Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

O pacificado José Mota (por Bruno Vieira Amaral)

José Mota é um símbolo, uma ideia, um arquétipo, um treinador admirado por Bruno Vieira Amaral e o escritor explica-nos porquê: "Não só resistiu à enxurrada de clones mourinhescos como não foi favorecido pela consagração do tipo de treinador com que mais se assemelha, o treinador de vasta experiência que, após uma vida a roer ossos, se vê recompensado com o Filet mignon de um grande"

Bruno Vieira Amaral

NUNO ANDRÈ FERREIRA

Partilhar

Quando, há cerca de década e meia, José Mourinho impôs a moda do treinador diplomado com a insolência da sua juventude, os seus mind games e o seu sobretudo, já José Mota era José Mota, treinador de meio da tabela, formado na universidade da vida e inspirado pelos vapores sagrados do balneário. Todas as semanas apareciam novos Mourinhos, clones saídos de uma fotocopiadora de toner quase vazio. Mais boné de patrocinador, menos boné de patrocinador, José Mota, esse, continuava imperturbável no seu percurso.

Entretanto, os anos passaram, Mourinho ganhou cabelos brancos, mais de azedume do que de sabedoria, e os seus clones, nascidos de geração espontânea, finaram-se espontaneamente sem deixar rasto na história do futebol. Mota manteve-se inabalável naquela zona intermédia onde muitos treinadores portugueses passam a maior parte da carreira, entre o nirvana da manutenção e o estalar do chicote. Até que, no ano passado, o treinador cometeu a dupla proeza de manter o Desportivo das Aves na primeira liga e conquistar a Taça de Portugal, uma espécie de Champions dos pequeninos. E conseguiu o feito sendo o mesmo José Mota de sempre.

Não só resistiu à enxurrada de clones mourinhescos como não foi favorecido pela consagração do tipo de treinador com que mais se assemelha, o treinador de vasta experiência que, após uma vida a roer ossos, se vê recompensado com o Filet mignon de um grande. Além de tudo isto, desenvolveu, embora involuntariamente, um estilo que não escapa ao olhar atento de certos adeptos. Passo a explicar.

Tenho um amigo – e isto não é figura de retórica – que abomina José Mota. Não a pessoa, que não conhece, mas o treinador. Para ser mais exato, abomina as equipas de José Mota. O interessante é que, para este meu amigo, uma equipa de José Mota não tem de ser treinada por José Mota. Pode ser uma equipa de José numa perspetiva exclusivamente espiritual. Tenho então de corrigir e dizer que o meu amigo abomina equipas à José Mota e que qualquer equipa por ele abominada passa automaticamente a ser uma equipa à José Mota. No entender do meu amigo, uma equipa à José Mota é uma equipa que pratica uma versão sem filosofia e sem glamour do catenaccio italiano.

José Mota é, pois, um símbolo, uma ideia, um arquétipo. Quando o meu amigo se refere depreciativamente às equipas que jogam à José Mota está, na verdade, a prestar-lhe uma homenagem involuntária. Para um treinador com o seu currículo, não é uma conquista menor. Porém, a minha apreciação do treinador do Desportivo das Aves é mais benévola e, ao contrário do meu amigo, não o associo a qualquer variante herética ou satânica do futebol. Na verdade, posso até dizer que o admiro.

Por esse motivo, compreendi as rajadas de indignação que, há menos de três meses, descarregou sobre os jornalistas após a final da Taça de Portugal. Não que tivesse razão nas queixas. Numa semana em que um grupo de sportinguistas do ramo xiita invadiu a academia de Alcochete, o desinteresse mediático pela preparação dos jogadores avenses foi não só natural como benéfica para a equipa de José Mota. O problema é que o treinador do Aves se viu numa situação paradoxal merecedora de toda a simpatia dos seus semelhantes: o maior triunfo da sua carreira ficou obscurecido por acontecimentos que, em certa medida, possibilitaram esse mesmo triunfo. Como observou Jorge Jesus, em dez jogos contra o Aves o Sporting ganharia dez. Mesmo descontando o otimismo estatístico a posteriori, a verdade é que José Mota foi o beneficiário inquestionável da fragilidade de um rival que se apresentou em campo desmoralizado e enfraquecido. Esse presente do acaso veio com um preço: os seus méritos não foram tão realçados como ele achava que uma tal conquista merecia.

Sem se poder queixar da sorte e das circunstâncias, escolheu então um alvo pouco original mas muito conveniente quando se trata de arranjar um inimigo externo mais ou menos difuso, a “comunicação social”.

Compreensivelmente eufórico pela vitória, a José Mota deu-lhe para acertar contas com o passado, como se quisesse cobrar ao mundo toda uma carreira de sacrifícios longe das luzes da ribalta, como se lhe fosse indispensável afirmar que não precisara de ir para um grande ou deixar de ser o velho José Mota para levar para casa o mais romântico dos troféus do nosso futebol. Porém, três meses são tempo suficiente para assimilar uma vitória improvável.

Anteontem, após o jogo da Supertaça, quem se apresentou à imprensa não foi o José Mota próximo da combustão espontânea, mas a versão cartuxa do mesmo homem. “E sabem o que ele [Sérgio Conceição] me disse? Já agora também vos digo. Ele disse que adorou a minha equipa, pela competitividade que teve.” Desta vez, impedido pela ordem natural das coisas de regressar à Vila das Aves com um troféu na bagageira, dedicou-se à apreciação dos elogios que o adversário lhe dispensou. Não é um objeto que se receba das mãos do Presidente da República, nem dá para expor numa vitrina, mas serve de consolação na hora da derrota anunciada.