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Futebol internacional

A Dinamarca usará o Mundial para “lutar pelos direitos humanos no Catar”: em vez de patrocínios, terá mensagens humanitárias na camisola

A seleção nórdica comunicou que os seus parceiros comerciais não irão participar em atividades de promoção no Catar e que os dois patrocinadores da camisola irão ceder o seu espaço a mensagens humanitárias e críticas. A Dinamarca, que pretende que a sua participação no Mundial seja "puramente desportiva e não de promoção", promete também "estar atenta" ao cumprimento dos direitos dos trabalhadores que estiverem no hotel e nas instalações que a equipa utilizar no Catar

Pedro Barata

Lars Ronbog/Getty

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Ao longo dos últimos meses, a Dinamarca tem impressionado pelo seu futebol alegre e ofensivo, capaz de levar a seleção às meias-finais do Europeu ou de garantir a presença no Mundial após oito vitórias nos primeiros oito encontros de qualificação, nos quais não sofreu qualquer golo. Mas, além do jogo de qualidade da equipa liderada por Kasper Hjulmand, outro tema de debate tem surgido recentemente no país.

No meio dos festejos pela obtenção do bilhete para a maior prova futebolística do planeta, várias vozes se levantavam no país a pedirem que a situação humanitária no Catar não fosse ignorada. Recorde-se que, nos cálculos feitos pelo "The Guardian", morreram cerca de 6.500 trabalhadores migrantes desde 2010 no Catar, desde que se soube que lá seria o palco do próximo Mundial (e o "New York Times" estimou que a edição de 2018 renderia €6,1 mil milhões em lucros para a FIFA), tendo o processo de atribuição do torneio ao país estado envolto em casos de corrupção e suborno, que levaram vários dirigentes a serem afastados do futebol e até ao banco dos réus.

Já a 31 de março, no duelo de qualificação para o Mundial disputado na Áustria, os jogadores da seleção da Dinamarca utilizaram camisolas a dizer "o futebol apoia a mudança", numa mensagem a favor de melhores direitos para os trabalhadores do Catar.

Jogadores da Dinamarca com camisolas com a mensagem "o futebol apoia a mudança"

Jogadores da Dinamarca com camisolas com a mensagem "o futebol apoia a mudança"

NurPhoto/Getty

Mais recentemente, no embate em Copenhaga frente à Áustria, em outubro, a Amnistia Internacional levou para o estádio Parken uma tarja com a inscrição "Direitos Humanos para Trabalhadores Migrantes". Uma outra mensagem, na qual se lia "boicote ao Catar 2022", também constava no interior do recinto, mas foi ordenada a sua remoção — o porta-voz da Federação da Dinamarca disse que, ao ser uma "mensagem política", as regras da FIFA obrigavam a que fosse retirada, sob pena de castigo à seleção.

O selecionador Kasper Hjulmand também abordou a questão, confessando que a Federação da Dinamarca gostaria que "outras federações" se juntassem ao debate sobre os direitos humanos no Catar, para haver "uma voz mais forte" sobre o tema, lamentando o técnico que "isso não pareça ser do interesse de algumas pessoas" além dos dinamarqueses.

O assunto também chegou ao parlamento, onde a Ministra da Cultura foi questionada sobre a relação da seleção com as acusações feitas ao Catar.

Ane Halsboe-Jorgensen descartou qualquer "boicote" ao torneio, mas considerou ser "exemplar" que a Dinamarca tenha "uma seleção que se interessa pelo enquadramento da competição", ainda que não se deva "tomar os jogadores como politicamente responsáveis em temas de relações internacionais".

Ora, depois de toda esta discussão nacional, a Federação da Dinamarca anunciou, em comunicado oficial, o "lançamento" de "uma série de iniciativas críticas para lutar por melhorar os direitos humanos no Catar". De acordo com a entidade, o objetivo é "pressionar a organização" do torneio.

Assim, segundo o comunicado, os parceiros comerciais da Federação não irão participar em atividades de promoção do Catar — a menos que sejam "ativistas ou de diálogo crítico" — e os dois patrocinadores de camisolas da seleção irão ceder o seu espaço a mensagens humanitárias e críticas.

A entidade pretende que a sua participação no Mundial seja "puramente desportiva e não de promoção" ao Catar, ou dos eventos realizados pela organização do certame. Neste sentido, a Federação irá "minimizar o número de viagens" feitas ao país por parte dos seus "funcionários ou parceiros", vincando também a intenção de "só participar em atividades que possam contribuir politicamente para melhorar as condições dos trabalhadores migrantes".

Informando estar "em contacto" com Organizações Não Governamentais e de adeptos, a federação dinamarquesa insiste na "manutenção do diálogo crítico" com a FIFA e os organizadores do Mundial e assegura que "estará atenta" ao cumprimento dos direitos dos trabalhadores que estiverem no hotel e instalações que a equipa utilizar no Catar, zelando para que sejam cumpridos.

"Há muito tempo que criticamos fortemente o Mundial do Catar", disse Jakob Jensen, CEO da federação, que pretende "aproveitar o facto de a Dinamarca estar qualificada para trabalhar por mais mudanças" no país. Jensen elogiou também a cedência do espaço dos patrocinadores em prol de mensagens humanitárias, relembrando a Federação que "desde 2015 tem mantido um diálogo crítico sobre o Mundial, incluindo várias visitas ao Catar".

LISELOTTE SABROE/Getty

A Federação termina fazendo referência à "colaboração contínua" que tem tido com a Amnistia Internacional, realçando a "possibilidade participar em novas iniciativas para melhorar as condições no Catar" até ao arranque do Mundial.

Um novo relatório da Amnistia Internacional alertou, na terça-feira, para a existência de "milhares de trabalhadores em risco" no Catar, devido a práticas laborais comparadas ao esclavagismo. Uma das principais acusações prende-se com a recusa em investigar as mortes dos milhares de trabalhadores migrantes que faleceram no país ao longo da última década, recusa que leva a que as famílias dos referidos trabalhadores tardem em receber indemnizações justas.

A Federação de Futebol da Dinamarca assegura que "fará o acompanhamento" deste último relatório, estando atenta à "aplicação das reformas no Catar", mesmo "quando terminado o Mundial".