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Lagetude e longitude

Foi um Benfica dominador a toda a linha e em boa parte dos momentos do jogo aquele que foi a Alvalade bater o Sporting por 4-2, deixando os leões cada vez mais afundados no 4.º lugar. A impressão digital de Bruno Lage, que fez renascer este Benfica após meia época de amorfia, diz-nos que o campeonato está longe de estar entregue

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Este será, para sempre, o campeonato dos renascimentos. Renasceu primeiro o Sporting, após a saída de Peseiro e a entrada de Marcel Keizer, Keizer e o seu futebol de posse, com muitos golos, futebol perfumado que, olhando para os lenços brancos que já se viram esta tarde em Alvalade, já parece ter um odor ligeiramente acre para o adepto leonino, que se vê afundado no 4.º lugar da liga.

Isto do futebol é efémero e passa-se rapidamente do entusiasmo ao ato de balançar o punho pedindo a execução de um treinador. Também se vive do mal dos outros, é assim, não há grande espaço para misericórdia por quem está no chão. E o certo é que no espaço de uma semana, o Sporting passa de um troféu à depressão, porque depressiva foi a exibição na sua casa frente ao maior rival, num dérbi intenso e animado, talvez o melhor jogo entre os grandes desta temporada, pelo menos para quem gosta de golos, dos normais e dos bons - que houve dos dois tipos em Alvalade - e, porque não?, de casos, que aumentam a emoção e que foram quase todos bem resolvidos.

Mas falava de renascimentos e talvez no final da temporada não se fale do renascimento do Sporting, mas sim na cambalhota do Benfica, entre a equipa amorfa e sem fio de jogo de Rui Vitória para a intensidade e objetividade de Bruno Lage, um treinador de academia que rapidamente percebeu que jogadores tinha em mãos, os bons jogadores que tinha em mãos e onde os colocar e para isso basta ver o que joga e faz jogar por estes dias João Félix e até Seferovic. Ou a liberdade para encontrar espaços de Gabriel, todos jogadores intermitentes até à chegada de Lage.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

O Benfica venceu por 4-2 em Alvalade e os dois golos sofridos até amenizam um encontro dominado a toda a linha pelos encarnados, na Lagetude e na longitude, em todos os paralelos e meridianos, na defesa, no meio-campo e no ataque, com os seus jogadores a serem capazes não só de criar facilmente oportunidades como de secar toda e qualquer criatividade dos leões, que por estes dias parece pouca e cansada, neste início de ano terrível em termos competitivos.

O plantel do Sporting é curto para a dureza do calendário competitivo e para as ideias de Keizer e isso está a ver-se de forma evidente.

Viu-se cedo ao que vinha ao Benfica nas coordenadas N 38° 45' 40" , W 9° 09' 38" onde está Alvalade. Logo naquela arrancada aos 4’ de Grimaldo pela lateral que só não deu golo porque Seferovic e João Félix chegaram tarde. Não chegaria atrasado o suíço seis minutos depois a novo cruzamento do espanhol, nem tinha de chegar, tal a desconcentração dos centrais do Sporting, que o deixaram à vontade na área.

O Benfica variava bem o jogo, entre aberturas do meio para as alas, das alas para a mobilidade de Seferovic e o talento de João Félix, que respondeu ao golaço anulado aos 22’ com um remate certeiro aos 36’, após um passe a rasgar de Seferovic. Os dois golos de vantagem em casa do Sporting nem sequer eram exagero e o grande golo de Bruno Fernandes antes do intervalo, um remate na passada de primeira após uma perda de bola de Samaris e um serviço rápido de Nani, era só um panaceia para aquilo que seria o resto do encontro.

Que foi o mesmo que se viu na 1.ª parte - o Benfica a dominar e com pouca vontade sequer de controlar com os olhos e um Sporting sem sequer conseguir sair a jogar e apenas a conseguir algo em contra-ataques raramente bem geridos.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Ajudou, claro, aquele golo de Rúben Dias logo a abrir a 2.ª parte, a responder de cabeça a um livre na esquerda de Pizzi (André Pinto de novo a ver o jogo passar por si sem muito fazer) e que aquele livre de Raphinha aos 62’, numa das melhores fases do Sporting (melhor não, numa das menos más), ter ido bater com estrondo no ferro.

E sem conseguir reagir, num jogo em que nunca pareceu sequer dentro da discussão, o Sporting voltou a sofrer, após uma grande penalidade cometida por Renan e quase defendida pelo guarda-redes brasileiro. Mas Pizzi acabou mesmo a festejar e logo a seguir Seferovic e João Félix só não deram mais expressão à quase-humilhação porque o primeiro rematou ao poste e o segundo, na emenda, rematou por cima.

Os últimos minutos valeram um golo anulado ao Sporting e uma grande penalidade que levou à expulsão de Vlachodimos e ao golo de Bas Dost, que desta vez nem de placebo serviu para amansar uma exibição muito pobre do Sporting, completamente manietado por um Benfica a jogar a todo o comprimento do campo, sem medo de arriscar, de faca nos dentes à procura do tempo perdido na 1.ª parte da temporada.