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Futebol internacional

O Mundial vem aí, mas a muito custo para os trabalhadores envolvidos no Catar: “Caímos numa armadilha e não conseguimos sair"

As condições a que os funcionários envolvidos na preparação do Mundial 2022 estão sujeitos tem atraído muitas atenções, pelos piores motivos. O jornal britânico ‘The Guardian’ chegou à fala com os próprios, que confirmam que a situação está longe de ser a melhor

Rita Meireles

Matthew Ashton - AMA

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Quando um país recebe uma competição como um Mundial de futebol não tem apenas que ter estádios preparados para o evento, tem também que preparar a receção de milhares de pessoas de todo o mundo integradas nas equipas organizadoras, pertencentes a alguma seleção ou apenas adeptos dos países em competição. Entre muitas outras coisas, são necessários hotéis.

Para isso, a FIFA colocou à disponibilidade dos visitantes um website onde é possível planear e comprar a estadia no Catar, no próximo ano, através de um catálogo com hotéis e resorts parceiros para a época de competição.

Mas, se é verdade que quando os hóspedes lá chegarem vão encontrar um espaço luxuoso, com todas as comodidades, é igualmente factível que até isso ser uma realidade, vários trabalhadores estarão a passar por dificuldades, como verificou o jornal ‘The Guardian’, que visitou sete dos hotéis em catálogo e entrevistou cerca de 40 dos funcionários.

“Por vezes, pergunto-me porque vim para aqui", afirmou um dos trabalhadores ao ‘The Guardian’. "O Campeonato do Mundo é uma coisa importante e todos gostam, mas a forma como nos tratam... estamos todos cansados disso".

Muitas horas de trabalho seguidas, sem dias de folga, alojados em espaços pequenos com muitas pessoas juntas ou com salários de menos de 1,50 euros por hora são algumas das situações que os funcionários denunciaram.

Além disso, deixar este trabalho tornou-se impossível, ainda que a legislação no país o permita: “Os meus amigos tentaram mudar de emprego, mas a nossa empresa recusa-se a deixá-los ir. Temos de o aceitar. O nosso patrão faz o que quer", lamentou outro trabalhador, identificado como David para que a sua verdadeira identidade seja protegida.

Outra pessoa denunciou o facto de as entidades empregadoras oferecem bónus nos salários em troca da entrega dos passaportes por parte dos funcionários, mesmo com o país a considerá-lo ilegal. Segundo um outro trabalhador, os passaportes são confiscados para que ninguém tenha a possibilidade de deixar aquele cargo: “Talvez pensem que se tiveres o teu passaporte, podes fugir para outra empresa. Não temos outra opção, por isso aceitamos o que está em cima da mesa".

O jornal britânico chegou à fala com alguns funcionários que se mostraram felizes com as suas posições e o alojamento que têm à disposição. Mas esses são a minoria. Os restantes encontram-se numa situação em que, por um lado, têm as exigências laborais a que estão sujeitos, e por outro a necessidade de enviar dinheiro para casa.

“Caímos numa armadilha e não conseguimos sair", afirmou outro trabalhador de um hotel.

Já criticada pela Amnistia Internacional, a FIFA veio a público garantir que “leva muito a sério qualquer reclamação relativa aos direitos dos trabalhadores que contribuem para o acolhimento de eventos da FIFA”. Ainda assim, nada indica que a situação se tenha alterado para os trabalhadores no Catar.