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Futebol internacional

Dois jornalistas noruegueses que estavam a investigar as condições dos trabalhadores migrantes no Catar foram detidos

Halvor Ekeland e Lokman Ghorbani, da televisão pública da Noruega, estiveram detidos durante mais de 30 horas com a justificação oficial de terem "invadido propriedade privada e filmado sem autorização". O primeiro-ministro norueguês já descreveu a situação como sendo "inaceitável"

Pedro Barata

GIUSEPPE CACACE/Getty

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Halvor Ekeland e Lokman Ghorbani, jornalista e repórter de imagem da "NRK", a televisão pública da Noruega, viajaram para o Catar a 14 de novembro. Tinham como objetivo investigar e reportar vários aspetos relacionados com o país a um ano do arranque do Mundial 2022, nomeadamente as condições de vida dos trabalhadores migrantes, um dos temas mais discutidos em relação à organização do torneio.

No domingo à noite, Ekeland e Ghorbani preparavam-se para rumar ao aeroporto de Doha, onde apanhariam o seu voo de regresso à Noruega, quando foram detidos pelas forças de segurança do Catar. Os dois ficaram detidos durante mais de 30 horas e viram as filmagens que tinham feito numa zona onde trabalhavam migrantes serem apagadas.

Na manhã desta quarta-feira, Halvor Ekeland e Lokman Ghorbani regressaram à Noruega após terem sido libertados.

Em comunicado oficial, o governo do Catar disse que a detenção se deveu a "invasão de propriedade privada" e "filmagens sem autorização". No texto, confirma-se que os jornalistas foram detidos "no seu hotel" após "uma queixa feita pelo dono de uma propriedade privada à qual a equipa havia acedido ilegalmente".

No Catar, os jornalistas precisam de autorização para as filmagens, e, segundo as autoridades de Doha, os noruegueses não tinham a permissão para gravar no referido local de trabalho de migrantes. "As imagens registadas sem autorização foram apagadas, de acordo com a lei do Catar", lê-se no comunicado.

Jonas Gahr Stoere, primeiro-ministro da Noruega, já qualificou o sucedido aos jornalistas como sendo "inaceitável". Numa mensagem publicada no Twitter, Jonas Gahr Stoere vincou que "uma imprensa livre é crucial numa democracia que funcione", confessando-se "feliz" por Ekeland e Ghorbani estarem em liberdade.

Segundo a agência de notícias norueguesa "NTB", o embaixador do Catar na Noruega foi chamado pela ministra dos negócios estrangeiros (MNE) do país para discutir este caso. Anniken Huitfeldt, a MNE do país nórdico, disse, citada pela televisão pública "NRK", que os profissionais foram "detidos enquanto faziam o seu trabalho jornalístico".

O sindicato dos jornalistas da Noruega e a federação de futebol do país já criticaram o sucedido. Thor Gjermund Eriksen, diretor da "NRK", canal para o qual a equipa trabalhava, assegurou que a estação "não foi informada da detenção", classificando-a como "um ataque à imprensa livre": "É inaceitável que a imprensa seja impedida de praticar jornalismo livre e independente num dos maiores eventos desportivos do mundo. Iremos discutir como tratar disto com a FIFA", lê-se, também, em comunicado.

À chegada ao aeroporto de Oslo, Ekeland confirmou que esteve, tal como o seu colega, "detido durante 32 horas". O repórter disse ser "muito bom estar de volta a solo norueguês", admitindo terem sido "dias difíceis" e garantindo que, "após várias reuniões" com a televisão onde trabalha, irá "tecer mais comentários".

Halvor Ekeland (direita) e Lokman Ghorbani (esquerda) são recebido por Egil Sundvor, editor de desporto da "NRK", à chegada à Noruega

Halvor Ekeland (direita) e Lokman Ghorbani (esquerda) são recebido por Egil Sundvor, editor de desporto da "NRK", à chegada à Noruega

HAKON MOSVOLD LARSEN/Getty

Ekeland e Ghorbani tinham agendada, durante a sua presença no Catar, uma entrevista com Abdullah Ibhais, cidadão da Jordânia e antigo diretor de comunicação do Mundial 2022. Ibhais tornou-se num crítico da organização do torneio, tendo sido condenado, em abril, a cinco anos de prisão "por corrupção", num julgamento considerado "injusto" pela Human Rights Watch por ser "baseada na confissão obtida através de ameaças e coacção", não tendo Ibhais acesso a um advogado durante os primeiros nove dias após a sua detenção inicial, em novembro de 2019.

Abdullah Ibhais recorreu da sentença e tinha uma entrevista marcada com os noruegueses, mas foi detido horas antes da conversa agendada com Ekeland e Ghorbani. De acordo com a Amnistia Internacional, esta detenção foi "arbitrária".

No domingo, os dois noruegueses realizaram a sua última emissão no Catar antes do voo de volta que ser impedidos de apanhar. Num programa de notícias da "NRK", o "Sportsrevyen", Ekeland disse ter presenciado "contrastes acentuados" nas condições dos migrantes, estando alguns trabalhadores "muito mal".

O que mais impressionou o norueguês durante os dias passados no Catar tinha sido "o medo nos olhos" dos trabalhadores quando "lhes era pedida uma entrevista para ser gravada pela câmara". Horas depois desta emissão, jornalista e o repórter foram detidos.

Nos cálculos feitos pelo "The Guardian", morreram cerca de 6.500 trabalhadores migrantes desde 2010 no Catar desde que se soube que lá seria o palco do próximo Mundial (e o "New York Times" estimou que a edição de 2018 renderia €6,1 mil milhões em lucros para a FIFA), tendo o processo de atribuição do torneio ao país estado envolto em casos de corrupção e suborno, que levaram vários dirigentes a serem afastados do futebol e até ao banco dos réus.