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A estratégia sem bola do Braga e um problema recorrente do Sporting ao longo da época: a análise que explica o Braga-Sporting

O analista Tiago Teixeira explica-nos o que aconteceu, taticamente falando, no Sporting de Braga-Sporting, jogo que "não foi de grande qualidade em termos ofensivos" e que acabou por ser conquistado pela equipa de Abel Ferreira, já perto do final, num bola parada

Tiago Teixeira, analista de futebol e criador do blogue Domínio Tático

HUGO DELGADO

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O Sporting, estruturado no seu 4-4-2 habitual, com Bryan Ruiz como médio-centro, dada a ausência de William e o consequente recuo de Battaglia para a posição de médio defensivo, entrou melhor no jogo do posto de vista tático. A estratégia de Jorge Jesus passou por condicionar a 1ª fase de construção do Sporting de Braga através de uma pressão alta e com as linhas muito subidas.

Bas Dost e Bruno Fernandes, muito pressionantes, não deixaram os centrais do Braga (Bruno Viana e Raúl Silva) progredir com bola, e com os médios do Sporting Battaglia e Bryan a bascular para o lado da bola e também muito pressionantes sobre os médios do Sporting de Braga (Vukcevic e André Horta), a equipa de Abel ficou sem espaço para sair de forma apoiada. Isto levou a que o Sporting recuperasse sempre a posse de bola rapidamente - e os 20min de jogo a posse de bola era cerca de 30-70%, a favor dos leões.

A pressão alta do Sporting contra o Sporting de Braga

O Sporting de Braga, organizado em 4-4-2 num bloco médio muito compacto, embora não tenha iniciado a pressão numa zona tão subida, foi sempre muito pressionante quando o Sporting se aproximava da linha de meio campo.

A organização defensiva do Braga, num bloco médio compacto, em 4-4-2

A organização defensiva do Braga, num bloco médio compacto, em 4-4-2

Paulinho e Wilson, na 1ª linha de pressão, impediram que a bola entrasse nas suas costas (o espaço entre a linha avançada e linha média) e a proximidade entre a linha defensiva e a linha média não permitiu espaço para que os jogadores leoninos conseguissem receber a bola lá, dificultando os ataques adversários.

Na 2ª parte, a pressão do Sporting já não foi tão eficaz e o Sporting de Braga conseguiu construir de forma mais apoiada e com maior intervenção dos médios, principalmente de André Horta. Dost e Bruno Fernandes continuavam a pressionar os centrais adversários, mas os médios Bryan e Battaglia já não pressionavam tanto os médios do Sporting de Braga, dando-lhes a possibilidade de receber a bola nas costas da 1ª linha de pressão do Sporting.

A construção mais apoiada do Sporting de Braga

Por sua vez, o Sporting de Braga começou a condicionar a construção do Sporting em zonas mais altas, o que levou a que a equipa de Jesus sentisse mais dificuldades em sair de forma apoiada.

Wilson e Paulinho começaram a pressionar os centrais do Sporting mais perto da área de Patrício, André Horta e Vukcevic subiram o seu posicionamento de modo a não deixar Bryan e Battaglia receber a bola com espaço, e o Braga passou a obrigar o Sporting a construir de forma mais direta - e com isso a recuperar a bola mais rapidamente.

A pressão alta do Braga na 2ª parte

A pressão alta do Braga na 2ª parte

Durante a 2ª parte (e em muitos momentos da 1ª também), o Sporting voltou a demonstrar um problema bastante recorrente durante esta época: a enorme dificuldade em criar pelo corredor central.

Tirando os momentos em que o jogador que recebeu a bola teve espaço para rodar e progredir (aconteceu duas vezes na 2ª parte, com Bruno Fernandes e Gelson a receberem a bola entre linhas e a conduzirem em direção à baliza do Braga), o Sporting demonstrou sempre enormes dificuldades em conduzir o seu processo ofensivo pelo corredor central.

A organização ofensiva do Sporting contra o Braga

Neste lance que serve de exemplo, Gelson até consegue receber a bola no espaço entre a linha defensiva e a linha média do Braga, mas ao ser pressionado pelas costas por Raúl Silva e rodeado por Ricardo Horta, André Horta e Wilson, acaba por perder a bola, uma vez que não tinha nenhum colega com quem combinar pelo corredor central.

Se um dos avançados (Dost ou Bruno Fernandes) estivesse no posicionamento assinalado na imagem que se segue, Gelson teria tido condições para após receber a bola, combinar logo com o seu colega, deixando-o apenas com a linha defensiva do Braga pela frente.

Os colegas estavam demasiados afastados de Gelson e o Sporting sofreu para criar jogadas de perigo

Os colegas estavam demasiados afastados de Gelson e o Sporting sofreu para criar jogadas de perigo

Ofensivamente, não foi um jogo de grande qualidade de parte a parte. A estratégia sem bola de ambas as equipas saiu por cima em relação à forma como procuraram atacar.

Foram duas equipas com demasiada pressa em chegar à baliza adversária, mesmo em situações onde se impunha maior circulação de bola.

Houve sempre muita preocupação em vencer os duelos físicos e em condicionar o adversário, mas pouca criatividade coletiva para descobrir os melhores espaços para criar. Daí que o jogo só se tenha decidido numa bola parada, já a acabar.