Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Futebol internacional

“Vocês sabem o que este clube significa para mim”: o adeus incomum de um treinador dispensado

Ao longo de quase 12 minutos, Ole Gunnar Solskjær sentou-se com a televisão do Manchester United e desabafou o que havia para desabafar. Entre memórias, lamentos e esperanças, o treinador norueguês ofereceu um lado quase nunca visto neste desporto: dignidade no adeus

Hugo Tavares da Silva

Matthew Peters/Getty

Partilhar

Não é um cenário comum. Ole Gunnar Solskjær, o quase cinquentão que ainda tem um rosto juvenil e gentil, foi dispensado como treinador do Manchester United, após derrota pesada com o Watford, e sentou-se com a televisão do clube para se despedir. Os olhos brilhavam como quem queria fazer chover, mas as linhas vermelhas eram essas mesmas, era o momento de travar as palavras quando a emoção ameaçava tomar conta da cena. Só tremeu realmente quando mencionou Michael Carrick, o ex-futebolista e adjunto. Quando a vulnerabilidade está mal vista, esta postura é admirável.

O norueguês avisou logo que não daria entrevistas e que ia sair pela porta da frente. Esta é uma daquelas conversas em que quando damos por nós levamos um sorriso idiota nos lábios. É nestas alturas que o futebol, o tal monstro implacável que saliva por resultados, ganha sentidos e é mais humano outra vez. “Vocês sabem o que este clube significa para mim”, disse, para explicar aquela atitude.

“Toda a gente sabe que eu dei tudo por este clube. Este clube significa tudo para mim e somos um bom match, mas, infelizmente, não consegui os resultados que precisávamos e é tempo de me afastar”, desabafou, garantindo que as fundações para o sucesso estão bem assentes no chão.

Ao longo da entrevista, daqueles quase 12 minutos, tempo quase simbólico para quem foi um suplente de luxo, Ole Gunnar explicou que o clube é como uma família, que há boas pessoas, que haverá miúdos a saltar da formação e que, se há coisa que ele sabe fazer, é criar um bom ambiente. Afinal, os trabalhadores têm de sentir gosto em ir para ali.

Charlie Crowhurst

Entre lamentos por aqueles penáltis que lhe roubaram a alegria de vencer a Liga Europa, entre memórias da recuperação na classificação que fez assim que chegou, assim como o segundo lugar na temporada 2020/21, o herói de Camp Nou (1999) foi lembrado sobre aquela noite de Paris, em que, contra todos os futuros adivinhados, eliminou o Paris Saint-Germian na Liga dos Campeões.

“Foi provavelmente a primeira noite em que alguns destes rapazes experienciaram o que é realmente o Manchester United. Estivemos a perder e fora, toda a gente pensou que não teríamos hipóteses contra uma boa equipa com bons jogadores. Mas eles mostraram o orgulho e caráter do Manchester United. Aquela exibição… lembrá-la-ei, claro, e eu tenho uma fotografia muito boa com sir Alex [Ferguson] e com o Eric [Cantona]. Boas memórias”, ia contando, com um sorriso de quem dorme com a consciência tranquila.

O agora ex-treinador pediu que os adeptos continuem a apoiar a equipa. “Eles têm sido incríveis comigo desde um dos meus primeiros remates na bola — eu marquei com um dos primeiros remates — até agora. Tenho a certeza que nos encontraremos outra vez.” Afinal, se há um lugar onde estará para ver um jogo de futebol, “é em Old Trafford”.

O Manchester United está na oitava posição da Premier League, com 17 pontos, a 12 do líder Chelsea. Já foi eliminado da Taça da Liga e está em risco de ser eliminado na Liga dos Campeões. Para a vaga de treinador de um dos maiores clubes do mundo estão agora a ser associados nomes como Mauricio Pochettino (PSG), Zinedine Zidane e Erik ten Hag (Ajax).

Depois de David Moyes, Louis van Gaal, José Mourinho e agora Ole Gunnar, a saída de Alex Ferguson, em 2013, continua a ser complicada de colmatar. Foi a última vez que o United conquistou a Premier League. De lá para cá, os red devils venceram apenas uma Liga Europa, uma Taça da Liga, uma Taça de Inglaterra e a uma Supertaça Inglesa (três desses triunfos foram obra de Mourinho).

E o que se segue agora para Solskjær? O norueguês diz que terá mais tempo para a família, "foi a parte mais difícil", já que está separado da mesma por causa da pandemia de covid-19.

“Vou ver a equipa, claro. Um novo treinador vai entrar e quero apoiá-lo. Quero que ele tenha sucesso, espero ter deixado as fundações para isso acontecer”, desabafou, admitindo depois um eventual regresso ao futebol.

Vem aí um jogo decisivo para a Liga dos Campeões, com o Villarreal. “Como lhes disse esta manhã: ‘confiem em vocês, sabem que somos melhores do que isto. Não temos conseguido mostrar, mas entrem em campo, com o peito para fora, desfrutem por serem um jogador do Manchester United, na Liga dos Campeões, o maior palco’”, ia contando, até que as linhas vermelhas soaram como nunca.

“O Michael [Carrick] estará a cargo da equipa. O Michael… eu tenho o maior respeito por ele, eu adoro o Michael…. Estou a ficar emocional agora porque ele é top”, ia misturando as palavras com gestos de braços a cruzar, como quem pedia para fecharem a entrevista. “Eles ficarão bem. Vou vê-los e apoiá-los.”

E foi assim, com o peito para fora, que Ole Gunnar Solskjær disse adeus ao “sonho” no seu Manchester United, onde chegou em 1996/97 para marcar o que seria uma chuvarada de golos. Por ali ficou até 2007, quando pendurou as botas. Logo a seguir, o noruguês assumiu as reservas do clube até 2010/2011.