Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

São as taças, senhores, são as taças

Andávamos à míngua de bons jogos entre os grandes e, como quase sempre acontece, é numa das taças que ele acontece, porque as taças são territórios de matar ou morrer e, quando assim é, há um bocadinho mais de coração e menos calculismo naquilo que as equipas fazem. Num encontro aberto, intenso, bem jogado e com muitas oportunidades, o FC Porto bateu o Benfica por 3-1 e está na final da Taça da Liga. Fica agora à espera de Sporting ou Sp. Braga

Lídia Paralta Gomes

HUGO DELGADO/LUSA

Partilhar

Andamos todos a queixarmo-nos do mesmo há anos: que os jogos entre os grandes estão muito táticos, que as equipas encaixam-se demasiado e que quer-se mais não perder do que ganhar. As apertezas do campeonato assim o exigem. No final ganha quem tropeça menos e não raras vezes são as derrotas em clássicos e dérbis que matam esperanças e derrubam sonhos. Há poucos riscos, muito calculismo - em linguagem técnica, é um aborrecimento.

Acontece que as taças, de Portugal e da Liga, são território diferente. É campo mais agreste, cru, faroestiano. É mais à flor da pele porque ou se continua ou se cai. E é por isso que muitas vezes temos de esperar por jogos grandes nas taças para vermos, grrrr, grandes jogos.

Assim de cabeça lembro-me de uns quantos jogos loucos em sede de mata-mata entre grandes: 2005, Benfica-Sporting, 3-3, dois dos golos no prolongamento, vitória do Benfica nas grandes penalidades; 2008, de novo Sporting e Benfica, 5-3 para os de Alvalade; 2012, Benfica-FC Porto, 3-2 com três golos nos primeiros 20 minutos; 2013, Benfica-Sporting, 4-3 após prolongamento depois de Slimani empatar aos 90+trocos; 2014, Benfica-FC Porto, 3-1.

Foi assim sem grande surpresa que a primeira meia-final da Taça da Liga entre Benfica e FC Porto deu-nos o melhor jogo entre grandes desta temporada, porque são as taças, senhores, são as taças e nas taças os jogos tornam-se mais abertos, mais livres, são uma questão ou de vida ou morte e nas questões de vida ou morte continua a haver racionalidade e táticas e sistemas e estratégias e tudo isso, mas também há mais coração, mais coragem e mais instinto.

O FC Porto ganhou, por 3-1, porque é hoje uma equipa mais consistente e no meio da loucura também é preciso haver sangue frio, mas houve mais jogo para lá do resultado.

HUGO DELGADO/EPA

E houve muito jogo logo a abrir, com duas oportunidades nos dois primeiros minutos. Primeiro, Marega permitiu a defesa a Svilar depois de um passe de Brahimi o ter deixado cara a cara com o jovem guarda-redes do Benfica. Logo de seguida, foi Vaná a brilhar do outro lado, sacudindo bem um cabeceamento de João Félix após um canto.

O arranque não foi apenas fogo de vista. As duas equipas entraram bem, a tentarem sair rápido e com qualidade, a pressionar e a procurar constantemente a baliza. Aos 20 minutos André Pereira permitiu mais uma defesa a Svilar, o prelúdio da fase mais louca do jogo, com três golos em 11 minutos. Marcou primeiro o FC Porto, aos 24’: Marega ensaiou um cruzamento, ou remate, who knows, vamos chamar-lhe apenas “bola”. “Bola” essa que foi defendida com um pé por Svilar e daí foi ter com Brahimi que só teve de dar um toque para a baliza.

O Benfica, sempre perigoso nas transições, empatou aos 31’, numa jogada de contra-ataque orquestrada por Jardel, que soltou em Pizzi que por sua vez cruzou para Seferovic. Vaná ainda defendeu o primeiro remate mas na recarga, e absolutamente sozinho na área, Rafa marcou. Militão não ficou bem na fotografia, provando que, afinal, talvez seja humano.

Num jogo tão rápido e intenso e tão cheio de oportunidades, a alegria do Benfica não durou muito porque pouco depois da bola ser reposta o FC Porto voltou a colocar-se em vantagem, um golo de Marega numa bela jogada coletiva do campeão nacional (mas ainda a zeros na contagem da Taça da Liga). Brahimi, na esquerda, viu Corona a desmarcar-se do outro lado do campo. Para lá seguiu a bola e ainda em movimento ela do pé do mexicano partiu, num passe atrasado que foi encontrar o pé de Marega, a entrar de rompante pela área do Benfica, que mesmo no final da 1.ª parte queixou-se de um golo anulado, num lance, no mínimo, complicado.

HUGO DELGADO/LUSA

Uma 1.ª parte cheia de eventos e acontecimentos, com o FC Porto ligeiramente por cima, daria lugar a uma 2.ª parte mais anárquica mas nem por isso menos interessante. O Benfica, inegavelmente diferente desde a entrada de Bruno Lage, manteve-se perigoso no contra-ataque e a entrada de Gedson veio tornar o jogo dos encarnados mais irreverente .

Logo aos 47 minutos Seferovic esteve perto do empate, após uma recuperação e reposição rápida de Pizzi e aos 53’ João Félix falhou por completo um remate no coração da área do FC Porto. Aos 63’ foi a vez de Rafa finalizar mal mais uma das muitas boas jogadas de contra-ataque do Benfica, numa fase em que os encarnados tinham menos posse, mais estavam muito mais lúcidos que a equipa de Sérgio Conceição, que entretanto havia mudado o sistema para 4x3x3, para responder à entrada forte de Gedson.

O Benfica era mais forte, mas desaproveitava e foi já numa fase em que o FC Porto baixava por completo as linhas e tentava controlar sem bola que apareceu o golo que matou o jogo. Jogava-se o minuto 86 quando Óliver ganhou uma bola a meio-campo, mais uma entre as muitas que roubou, ele que foi, imagine-se, o mais agressivo dos homens do FC Porto na 2.ª parte. A jogada seguiu então para Soares que, aproveitando o adiantamento da linha defensiva do Benfica, praticamente a jogar no seu meio-campo, deu um toque com o peito do pé mesmo a jeito de enviar a bola para a corrida de Fernando Andrade.

O ex-Santa Clara, fresco e saído do banco, correu por ali fora e à saída de Svilar fez o 3-1.

Talvez o resultado seja pesado para o Benfica, mas no final, e sem tirar um pingo de emoção ao grande clássico que se jogou em Braga, ganhou a equipa mais matreira, mais adulta. O FC Porto matou na hora certa, depois de uma 2.ª parte em que sentiu dificuldades para parar o Benfica, mas isso pelo menos quer dizer que, ao contrário do que estamos habituados a ver em clássicos, houve risco, houve duas equipas a tentar ganhar o jogo.

E isso é refrescante.