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O diário de um intruso nos treinos de captação do renascido Estrela da Amadora

O falido Estrela da Amadora deu origem ao Clube Desportivo Estrela, que sete anos depois ressuscitou o futebol sénior e abriu os treinos de captação "à comunidade". Mais de 350 jogadores foram aparecendo e, ao quarto treino, o jornalista da Tribuna Expresso que assina este artigo intrometeu-se, disfarçadamente, no processo de encontrar os merecedores das nove vagas que havia por preencher no plantel. Duro, desgastante e ofegante ao início, o treino acabou por ser demasiado populoso, acorrido e prejudicado pelos demasiados jogadores (e pelo vento extremo) que ainda havia por ver. Porque "isto é o futebol" e "só 3% ou 4% é que são aproveitados"

Diogo Pombo e Nuno Fox

NUNO FOX

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O ar está pesado.

Há um peso invisível, embora palpável, preso entre as paredes do balneário, em grande parte carregado pelo silêncio que enche a boca de quem está presente, em pé ou sentado. É um balneário de uma equipa de futebol, o suposto sítio de onde nada sai e tudo pode entrar, para ficar, seja qual for a pertinência de piadas, alegria, brincadeiras, conversas casuais, sorrisos ou tristezas. Mas, neste pedaço das catacumbas do Complexo Desportivo do Monte da Galega, na Amadora, o espaço é algo taciturno.

Os que chegam falam, à vez, a quem já aqui mora, quase sem palavras e à base de apertos ou toques de mão. São feitos a um ou a dois tempos, varia. Os olás são inexistentes, há as ocasionais “boas” ditas, para o ar, por quem entra, verbaliza-se muito pouco porque existe o refúgio dos gestos e do facto de praticamente ninguém conhecer mais do que duas, três ou quatro companhias.

É a estranheza, a que persiste ao quarto treino de captações do Clube Desportivo Estrela, a que ajuda a ninguém reparar no corpo estranho, embora camuflado com as chuteiras, as meias, os calções e a camisola indiferenciadas, do jornalista que ali se intromete.

O novo Estrela, refundado do antigo Estrela da Amadora ganhador de uma Taça de Portugal e extinto, em 2011, por problemas financeiros, ressuscitou o futebol sénior e vai jogar, esta época, na 1ª Divisão da Associação de Futebol de Lisboa. Na última semana de agosto ainda estava à espera que chegassem os equipamentos de treino e jogo.

Há uma miscelânea de vestimentas no balneário e, à paisana, dela se concluem um par de coisas: três miúdos, a saírem ou acabados de sair da adolescência, mantêm-se juntos, e pelo inglês que falam e têm escrito nas camisolas, vieram da parceria com o Valeo FC, uma academia de futebol americana que tem um protocolo com o Estrela; e outros quantos, a gravitarem em torno dos 20 anos, ostentam um símbolo comum em alguma parte do que têm vestido, denuncia que pertenciam aos juniores do clube. Conhecem-se de outros futebóis.

De rompante, pouco antes das 19 horas agendadas para o arranque do treino, Ricardo Monsanto entra no balneário. É o mister. A aparição da figura de ténis e calças escuras, adornado ao topo por um pólo verde, do clube, e um apito ao pescoço, silencia um pouco mais o silêncio. Distribui um cumprimento assertivo por cada jogador, à vez.

- “Depois vem ali à cabine, ok?"

Não é suposto, de todo, chamar atenção.

Quando entro na cabine, Ricardo já está sorridente e uns níveis abaixo no grau de seriedade. Sabia, porque Rui Silva, o bem-disposto e acessível presidente do clube, lhe perguntara há dias se autorizava que me intrometesse na captação, sem que os restantes jogadores soubessem. Concordou. O mister explica-me o treino, mostra o quadro tático com os nomes, acrescenta o do intruso, discutimos a camuflagem e acertamos as agulhas do disfarce - a ideia é que o jornalista seja mais um que apareceu para tentar a sua sorte, à mercê do treinador.

No relvado sintético, esse arbítrio ordena, primeiro, que se formem os obrigatórios meiinhos. Há gente para quatro grupos, todos com, pelo menos, dez jogadores, que formam um círculo onde dois ficam no seu interior, a fazerem por intercetar os passes que os restantes têm de trocar, com direito a apenas um toque. Aparece a bola e tudo o resto começa a surgir.

NUNO FOX

Já se rasgam uns sorrisos sorrisos tímidos pelas cuecas feitas, ou tentadas. Exulta-se com as sequências, raras, de dez passes seguidos, e com a única que é capaz rondar os vinte. “Olha, agora apeteceu a toda a gente”, brinca um jogador. É o exercício de aparência banal, por vezes desvalorizado, que destapa alguns laivos de qualidade.

O meiinho “não é um capricho”, já dizia o pequenote Xavi, maestro meio campista do Barcelona que despertou o futebol para a preferência pelo toque, passe e vai. Aqui dá para ver como um canhoto, vestido à Borussia Dortmund, é esguio e ágil e imprevisível na forma como compensa com simulações de corpo o facto de só poder tocar na bola uma vez. Outro, calçado com laranja, igualmente esquerdino, é o tentador-mor de toques bonitos. No meio que me toca, especialmente quando ao meio estou, a tentar ser ladrão, nota-se que são eles quem melhor trocam os apoios, rodam o corpo, reagem aos toques e fazem a bola sair de sítios de pressão.

Contam-se quase 15 minutos até se ouvir um apito. É o mister. Todos partem ao seu encontro.

Uma vez diante do treinador, músculos parados, dá para reparar como o campo é um monte dos vendavais: o vento sopra forte e constante, sempre na mesma direção, força um fim de dia de verão parecer uma rigorosa tarde de outono. Entre o abafador sopro que corta os ouvidos é difícil captar, com clareza, Ricardo Monsanto a proferir o nomes que se devem concentrar numa metade do campo. Estou incluído.

É neste grupo, dir-me-ia, no final do treino, que estão os 16 jogadores que convidou para integrar o plantel. Já os conhecia, treinou alguns em outras equipas e divisões, tipos que sabe, por certo, terem qualidade. Eles servem de “termo de comparação” para os esperançosos que aparecem, às centenas, nas captações, e que limitaram os três anteriores treinos como limitam este.

Já apareceram mais de 350 jogadores, afluência desmesurada que só neste treino estancou, porque às nove vagas disponíveis, poucas, juntam-se os pouquíssimos tempo, espaço e condições para analisar quem aparece. “Num só treino tivemos 121 atletas. Fiz 11 equipas e, mesmo assim, não chegou, ainda tive que fazer substituições. E pronto, temos estado a rastrear, rastrear e rastrear”, resumiria, quase explicando a escassez do que, depois, acontece.

O primeiro exercício dura à volta de 20 minutos. É um circuito de aquecimento, dividido por quatro estações, exemplificadas pelo mister para que os grupo de jogadores o imitem, depois. As bolas estão longe e permanecem quietas, espetadoras de como se pretende puxar pela energia e resistência que há nestes corpos, ao mesmo tempo que estimula a explosão, as mudanças de direção, a impulsão e a velocidade - e aperta, por arrasto, no cansaço.

Os sorrisos, as piadas e a descontração sumiram. São cinco minutos em cada estação e 30 segundos de descanso, pelo meio, tempos que o treinador estica e encurta, sempre respetivamente. “Vai!”, “Força!” e “Falta um minuto e temos que marcar um golo!” são exclamações que intercala com nomes de jogadores e um, ou outro, palavrão. Não há respostas audíveis, há acréscimos de esforço, tentativas de manter o ritmo até ao fim. Nas bancadas, cerca de 40 pessoas assistem ao treino. Menos de uma dezena forma uma claque, carregando uma tarja: "Magia Tricolor".

É puxado e, além de ser um piscar de olho ao que é uma pré-época, entende-se o propósito: cansar o corpo para quando a mente lidar com futebol, momentos de jogo e, claro, uma bola, tenha de pensar e decidir coisas já com cansaço, e sob desgaste.

NUNO FOX

Aí se distingue o músculo que interessa, que está dentro cabeça, quando os sprints, cones, arranques e saltos já fatigaram os das pernas. Gastos mais uns minutos em outros meiinhos, Ricardo Monsanto chama-nos para a entrada da área, ordena a que se formem três filas - duas frente a frente, a outra na perpendicular, virada para a baliza - e que as bolas se concentrem numa delas. A tarefa é um jogador passar a bola a outro, que a ajeitará para quem surgir de frente, a rematar. Simples, fácil e acessível, não fosse o vendaval que sopra, furiosamente, na direção oposta a quem remata.

Não se capricha por aí além na intensidade. O momento não acrescenta muito cansaço ao já acumulado. O traiçoeiro vento exige que haja calma, compostura e, sobretudo, critério nos segundos em que se encara a baliza, se enquadra o corpo com a bola e se bate o remate para o alvo que nem dista 20 metros do jogador.

Síndrome da fase imberbe da temporada, ou quiçá da ânsia em querer estoirar uma bomba que unifique colocação, potência e pontaria, muitos jogadores optam pela força. Precipitam-se, preocupam-se só com isso. Tão perto está a baliza e tão longe se veem tantas bolas passar, muito por culpa, também, do vento ciclónico que levanta ou desvia qualquer tentativa. O "eish", um "ééé" ou os justos "boa bola", para as que vão entrando, ouvem-se pelo ar, mesmo que já muitos se queixem de dores nos ouvidos, causadas pelo vento cortante.

O vento é mesmo o pior dos males do treino.

Mas, ainda antes de o mister urgir a que se mantenha a bola a viajar pela relva, há muitos jogadores que têm a calma nos pés para a rematar com jeito, rasteira, como se fosse um passe para um sítio da baliza onde o guarda-redes não tenha corpo para chegar. Um corpo que é fustigado ingloriamente, pois é o único de luvas postas a defender as redes, quando um exercício destes pediria mais um, ou dois, para irem rodando.

Volvida quase meia hora, o apito soa e o mister pede que se vá buscar uma das balizas mais pequenas, para futebol de 7, que está deitada fora do relvado. Enquanto muitos o fazem, ouve-se um estrondo: o vento faz tombar uma outra baliza - “Eu é que não me ponho ali em baixo”, garante alguém. A baliza pedida é posta à beira da grande área. Faz-se um campo curtíssimo em comprimento, mas quase com a largura normal.

Formam-se três equipas e duas ficam no campo. São 20 jogadores apertados no espaço, com os restantes, de fora, a dividirem-se pelas alas. Ficam com a função de serem apoios exteriores, limitados a jogar ao primeiro toque, para quem joga lá dentro, que só tem direito a dar dois toques na bola de cada vez.

A missão é simples: fazer as coisas rápido e rematar à baliza o mais possível, tabelando, tentando arranjar por fora o espaço que, pela densidade de jogadores, não há por dentro. Muitos golos se marcam, quase só existe o botão de remate no comando mental de todos os jogadores, as equipas rodam múltiplas vezes e pouco tempo é gasto fora do pequeno.

É bom, pede aos jogadores que pensem em espaços e tempos curtos, que reajam à dificuldade da área disponível, estímulos que a equipa terá, em outro grau, durante a época.

NUNO FOX

Porque o estádio José Gomes, na Reboleira, de relva natural e grande nas dimensões - onde ainda não treinavam, para não desgastar o relvado -, é uma das exceções na última divisão distrital (a outra é o do Restelo, casa do Belenenses). O primeiro jogo do CD Estrela será a 30 de setembro, para a Taça da AF de Lisboa, no campo do Ota, a cerca de 60 quilómetros da Amadora.

“Vamos trabalhar um modelo de jogo, que é a minha ideia de jogo, para jogar na Reboleira, no nosso campo, mas teremos que pensar jogo a jogo, para as partidas fora de casa. Uma coisa é jogar no Restelo, que é praticamente igual ao José Gomes, outra coisa é jogar nas carpetes ou nas caixas de fósforo que vamos apanhar na nossa divisão, em muitos jogos”, reconhece, sem menosprezo, Ricardo Monsanto.

Talvez seja uma boa sina, pois, aqui, a jogar no campo diminuto, aumenta a produção de sorrisos, piadas e animadas picardias. Uns gozam com outros, há quem aldrabe o número de pequenas partidas ganhas pela sua equipa, muitos fazem queixinhas forçadas ao mister, que também sorri. O Estrela ainda não encontrou a sua equipa, mas já se sente, e se vive, naquela meia hora, o que é fazer parte de uma.

O último apito da sessão pede a uns que arrumem a baliza antes que todos se juntem à volta do mister, brincalhão, a questionar “se querem ficar com a [sua] barriga”, enquanto cronometra os vários exercícios que ordena, focados nos músculos abdominais. É uma pequena tareia que volta a impor o silêncio. No final, tendo visto as amostras limitadas dos jogadores que ainda ali estão sob teste, enumera alguns nomes para, no sábado, “fazerem exames médicos” na Reboleira, após um jogo-treino.

O nome do intruso, claro, nem conta. Terminado o repetitivo castigo ao corpo, todos os jogadores se despedem do treinador, apertam-se mãos, “até sexta-feira”, dia do próximo treino. Ricardo encaminha-se, depois, para o grupo de dezenas que estiveram na outra metade do campo, reunidos junto a uma linha lateral. São muitos “dos mais de 40 atletas que ainda hoje apareceram” e que os adjuntos do mister observaram.

São os verdadeiros desafiadores da sorte.

NUNO FOX

Cada um jogou com jogadores que, provavelmente, nunca jogou, nem voltará a jogar, muitos jogando, talvez, fora da posição ideal, ou preferida. Todos no campo onde o vento importunava qualquer bola, a sentirem a pressão de terem que se mostrar, sabendo que ninguém mostrará o melhor se quem o rodeia não quiser fazer por isso, coletivamente, em vez de tentar brilhar sozinho.

É uma roleta onde entram a inspiração, a força mental, os ressaltos de bola, os passes que se recebem, o calhar na equipa com tipos mais, ou menos talentosos. Tudo coisas distribuídas pelo que conhecemos como sorte e azar, variáveis que há dentro da fortuna joga contra a maioria dos jogadores que surgem nesta captação - muito por culpa da quantidade exagerada de futebolistas aparecidos a cada treino.

- “Uns ficaram, outros não, é claro que mais do que 90% não ficou, mas faz parte. Dos 350 jogadores que vieram, uns 3 ou 4% serão aproveitados para preencher as vagas que tínhamos.”

Por mais banalizado que esteja o cliché, o futebol é mesmo assim.

É os agentes ludibriosos, as lesões traidoras de oportunidades, os contratos apalavrados que não se assinam, as captações onde o espaço para brilhar é ínfimo, por tão populoso estar. Tipo de coisas incontroláveis que dois jogadores, os últimos que restam no balneário, discutem - um par que já parecia pertencer ao plantel - quase conformados.

Porque o futebol não é só o captado pela televisão, a primeira divisão ou a Taça de Portugal, vencida pelo antigo Estrela da Amadora, em 1990. É, também, na sua maioria, estes desabafos que, porventura, abafam desilusões passadas e querem prevenir que futuras apareçam no caminho do novo Clube Desportivo Estrela.