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Não há dois jogos iguais. Mas há equipas quase iguais

Na teoria, a história desta 1.ª mão das meias-finais da Taça de Portugal entre Benfica e Sporting foi um tudo nada diferente da história do jogo de há três dias, em que os encarnados dominaram a toda a linha. Mas na prática, apesar das melhorias dos leões, o Benfica voltou a ser a equipa mais forte, porque tem ideias mais fortes e jogadores mais preparados para jogar duas vezes por semana. A vitória por 2-1 coloca a equipa de Bruno Lage em vantagem, mas o grande golo de Bruno Fernandes, o único jogador do Sporting que parece preparado para estas andanças de jogos atrás de jogos, deixa uma porta aberta para a equipa de Alvalade

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia/Getty

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Aqui há mês e meio, em pleno vórtex de deslumbramento keizeriano, escrevi, após um Sporting-Nacional em que os leões aos 25 minutos já perdiam por 2-0 e acabaram a ganhar 5-2, que a regra primordial do futebol continuava a ser que ganha quem marca mais golos.

Daqui para cá, essa regra não mudou, como não mudou, sei lá, a teoria da relatividade. Porque de facto, não há volta a dar: continua a ganhar quem mais marca. Mas muitas outras coisas mudaram e é isso que torna aquele 16 de dezembro tão diferente deste 6 de fevereiro.

Mudou o Benfica, com a saída de Rui Vitória e a entrada de Bruno Lage. E mudou o Sporting, porque deixou de marcar tanto quanto marcava e continuou frágil na defesa. Ou pior, nada evoluiu na forma de defender, nada corrigiu nos posicionamentos e os reforços de inverno também não auguram para nada um acréscimo de qualidade, quanto mais uma mudança de paradigma.

É certo que o Sporting já tinha caído em Guimarães, dado um trambolhão em Tondela e escorregado em Setúbal, mas até mais que o empate frente ao FC Porto, jogo em que Keizer abdicou da sua ideia para algo mais, digamos, pragmático, o jogo do último fim de semana com o Benfica veio mostrar, preto no branco, as fragilidades deste Sporting, face a um Benfica super-aditivado com aquilo que com Rui Vitória não parecia ter: uma ideia de jogo, um fio condutor.

Sem a frescura física que ainda tinha em dezembro, o Sporting tornou-se previsível, permeável às estratégias de anulação do rival e no encontro de sábado foi terraplanado por um Benfica que dominou todos os momentos de jogo. Esta quarta-feira, na 1.ª mão das meias-finais da Taça de Portugal, algo mudou, sem dúvida. Keizer mudou meia-equipa, refrescou a defesa com Borja e Ilori, dois reforços, e na frente apostou em Acuña, Jovane e Luiz Phellype.

Gualter Fatia/Getty

E o certo é que o Sporting melhorou. Entrou com posse, não esteve tão desacertado no meio-campo e até criou mais oportunidades. Mas, se não há dois jogos iguais, e este não foi um jogo igual ao de domingo, as equipas continuam a ser quase iguais. No espaço de três dias, um Sporting refrescado pode ter até criado mais problemas ao Benfica, mas as ideias continuam com um certo travo a mofo. O Sporting continua a perder indesculpáveis bolas no meio-campo e daí surgiu o primeiro golo do Benfica, aos 16 minutos, numa jogada de contra-ataque conduzida por Salvio, que deixou para Pizzi que por sua vez entregou a Gabriel à sua esquerda. O brasileiro rematou forte, Renan não segurou e assim fez o seu primeiro golo pelo Benfica.

E continua também a defender mal e foi num dos muitos quase infantis posicionamentos da defesa do Sporting nasceu o segundo golo do Benfica, aos 64’, na sequência de um cruzamento de Seferovic que passou ao largo de uma letárgica defesa do Sporting e foi ter com João Félix. O miúdo rematou e Tiago Ilori, numa re-estreia pobre pelos leões, meteu o pé à bola, que foi parar direitinha à baliza de Renan.

É claro que no meio desta espécie de desmoronamento coletivo que tem afetado o Sporting nas últimas semanas, há uma luz. E essa luz chama-se, sempre, Bruno Fernandes, que por vezes parece o único jogador com pedalada para um Sporting que ainda está em quatro competições. Já tinha sido do médio o golo (e que golo) que há três dias tinha colocado o Sporting a perder por apenas 2-1 quando se calhar até podia estar a perder por mais e foi do médio o golo (e que golo, mais uma vez) que deixa o Sporting dentro desta meia-final, a apenas um golo em casa de seguir para o Jamor.

NurPhoto/Getty

Foi num livre frontal, aos 82’, num remate potente e colocado, perfeito e sem hipóteses para Svilar, para culminar uma reta final de jogo em que o Sporting, meio que atabalhoadamente, se chegou à baliza do Benfica. Antes do golo de Bruno Fernandes, já Wendel tinha criado perigo aos 75’, o mesmo Wendel que aos 57’ até tinha tido o empate nos pés, ao aparecer isolado frente a Svilar e a tentar um remate em jeito que não teve jeito algum.

O 2-1 na Luz deixa tudo para decidir em Alvalade mas, grosso modo, o jogo desta quarta-feira foi diferente, mas não tão diferente assim: o Sporting esteve mais capaz, mais fisicamente capaz, mas cometeu muitos dos mesmos erros de sempre, no meio-campo e na defesa. E o Benfica, apesar de não tão acutilante quanto no domingo, voltou a ser a melhor equipa, a mais iluminada, mais forte na hora de construir, mais eficaz na hora de rematar.

As diferenças esbateram-se mas, se não há dois jogos iguais, estas equipas não foram assim tão diferentes.