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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Os lances engraçados, cinzentos, os penáltis dos grandes e um saco de areia no árbitro (por Duarte Gomes)

O ex-árbitro e colaborador da Tribuna Expresso revê os momentos mais complicados dos encontros de Benfica, FC Porto e Sporting (e não só). No final, deixa-nos outra história estúpida de agressão

Duarte Gomes

Gualter Fatia

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Os três grandes tiveram destinos diferentes, na jornada que hoje termina (logo à noite, ainda há bola em Vila do Conde e Chaves). Quem ficou em casa perdeu (Benfica) e quem viajou até às ilhas acabou por vencer (FC Porto e Sporting).

Como sempre, não faltaram lances engraçados e, como sempre, muitos deles foram... cinzentos, que é como quem diz, até as imagens deixaram dúvidas sobre qual poderia ser a melhor decisão.

E quando esse é o caso - quando até o escrutínio minucioso da TV abre a porta à subjetividade e à dúvida - é ou não justo que se tome, como boa, a decisão que o árbitro toma em campo?

Na Luz, Benfica e Moreirense protagonizaram primeira parte de luxo: futebol com intensidade, velocidade e muitos (e bons) golos. Nuno Almeida teve muito mérito na forma como contribuiu para essa dinâmica: o juiz algarvio aplicou, varias vezes e com qualidade, a lei da vantagem. A segunda-parte teve menos qualidade, mais paragens e sanções. Era expectável face ao rumo do marcador e à ansiedade crescente que se apoderou de alguns atletas. E então Rafa caiu na área adversária após choque com Ivanildo; o lance não pareceu faltoso: a bola estava em disputa e a colisão foi natural face à movimentação/velocidade de ambos os atletas.

No outro lance mais crítico, Cervi (e todo o estádio) pediram penálti mas sem razão: o extremo encarnado não foi nem rasteirado nem carregado por Loum (as imagens mostraram que foi o argentino quem tocou no calcanhar do defesa do Moreirense).

Mas mais importante do que essa análise, é recuperar o início da jogada: num primeiro momento, o avançado do Benfica foi claramente carregado por Adalberto (fora da área, em lance de amarelo obrigatório). Nuno Almeida deu a lei da vantagem e, na sequência disso, o argentino acabou por tocar a bola com as mãos... duas vezes. Ajeitou com a direita, parou com a esquerda.

Moral da história: o árbitro devia ter recuperado a primeira infração (a vantagem não foi bem aplicada) e, mesmo que até tivesse considerado o lance seguinte passível de castigo máximo, o VAR jamais permitiria que isso valesse (iria informar o juiz algarvio que Cervi dominara antes a bola com as mãos).

O Marítimo recebeu o campeão em jogo sem grande história. O FC Porto foi justo vencedor (dominou todas as estatísticas) e marcou através de lances que não ofereceram discussão. O poderio azul e branco fez sobressair o lado mais duro dos madeirenses: Jean Cleber, primeiro e Lucas Áfrico, depois, tiveram entradas duras sobre Corona. O segundo só não foi expulso porque não acertou "em cheio" (com violência ou força excessiva) no jogador mexicano, caso contrário iria tomar banho mais cedo.

No entanto e não obstante outras peripécias disciplinares (quase sempre bem sanadas por Carlos Xistra), o jogo ficaria marcado por duas situações, ocorridas na etapa complementar, a primeira relativa ao pontapé de penálti assinalado a favor do FC Porto.

Aqui o árbitro de Castelo Branco merece o benefício da dúvida, uma vez que o contacto existiu e o lance não foi de análise objetiva. Pelo contrário. Vendo as imagens com algum rigor e detalhe - benefícios (?) dos tempos modernos -, ficámos com a sensação que o braço esquerdo de Lucas, que realmente estava na cintura de Soares, acabou depois por ser prendido por movimento reativo do avançado brasileiro. O que pareceu bem mais evidente foi o facto do avançado do FC Porto ter escorregado, sendo esse o motivo da sua queda. Mera interpretação de um lance, repito, pouco claro e suscetível de leitura distinta.

O segundo refere-se à expulsão de Danny, após agredir Otávio (atingiu-o, deliberadamente, com o braço esquerdo na cara). O facto de antes ter sofrido falta não atenua nem justifica reação tão violenta. Inteligência emocional precisa-se.

Em Ponta Delgada, o Sporting entrou a perder e saiu a ganhar.

Num jogo disputado em condições muito adversas (relvado escorregadio, chuva intermitente e muito vento), o jogo teve "mão de ferro" de Manuel Mota, que cedo puxou do cartão para punir excessos. Fez bem e foi, acima de tudo, coerente nas suas intervenções: entradas iguais tiveram punições iguais. O momento mais "infeliz" da primeira parte (de toda a partida, aliás) foi a lesão de Battaglia: o médio argentino do Sporting colidiu com Mamadu e acabou por magoar-se com gravidade aparente. É justo dizer que o jogador do Santa Clara nada fez para lesionar o seu colega de profissão.

A segunda-parte trouxe um Sporting mais ofensivo, claramente atrás do prejuízo. Os leões tiveram mais posse de bola e entraram, mais vezes, na área adversária.

Numa dessas incursões, os verde e brancos beneficiaram de um penálti indiscutível: Bas Dost foi agarrado pelo braço e carregado nas costas, tudo em movimento rápido e de intensidade evidente. Além dessa infração (de Fábio Cardoso, que escapou ao amarelo), o holandês foi ainda "apertado" pelo movimento lateral de Mamadu. Na sequência dessa decisão, Patrick perdeu o controlo emocional e acabou por ser expulso, alegadamente por palavras dirigidas a Manuel Mota.

Duas decisões difíceis mas corretas, que mudaram o rumo da partida.

Nas restantes partidas, não reza a história de más decisões com influência nos resultados finais: em Braga, Hélder Malheiro desvalorizou dois lances algo dúbios na área vitoriana (um sobre Dyego e outro sobre Horta) e, na Feira - em partida de loucos, em condições dificílimas - Hugo Miguel teve a humildade e lucidez de recorrer ao VAR para tomar boas decisões.

De resto, normalidade...

Para manter a tradição, este fim de semana um árbitro distrital foi atingido com uma garrafa de água (ao intervalo) e, depois, com moedas, isqueiros e um saco de areia (perto do final da partida). Fartou-se e teve o desplante de acabar o jogo mais cedo.

Claro que a decisão não fez sentido nenhum, porque não houve traumatismo craniano, pontapés na cara nem internamento hospitalar. Estou a ser irónico, obviamente.

Nota: um dos clubes envolvidos diz que não percebeu a decisão e outro disse que é tudo mentira e que a arbitragem foi péssima.
Ah, bom... está explicado então.