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Blessing Lumueno

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Um Sporting de Braga estratégico contra um Sporting ainda em aprendizagem: o que esperar da outra meia-final da Taça da Liga

O treinador Blessing Lumueno explica o que devemos esperar do Sporting de Braga-Sporting desta quarta-feira (19h45, SportTV1), que colocará frente a frente as ideias de Abel Ferreira e Marcel Keizer

Blessing Lumueno

Abel Ferreira, treinador do Sporting de Braga, e Marcel Keizer, treinador do Sporting

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Tem sido interessante seguir o Sporting de Braga por força da evolução que foi registando na forma de colocar os seus jogadores em campo. Mas, apesar das posições que os jogadores ocupam serem as adequadas durante o processo ofensivo, fico sempre com a sensação que não tiram o máximo proveito delas - das linhas de passe que se criam -, por não aproveitarem tanto o corredor central e a primeira prioridade ser sair por fora. Não é que a equipa não use o corredor central, mas apenas em transição e esporadicamente quando a bola já está no meio-campo adversário.

Pode esperar-se hoje um Braga solto do ponto de vista ofensivo, sem nunca perder de olho a baliza adversária, em organização ou em transição. É uma equipa que joga para atacar, para marcar golos.

Abel Ferreira é um treinador que dá uma importância tremenda à vertente estratégica e à adaptação ao adversário; por isso, não se consegue dizer qual é o seu onze titular, uma vez que altera os jogadores que entram todos os jogos. Ainda que haja onzes que se repetiram durante a época, e que haja jogadores mais utilizados do que outros, é um plantel que vive feliz, porque estão muitos jogadores envolvidos no processo. Portanto, as características dos jogadores são algo que Abel tem muito em conta para cada desafio que enfrenta, considerando a estratégia que define para cada jogo.

Há, por isso, alguma dúvida sobre que jogador colocará para enfrentar os laterais do Sporting, e que dinâmica criará para os provocar constantemente. Sairá por cruzamento antecedido de um lance individual, ou obrigará a desposicionar o lateral primeiro para dar vantagem aos médios ala quando receberem naquele espaço? Irá pelo corredor central para que eles recebam dentro da área, com os avançados entre laterais e centrais para os colocar em dúvida ou tentará que eles recebam no pé para depois tabelarem com os avançados?

A pressão do Braga é em 1-4-4-2, tentando fechar o campo em largura e profundidade, mas deixa espaços entre jogadores do mesmo sector e entre sectores, uma vez que não concentra a equipa para defender a bola e a baliza, por ter também muitas preocupações com a variação do centro de jogo. Por entre esses espaços, se o Sporting tiver um Bruno Fernandes móvel com Nani e Acuña/Ristovski e Diaby mais fixos, poderá sair facilmente da pressão do Braga, e até entrar na área desta forma.

O Braga costuma fechar bem os corredores laterais - por onde o Sporting tem atacado muito -, pelo que seria importante procurar por soluções centrais, e frontais, com Bas Dost a servir os médios que por sua vez colocam os extremos em vantagem para o lance individual, para enfrentar a defesa, ou para combinar e entrar na área. Abel deverá ter preparado uma atenção especial para Nani, visto que nos jogos anteriores contra os grandes notou-se sempre uma grande preocupação com o jogador adversário mais forte individualmente. Não só em tapar-lhe as linhas de passe, mas também nas ajudas defensivas para quando Nani estiver em posse. O Braga tem dificuldade em ajustar a sua organização defensiva quando o adversário aparece nas costas da sua linha média, acabando a maior parte desses lances dentro da área e em situações de finalização para o adversário. A linha defensiva não é muito intuitiva nas abordagens individuais e na resolução dos desafios defensivos que enfrentam, se estes forem diferentes.

Por isso, a estratégia de Marcel Keizer será tão mais bem-sucedida quanto mais virada estiver para expor a linha defensiva do Braga.

FOTO ANTÓNIO COTRIM / LUSA

O Sporting tem caído, gradualmente, no nível de jogo que apresenta. As opções de Keizer para o onze inicial não têm ido de encontro ao estilo de jogo que nos deu a entender que queria, e as mexidas durante o jogo em situações de aperto também têm jogado contra a ideia de jogo que preconiza. É certo que durante a aprendizagem há flutuações no rendimento e momentos em que os jogadores estão menos soltos. Isso deve-se à quantidade de informação nova que os jogadores devem assimilar, e só depois dessa informação estar assimilada os jogadores ficam novamente soltos e totalmente disponíveis para as situações de jogo.

Ou seja, neste momento, a equipa ainda está a resolver o constrangimento que é executar as tarefas que o treinador lhes pede, e ainda estão muito focados nisso. “Perdem” tempo de execução, e criatividade porque ainda não é uma linguagem natural para eles; quando for, estarão mais disponíveis para criar por terem ultrapassado o constrangimento anterior.

Mas, a evolução da equipa tem sido pouco notória e tem perdido o impacto que viveu nos primeiros tempos. Não se nota, por exemplo, que a equipa esteja melhor preparada para ligar com apoios frontais quando os adversários ocupam com muitas pernas o espaço central. Tão pouco se nota maior disponibilidade dos jogadores para combinar e colocar os extremos em situações de vantagem. Do ponto de vista defensivo, na organização e na transição, a não ser que baixe o bloco e que não se exponha, também não se registam melhorias.

Por isso, talvez Keizer esteja a pensar na mesma estratégia de controlo que utilizou no jogo contra o FC Porto: baixar um pouco as linhas para dar conforto a Coates e Mathieu, e para que os jogadores no momento defensivo passem mais tempo agrupados sem grandes distâncias entre si. No ataque, será importante libertar Bas Dost dos duelos e da primeira bola, uma vez que já se percebeu que esse tipo de jogo não é o forte do ponta de lança holandês. O treinador do Sporting terá que encontrar uma forma alternativa de lhe colocar a bola se ele for a referência para fugir da pressão, ou procurar por outra referência, noutro espaço, que tenha mais vantagem neste tipo de lance.

Com os laterais que o Sporting tem, que pouco se evidenciam ofensivamente e que não estão individualmente preparados para defender da melhor maneira – sendo que colectivamente também não têm tido grandes estímulos -, seria interessante uma alteração na estrutura do meio-campo, colocando mais um elemento mais ofensivo e mais criativo, e deixar os laterais mais atrás, mais perto dos centrais, com situações defensivas e ofensivas mais fáceis de resolver.

O Braga, por jogar em casa, estará focado como nunca nas tarefas a cumprir, e com uma pressão acrescida. Do ponto de vista emocional será interessante perceber que reacções vão ter nos maus momentos, porque nos bons com o público a empurrar os jogadores vão ficar galvanizados. Já o Sporting, não reagindo bem aos momentos maus, terá que ser muito forte do ponto de vista emocional, e os jogadores terão que estar muito mais estáveis, para dar a volta caso o Braga se coloque em vantagem. Será uma tarefa hercúlea, tendo em conta o momento atual dos leões.