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Há um clube de futebol português que deixou de anunciar os resultados dos escalões mais jovens. Porquê? Para humanizar

Os resultados de algumas das equipas mais jovens de futebol do Estoril Praia desapareceram do site e das publicações do clube nas redes sociais. A missão está estabelecida: “Um atleta educado é melhor do que um excelente jogador”. Problema: “Há quem não confie nisto”

Hugo Tavares da Silva

Hugo Leal, ex-jogador, agora treinador e diretor no Estoril Praia

Marcos Borga

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O futebol de formação é um laboratório sensível. Existem muitos mundos, raízes, contextos, educações, motivações e 1001 maneiras de abordar o jogo e aquele desporto. É uma escola que, muitas vezes sem ser necessário alguém verbalizar, ensina (ou deve ensinar) muitas coisas: valores e princípios, a importância de cumprir horários e regras, não descurando a diversão; instrui a estar em grupo e a ter um objetivo comum; estimula a amizade; explica-nos o significado das palavras “compromisso” e “responsabilidade”; tenta promover a solidariedade entre colegas e respeito para com rivais, treinadores e árbitros.

Depois há o lado perverso. As expectativas. A pressão que vem de casa. Os gritos que chegam da bancada. Os insultos. A frustração. O tio que pergunta quanto ganharam, quantos marcou e deixa no ar a promessa de uma recompensa futura se fizer três golos. Os treinadores com fome de subir degraus na escadaria rumo aos escalões com atletas com mais pêlos na cara. O estatuto. Os clubes que sonham desenhar ali, naqueles minicampos, os craques do futuro. Os números. O resultado. O ego. As publicações gabarolas nas redes sociais. O tornar-se demasiado sério demasiado cedo. O prazer que começa a cheirar a ilusão. Misturado com o parágrafo acima, o limbo parece de facto uma preparação implacável para a vida adulta. Mas será esse o cenário ideal no desporto de tenra idade?

Hugo Leal, o diretor para o futebol de formação do Estoril Praia, acha que não. O clube do concelho de Cascais comunicou há sensivelmente duas semanas que passou apenas a publicar os resultados das equipas enquadradas no “rendimento”. Ou seja, iniciados A, juvenis, juniores e sub-23, no futebol masculino e feminino. Os resultados dos outros escalões desapareceram do site e das publicações nas redes sociais. Se for observada uma goleada de dois dígitos nos escalões de “rendimento”, o clube dirá apenas “vitória” ou “derrota”.

“Temos vindo a tomar algumas iniciativas que visam mudar um bocadinho o que é o futebol de formação”, começa por dizer ao Expresso Hugo Leal, de 38 anos. “Toda a gente predica que o futebol de formação deve ser educativo e pedagógico, mas na realidade não é. As pessoas que têm responsabilidade deixam-se sempre ir na corrente de um processo resultadista, influenciado pelas necessidades do clube e da imagem de vencer, e também pelas exigências dos pais ou objetivos pessoais de treinadores.”

Filipe Mendonça, o responsável pela comunicação do clube, explica o timing do anúncio: “Não íamos comunicar a decisão, mas surgiram dúvidas. Os pais perguntavam, por exemplo, por que razão dizia ‘vitória’ quando o resultado tinha sido 23-0. Primeiro, quisemos esclarecer. Depois, chamar outros à partilha destes valores. Gostávamos que outros clubes viessem connosco neste caminho.”

Hugo Leal aproveita a deixa. “Em Salamanca, para miúdos nascidos em 2010, já têm calendário, jogos, relatos dos jogos, classificação dos melhores marcadores. Têm tudo organizado. Ah! Têm avaliação de jogadores, valem X de acordo com a estatística. Dá medo.”

Hugo Leal foi um dos mais jovens de sempre a estrear-se com a camisola do Benfica. Tinha 16 anos. Quando pendurou as botas, perguntavam-lhe se tinha passado ao lado de uma grande carreira, apesar de ter jogado no Benfica, Atlético Madrid, PSG e FC Porto. O que o antigo médio lamentaria, dizia então, teria sido “passar ao lado de uma grande vida”. Talvez por isso tenha esta visão que agora procura cultivar no Estoril: “Eu sou um tipo que sonha com tudo, talvez demasiado naif por acreditar que isto vai mudar”, diz agora, 22 anos depois daquele Benfica-Espinho, em abril de 97.

marcos borga

Jorge Silvério, mestre em Psicologia do Desporto, aplaude esta decisão. “Já se verifica noutras modalidades”, começa por explicar ao Expresso. “Muitas vezes as federações e associações tomam esta iniciativa de retirar o factor classificativo nas faixas etárias mais jovens.”

Silvério valoriza que se retire o “peso da pressão de ter de ganhar”, pois, “muitas vezes”, essa pressão resulta em “ansiedade” que os jovens atletas têm dificuldade em lidar. “O que impera nestas idades é o divertimento. Os miúdos conseguem divertir-se a jogar, mas depois alguns pais provocam comportamentos justamente por causa da pressão que transmitem. Alguns jovens atletas com quem trabalho, no futebol e noutras modalidades, até individuais, dizem que preferem que os pais não estejam a assistir. Ficam de tal maneira nervosos ou preocupados com as reações que nem se divertem, nem estão concentrados. É algo que nos deve preocupar.”

Este psicólogo revela ainda inquietação relativamente ao desenho das competições jovens, onde se observam muitos desníveis. Essa realidade dificultará a tarefa dos treinadores, pois poderá ser complicado dizer a um menino de dez anos que, embora tenha vencido por 20-0, deve fazer coisas diferentes ou evoluir. E depois há o outro lado: como vive o desporto um miúdo que é frequentemente goleado e humilhado? “Começa a desmotivar e desanimar. Deve haver uma reflexão, inclusivamente nas reações dos pais, e repensar-se as competições e em quais se introduzem classificações. Devemos ajudar os nossos jovens a não desistirem tão cedo do desporto. Eles já têm tão pouco espaço para lazer e divertimento. Começam cedo com as notas e desempenho escolar, com os comportamentos. Se no desporto não se preocupassem e tivessem mais liberdade, mais criatividade, seria extremamente importante.”

Hugo Leal admite que as mudanças e a mensagem são direcionadas “principalmente” aos pais. “Mas até para nós, diretores, coordenação e treinadores, é mais fácil jogar sem ter essa necessidade do resultado. Se começarmos a habituar as pessoas que, nestas idades, o resultado é secundário e que o principal é o processo, vamos ter melhores atletas. As pessoas não confiam nisto.”

Jan Christensen/Getty Images

O Estoril Praia podia ter, admite Hugo Leal, melhores resultados nos escalões mais jovens. Mas isso chocaria de frente com a prioridade: “Queremos formar o atleta (todos jogam um tempo mínimo). O número de jogadores que saem da formação do Estoril e são profissionais é reduzidíssimo, se calhar 0,5% chega lá. E os outros 99,5%? Temos de trabalhar para eles, criar um cidadão desportivo para o futuro, criar um indivíduo que integre uma sociedade porreira com bons princípios, querendo ganhar na mesma. Ninguém retira aqui o princípio de querer ganhar, faz parte de cada pessoa que pratica desporto. Temos de gerir as expectativas e meios para atingir esse fim”.

Hugo Leal conta ainda que no clube que veste à Brasil há iniciativas para aproximar todos os elementos desta equação. Já aconteceu, por exemplo, os pais terem a oportunidade de treinar uma equipa num torneio, para perceberem as dificuldades e desafios que um jogo oferece, recebendo no fim um feedback. Ou então o evento “Pai Galinha”, que inverte os papéis: os pais em campo e os miúdos lá fora, na bancada, a desempenhar o papel de pais. No fundo, a ideia é amolecer a ambição e tons desmedidos e humanizar cada vez mais os agentes envolvidos neste processo educativo.

“Tens miúdos de 15 anos que não querem jogar futebol! A paixão era o futebol e estão saturados”, lamenta o diretor da formação estorilista. “Como é que justificas que a grande paixão seja uma situação que o satura, aborrece e frustra? Com 15 anos deveria estar apaixonado e ter gozo. Somos nós os culpados, treinadores, diretores e pais, com as exigências que colocamos. O que está a ser criado vai contrariar o que é a diversão dos miúdos. Vai prejudicar a formação desse miúdo.” E fecha o assunto admitindo que esta postura pode custar jogadores fantásticos que não encaixam naquele puzzle: “O Victor Neves, o outro diretor responsável pela formação, que leva muitos anos de clube, tem a mesma opinião que eu: um atleta educado é melhor do que um excelente jogador”.