na sequência do despedimento de José Mourinho, Mason orientou sete encontros dos spurs como treinador principal. E, esta época, nova saída de um português, desta feita Nuno Espírito Santo, levou a nova experiência marcante para o inglês.

Antonio Conte foi contratado pelo Tottenham para o lugar de Nuno e pretendia alguém para transmitir "sentimento de pertença" na equipa técnica. Então, falou com Ryan Mason, formado no clube e conhecedor da realidade dos londrinos, para ser seu adjunto. A resposta foi um "sim" que marcou um reencontro marcante.

"É um pouco estranho. Quando eu tive a minha lesão, foi contra a equipa dele em Stamford Bridge. Ele foi ao hospital ver-me a mim e à minha família. Para ser honesto, eu não me recordo bem disso, devido ao tipo de lesão que tive, mas há uma fotografia na qual ele está ao lado da minha cama e eu acho que isso demonstra o tipo de homem que ele é: um indivíduo de grande classe", contou Mason às plataformas de comunicação do Tottenham.

Quase cinco anos depois do incidente, Mason reencontra-se com Conte, que considera ser "um dos melhores treinadores do mundo". O técnico reconhece ser uma "situação estranha" e relembra ter ido visitar o então jogador ao hospital, "porque foi uma lesão muito séria".

Mas as ligações entre os dois não terminam aqui. A 31 de março de 2015, Ryan Mason disputou o seu único jogo pela principal seleção inglesa frente à Itália de Antonio Conte. "A minha única internacionalização foi contra a seleção dele, pelo que temos aí outra união", reconheceu o britânico.

Para o agora adjunto, os "títulos de Conte falam por si", tratando-se esta de uma "grande oportunidade" para o Tottenham ser orientado pelo transalpino, desejando Mason que venham aí um "período de êxitos para o clube".

"Eu e ele temos esta história. Espero que possamos unir-nos e criar algo positivo para o Tottenham agora", rematou Mason, o homem de 30 anos que já fechou uma carreira, abraçou outra e se reencontra agora com alguém que é uma espécie de ponte entre ambos os momentos.