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O livre de Bruno, o livro de Bruno

Keizer relembrou aos críticos que no bus que veio de Braga estava a Taça da Liga conquistada ao FC Porto - o autocarro que anda literalmente a reboque de Bruno Fernandes, o jogador mais determinante do Sporting, que marcou dois golos ao Feirense. O triunfo (3-1) esconde uma primeira-parte deprimente e a ideia de que a equipa está em perda

Pedro Candeias

NurPhoto

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Naquele jeito muito particular, curto e binário, Marcel Keizer responde a cada pergunta sim ou não, bom futebol ou mau futebol, pobre ou rico. Há quem ache isso aborrecido e redutor, eu acho apenas apenas que é a defesa possível contra as diferenças linguística e cultural, logicamente, mas sobretudo contra a genética de um clube em que uma pequeníssima centelha de indignação resulta num incêndio difícil de controlar. É só preciso estar atento aos sinais: os candidatos perdedores, ou os seus tetas-de-ferro, apresentam queixas contra o presidente eleito no MP meses depois da eleição; o presidente excluído que lança um livro de ajuste de contas, também poucos meses depois de ter sido posto fora pelos sócios. É, digamos, trágico.

Pois que é por isso que Keizer, ao lançar o jogo contra o Feirense, relembrou a Taça da Liga que ele trouxe de Braga no autocarro quando questionado sobre os empates na final four e as derrotas com o Benfica. Apesar de tudo, parece ele dizer, o SCP já tem um título, mesmo que os últimos indicadores da equipa sejam francamente maus: aqueles tiques über ofensivos já não existem e a construção de jogo complicou-se, muito provavelmente porque a equipa é curta e não permite a futebolística gestão de esforço. Assim sendo, é como é, e as coisas vão-se fazendo como se pode: com esforço, com alguma sorte – e com Bruno Fernandes.

Na primeira-parte com o valente Feirense, que pressionou bastante, condicionando os movimentos dos centrais sportinguistas e de Gudelj, o Sporting viu-se, em bom português, à rasca. Raramente criou oportunidades - zero remates no primeiros 25 minutos - até chegar ao golo numa boa jogada em que Wendel e Bruno Fernandes combinam um passe para Acuña, que, metido numa zona interior, pica a bola para Borja que, por sua vez, cruzou para um autogolo azarado de Briseño. Foi ao minuto 44' e para trás tinham ficado o marasmo e a inércia leoninas, e um golo estranho anulado a Marco Soares, após consulta do VAR,

Na segunda-parte, as coisas mudaram, porque o Feirense perdeu gás e coesão, o pequeno campo do Marcolino de Castro abriu espaços que Bruno Fernandes passou a explorar diligentemente. E quando assim é, frente a equipas de menor dimensão, normalmente basta: num cruzamento de Diaby da direita, o médio marcou de cabeça, bem no centro da área.

O 2-0 encostou o Feirense às cordas e um livre de autor do mesmo Bruno Fernandes, minutos depois, deixou o adversário à beira do KO; o acrobático pontapé de moinho de Petkov não evitaria o inevitável. Para quem não ande a par das contas, Fernandes já leva 20 golos em 2018/19, o que é notável para qualquer jogador, mas ainda mais o é para um médio.

E enquanto assim for, o autocarro do Sporting andará a reboque do seu futebolista mais determinante.