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Futebol internacional

O Afeganistão jogou pela primeira vez pós-tomada dos talibãs: “Fizeram-no pelas pessoas inocentes que quase nada têm para sorrir”

Ao fim de dois períodos para encontros de seleções em que não entraram em campo, os jogadores do Afeganistão ganharam um jogo particular à Indonésia, na terça-feira, em Anatólia, na Turquia. Longe do país onde nos últimos 18 anos só jogaram duas vezes, os afegãos tiveram a ajuda da FIFA para financiar as despesas. A Tribuna Expresso falou com Omran Haydary, internacional do Légia Gdansk e que falhou a partida por lesão, mas bem ciente está das dificuldades sentidas pela seleção desde a tomada do país pelos talibãs

Diogo Pombo

Federação de Futebol do Afeganistão

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Há sementes cujo solo fértil é a infância, pedem para ser plantadas na esponja das mentes infantis e, em pequenos, muito nos dizem que tomar o todo pela parte é errado, que generalizar é desonesto. E Omran Haydary recorre à generalização. Não hesita. Mesmo sem fisicamente estar com as pessoas sobre quem fala, as suas palavras são um garante. “Os meus amigos e companheiros de equipa fizeram-no, todos, pelas boas e inocentes pessoas que quase nada têm para rir ou sorrir”, lamenta, apesar de estar longe de Antália, na Turquia.

A cidade à beira-Mediterrâneo teve, na terça-feira, um jogo do tipo que se diz ser de evitar para catalogar qualquer jogo, mas foi um amigável, só poderia sê-lo. O Afeganistão encontrou-se lá com a Indonésia, ganhou por 1-0 e o que seria a redundância do 152.º classificado do ranking da FIFA enfrentar o 165.º encheu-se de significado por esta ser a primeira vez que onze afegãos entravam num campo de futebol em nome do país desde que os talibãs lhe tomaram as rédeas, em agosto. Desde então que pouco ou nada de amigabilidade se sabe acerca do Afeganistão.

Omran Haydary é um afegão nascido nos Países Baixos. Tem 23 anos, é avançado e foi convocado para o jogo que falhou. “Acabei de voltar de uma lesão e não estou com ritmo, portanto, passei este”, escreve à Tribuna Expresso, da Polónia, onde representa o Légia Gdansk e soube da vitória da seleção. Não está na Turquia desde 11 de novembro, quando o estágio da equipa começou graças à FIFA porque, como noticiou o “The Athletic”, o financiamento do governo afegão à federação de futebol do país terá sido congelado. Não havia dinheiro com que pagar as viagens aos jogadores convocados.

Essa e outras coisas “pouco claras desde o início” ameaçaram o encontro no qual os futebolistas queriam participar. “Exceto este jogo ou um jogo de críquete, se forem fãs disso, as pessoas não tinham nada”, lamenta Omran Haydary, referindo-se à recente participação do Afeganistão no Mundial de T20 (uma variante de críquete). “É triste, há milhões de pessoas inocentes que nada fizeram para merecer isto”, acrescenta. O “isto” é a ditadura dos talibãs que tomaram o Afeganistão para o governarem de acordo com a sua interpretação da lei islâmica, como o fizeram até 2001.

HECTOR RETAMAL/Getty

Os direitos humanos sofrem, os das mulheres são espezinhados — nem desporto são autorizadas a praticar — e Omran até ouviu falar “há um par de semanas” que iriam “mudar o hino nacional e a bandeira do país”. A seleção de futebol ou a de críquete terem sequer a possibilidade de jogar parece até ser mais um cortejo escancarado dos talibãs à opinião pública internacional, mas nem tudo está como antes estava: “Normalmente, a seleção tem sempre algumas pessoas a virem do Afeganistão, como o roupeiro, quem grava os jogos em vídeo ou o analista, mas, agora, ninguém veio. Provavelmente, não foram autorizados a sair do país”.

Anatólia serviu de casa emprestada à seleção e alguns jogadores também falharam a partida por não terem conseguido vistos para entrarem na Turquia. O Afeganistão ter de farejar locais para jogar que não o seu país é necessidade antiga: desde 2003 que não têm uma partida oficial em Cabul e, depois, só em 2013 e 2018 realizaram encontros particulares na capital afegã. Antes, entre 1984 e 2002, a seleção nunca entrou em campo. O único jogo a sério em ‘casa’, este ano, aconteceu em Doha, no Catar e contra o Omã, a contar para a 1.ª fase de grupos do apuramento asiático para o próximo Mundial.

Nessa partida e na realizada esta terça-feira, o treinador era Anoush Dastgir, filho de afegãos fugidos do país quando ele era criança. Também cresceu nos Países Baixos, tornar-se-ia adjunto do anterior selecionador e ficou no cargo quando vagou. Tem apenas 32 anos e “mostrou uma grande responsabilidade”, explica Omran Haydary: “Teve de fazer tudo, até marcar e preparar os voos [para os jogadores]. Agora, infelizmente, faz o trabalho de cinco pessoas além do seu, enquanto selecionador”.

O Afeganistão ainda é, provavelmente continuará a ser, uma seleção feita com jogadores fugidos do país em criança, nascidos longe dele ou que jogam no estrangeiro já faz tempo. Omran garante que todos jogam por quem “nada fez para merecer” o que está a acontecer na nação, nem “pode fazer o que seja para mudar” a situação. Não querendo tocar em questões políticas e relacionadas com os talibãs, o avançado resume que “nunca se sabe o que o futuro nos reserva”, daí preferir focar-se no que pode ser mais realista: “que possamos participar normalmente nos jogos de qualificação do próximo ano [para a Taça da Ásia]”.