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Futebol procura-se, urgentemente

O Benfica ganhou (1-0) ao FC Porto com um golo de Seferovic e ficou na liderança do campeonato. Tudo às custas de um clássico que deveria ser a melhor amostra do futebol que se joga num país, mas foi, uma vez mais, a demonstração do nível a que se joga em Portugal: muitas faltas, muitas bolas discutidas no ar, muitos pontapés longos

Diogo Pombo

Gualter Fatia

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Estranho é vê-lo sentado, à sombra do banco, a privar os próprios pés de cumprirem o que a sua cabeça para eles idealiza - provavelmente de forma brilhante, intuitiva, bela, simples e estimulante -, porque está privado, por quem manda, de o fazer. Também causa estranheza o cabelo e a barba, grisalhos, já bem mais pincelados por brancos do que pretos, fazem parecer que ele esteve longe mais tempo do que, realmente, esteve.

Mais estranho ainda é ver Jonas, de olhar vazio, aparecer na televisão no preciso momento em que se entoa o hino do Benfica, no Estádio da Luz, um coro em milhares de vozes, e a dele ser apanhada pela leitura de lábios a cantarolar uma passagem tão específica, tão tristemente vaticinadora do que aí vinha - “na luta com fervor”.

Quão irónico é ver um dos tipos com o melhor músculo que interessa do campeonato, o que está dentro da cabeça, sortudo por ter uns pés e uma técnica que o deixam aplicar as coisas que pensa, ser captado a ser apanhado na parte do hino que puxa pela luta fervorosa que se quer no futebol, sim, mas quando tudo o resto também existe, e não o contrário?

É muito irónico, tanto quanto é desanimador.

Como o são os dez minutos iniciais do que era suposto ser a melhor amostra, ou lá perto, do melhor futebol em Portugal, e não da acumulação, em série, de chutos para a frente, cabeceamentos seguidos, olhos cravados na relva e pressa acreditar que o único caminho é para a frente. A bola é redonda para rolar, mas passa mais tempo no ar ou a ser pontapeada, por quem defende as áreas, para testar o efeito da gravidade.

Falham-se passes com a regularidade com que se respira. Os centrais não levantam a cabeça para verem, sequer, se hipótese há de jogar apoiado, com um passe rasteiro, em alguém. Quer-se chegar à frente rápido e aceleradamente, a prejuízo de tudo.

Os médios vêem as bolas que deviam ter a passar-lhes por cima: Danilo encosta-se a Felipe e Militão e luta, salta, disputa, Herrera ajuda-o quando não se está perto de Soares, à espera de passes que não lhe dão, um posicionamento surpresa para ser Otávio a baixar no campo para tentar construir, que não surpreende porque o brasileiro não recebe bolas para, com elas, se virar para o jogo; Fejsa é estático e demasiado viciado em só olhar para o lado, Gabriel perde-se muito no vaivém da bola no ar e Pizzi parece não pensar para lá de tabelas com o extremo ou o lateral.

Força-se mais a pressa, o chuto sem critério para a profundidade, o ir para a frente rapidamente porque o mundo está prestes a acabar. Pensa-se pouco com calma e pausa. E Jonas sentado, a ver, e os treinadores, por inúmeras vezes, a baterem palmas.

Não viu mais do um par de remates de Soares, um à direita e outro à esquerda da área, oriundos de bolas longas batidas para as costas dos laterais do Benfica. E de um remate de Seferovic nas barbas de Casillas, apressado pela saída rápida do guarda-redes, que apertou o tempo e o espaço para o avançado decidir o remate, que apressou e bateu para fora.

Nem o FC Porto pensava jogadas para explorar o espaço na profundidade (como está formatado para o fazer) nas costas de Lema, o central com menos de uma hora de campo esta época, que à primeira vez que teve de rodar, virar-se para trás e discutir uma bola com Marega, foi ultrapassado e amarelado; nem o Benfica juntava os três médios para circular passes curtos, quiçá aproveitando o facto de ser Otávio quem, muitas vezes, fechava com Danilo os espaços ao centro do campo.

Carlos Rodrigues

O jogo continuou preso à errância e fortuna de uma bola levantada para o ar, que é e será sempre mais imprevisível e incontrolável que qualquer passe feito pelo relva, seja a curta ou a longa distância, de forma apoiada ou direta, sob que estilo for. E, nessa forma de se insistir com o futebol, o Benfica melhorou.

Como já o fizera, quase sempre, esta temporada, a equipa entrou na segunda parte mais agressiva e com maior intensidade. Coisas que se viram onde mais podem ter efeito - no ataque às segundas bolas, nos ressaltos, no aperto aos espaços onde a bola volta à terra. Os encarnados aproximaram-se uns dos outros para, juntos, pressionarem mais à frente. E, portanto, juntos estavam quando Grimaldo recuperou a bola e passou-a para o triângulo de jogadores na área levar a bola até Gabriel, para o brasileiro a rematar a meia altura. Iker Casillas fez a parada do clássico.

As jogadas com apenas com princípio apressado para chegar a um fim, sem um meio com ideias pensadas com passes, movimentos para arrastar marcações, jogadores a tabelarem para deixarem alguém livre, com bola, virado para o jogo, mantiveram-se até ao fim. Mas, dois minutos após Casillas salvar a sua baliza, a pressão alta do Benfica recuperou uma bola no meio campo do FC Porto, após um pontapé de baliza, e usou-a, claro, para bater na frente, pelo ar.

Só que esta foi amortecida pela cabeça de Pizzi para desmarcar Seferovic, cujo pé direito beneficiou do quase bloqueio que a corrida de Militão fez à saída do guarda-redes, para rematar o 1-0. O resultado era desbloqueado pelo que bloqueava o futebol pensado e na relva, o estádio enlouquecia, Jonas corria banco fora, para celebrar com a equipa junto a um canto do relvado.

Na meia hora restante, nada de novo. O jogo prosseguiu como tão clássico já é vê-lo, com um pulsar constante de faltas (44) que nem um coração com arritmia, bolas a serem batidas longas, na frente, sem que uma equipa acertasse mais de quatro em cada dez tentativas (o Benfica acabou com 42% de acerto nos passes verticais, o FC Porto com 38%, segundo os dados da GoalPoint), e com toda a gente a querer forçar numa modalidade em que tudo se consegue se for pensado.

Tanto jogo direito, pelo ar, e as consequentes segundas bolas, foram provocando duelos e jogadas divididas pela incerteza. Que é como quem diz, jogadores a oporem-se e a chocarem muitas vezes contra um outro. A um quarto de hora do fim, Lema foi expulso por mais um desses choques lhe dar um segundo amarelo e tirar ao Benfica um central, pelo terceiro jogo consecutivo. Controlar uma partida com bola, evitar que os defesas se exponham em jogadas divididas, talvez seja uma solução.

Mesmo com mais um em campo, o FC Porto não mudou a sua forma de jogar e fazer as coisas. Apressado pela urgência e já com André Pereira em campo, ao lado de Soares e Marega, os dragões bombearam mais bolas, quiserem encontrar as costas dos adversários na área e acentuaram o desaparecimento de Brahimi, o corpo mais desequilibrador, com a bola na relva, que podiam ter. Só aos 86’, e na ressaca de um longo lançamento lateral, o argelino apanhou a bola, driblou para dentro e rematou em arco para quase resgatar o resultado, do nada.

O clássico acabou com 66 bolas disputadas no ar, muita incerteza a pairar sobre a relva onde, claro, prosperam jogadores como Fejsa, Felipe, Danilo ou Rúben Dias, quiçá o melhor num campo onde duas equipas forçaram este tipo de jogo. No mesmo dia, em Inglaterra, terra que os hábitos passados associaram ao futebol jogado pelo ar, contaram-se 23 no Liverpool-Manchester City, ou 29 no Southampton-Chelsea, ou 34 no Fulham-Arsenal.

O Benfica-FC Porto teve um golo que surgiu de uma segunda bola, surgida de um pontapé longo e vertical, que foi usada, também, para bater longo e direto na frente, que deu uma vitória aos encarnados e os deixou na liderança do campeonato. Junte-se muitas faltas, muita correria, duelos discutidos no ar e na relva, e fica-se com o futebol que mais se pratica em Portugal e que pouco espaço deixa para o resto. Já o Benfica-Sporting assim o fora, tal como o Braga-Sporting.

E que futebol pode haver para lá disto?