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Do ataque à defesa, não necessariamente por essa ordem: as ideias, as preocupações e as figuras que vão decidir o clássico no Dragão

O treinador Blessing Lumueno faz a antevisão do FC Porto-Benfica (sábado, 20h30, SportTV1), explicando quais os padrões táticos e as figuras individuais que deverão marcar o clássico que pode ser decisivo na luta pelo título

Blessing Lumueno

Carlos Rodrigues

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Neste tipo de jogos, é muito difícil perceber quem poderá ter mais sucesso, por normalmente estes serem jogos nos quais as equipas se conhecem bastante bem, e sobretudo pela preponderância da abordagem conservadora na escolha dos onzes iniciais e no ponto de vista estratégico.

Os treinadores procuram não expor as suas equipas no momento ofensivo para evitar ao máximo os contra ataques (atacam com menos unidades e não arriscam sair a jogar em zonas recuadas), assim como procuram ter um aproveitamento grande dos momentos de transição defensiva e de bola parada. Por tal, será difícil de prever um jogo aberto, no qual as duas equipas joguem sem muitos complexos, até pelo que está em causa no jogo: a disputa do primeiro lugar.

Será quase impossível que o FC Porto possa repetir uma exibição como a que fez com o Braga, pela escolha dos jogadores que teve. Foi a melhor exibição individual dos "dragões" em muito tempo e a maior causa disso foi o perfil dos jogadores em campo. Não teve tantos jogadores cuja melhor característica é a força e a velocidade e, por isso, conseguiu em vários momentos ter um futebol bastante agradável.

Assim como será difícil que o Benfica chegue a um número de golos tão alto como nos últimos jogos, porque a equipa só começa a jogar um futebol diferente, de mais passes, quando está confortável no resultado.

Tendo em conta que as duas equipas procuram em primeiro lugar a profundidade (o FC Porto mais vertical, o Benfica mais diagonal), os dois treinadores deverão alinhar estratégias para fazê-lo. Ambos costumam baixar as linhas neste tipo de jogo e definem zonas de pressão mais médias. Colocam-se para não deixar o adversário sair a jogar, mas, caso o consigam, juntam na zona intermédia, para retirar espaço nas costas e entre setores, e só depois pressionam.

Sabendo que nenhuma das equipas tentará arriscar muito na saída de bola, parece-me uma decisão sensata dos treinadores. Há, porém, que pensar em como, depois do ganho da segunda bola, parar a construção da dinâmica do adversário. A variabilidade de jogo surge em transição ou quando as equipas estão confortáveis no marcador; aí, procuram circular a bola por outras zonas e tentar situações para desequilibrar com mais toque curto do que longo.

As três preocupações de Sérgio Conceição

SOPA Images

1. A forma como o Benfica explora em largura e profundidade o lado contrário de onde a bola está ser jogada, sobretudo com os passes de Gabriel, para depois então colocar as dinâmicas ofensivas em campo (como se vê nas imagens abaixo).

E poderá fazê-lo pressionando Gabriel com a orientação corporal adequada (para fechar a diagonal), não deixando que este tenha tempo e espaço para colocar a bola que Bruno Lage preparou (do lado direito com Pizzi em largura e João Félix a fixar o lateral – do lado esquerdo com Grimaldo em largura e Rafa a fixar o lateral); ou até impedindo que a bola entre em Gabriel, pedindo aos seus jogadores que fechem as linhas de passe para o mesmo (até com acompanhamento individual); a melhor forma seria roubando a bola e dominando o jogo, não dando espaço para que o Benfica possa colocar a dinâmica em prática, sendo que esta solução será sempre muito difícil, uma vez que é impossível dominar e controlar o jogo durante os noventa minutos.

2. A transição ofensiva do Benfica: a forma como Félix e Seferovic se movimentam nesse momento, abrindo primeiro para depois procurarem a profundidade, a rápida chegada de Rafa para conduzir, e Pizzi e Gabriel a lançarem o ataque. A reação à perda será fundamental, bem como as faltas nos momentos em que a equipa não conseguir recuperar logo a seguir à perda.

3. João Félix e Grimaldo: do ponto de vista ofensivo, são os que mais situações diferentes conseguem dar ao jogo do Benfica, pela criatividade.

As três preocupações de Bruno Lage

JOSÉ SENA GOULÃO

1. A forma como irá impedir o FC Porto de explorar a profundidade de forma vertical, não desposicionando os seus defesas, uma vez que está bem trabalhada na equipa de Sérgio Conceição a dinâmica dos movimentos em que o avançado recebe, toca no médio ala que se desmarca em profundidade entre o lateral e o central para obrigar o central a sair, e posteriormente a saída de um cruzamento aproveitando o tempo de ajuste entre a saída do central da posição e a chegada do médio defensivo ou do lateral para ocupar a sua posição em zona de cruzamento.

A dinâmica é já bem conhecida por todos, sendo que os intervenientes vão mudando consoante o primeiro jogador que recebe a bola no último terço. Lage poderá manter a estrutura defensiva o mais estável possível para defender a baliza, evitando ao máximo que o central saia na bola, atraído pelo movimento de quem passa à sua frente. Poderá também optar por pressionar mais alto, orientando a pressão para o lado contrário, não dando tempo e espaço para que o primeiro passe entre.

2. A segunda grande preocupação deverá ser com o comportamento no centro de jogo e na linha defensiva, por forma a retirar o grande aproveitamento que o FC Porto tem tido das situações em que a bola entra, no último terço, do corredor lateral para a cobertura seguido de cruzamento.

Independentemente de ter ou não vantagem numérica ou espacial na área, quando há passe para a cobertura, o FC Porto tenta jogar com o comportamento da linha defensiva (que sobe em caso de passe para trás) de forma a aproveitar o espaço que fica entre o guarda-redes e os defesas, e cruza, normalmente com muito perigo. Será importante para o Benfica ser agressivo na pressão da cobertura que recebe a bola para que o cruzamento saia nas piores condições possíveis, ou não saia de todo. Também deverá ajustar o comportamento da linha defensiva para perceber exatamente o timing em que deve subir para não ser apanhada em contrapé no momento em que estiver a subir depois do passe atrasado.

3. Brahimi e Óliver. Os dois que, do ponto de vista ofensivo, têm o nível de entendimento do jogo e a criatividade dos grandes jogadores. São os grandes responsáveis pelos momentos de génio da equipa de Sérgio Conceição.

As figuras

No ataque e na defesa, cada equipa tem um elemento que se vai destacando mais do que os outros. E sendo que todos são importantes, e contribuem todos individualmente para o sucesso coletivo do setor e da equipa, há quem, pela personalidade ou pelas características técnicas, se aproxime mais do que o treinador quer.

No ataque do Futebol Clube do Porto

Há Alex Telles. É o elemento preponderante para as dinâmicas ofensivas que Sérgio Conceição gosta, pela forma como coloca a bola na área. É também o responsável pelas bolas paradas, daí o número altíssimo de assistências que tem. Se o FC Porto é tão temido cada vez que tem um pontapé de canto ou um livre lateral é porque Telles, apesar de não ter grandes preocupações em colocar a bola num colega em particular, executa o cruzamento de forma superior.

SOPA Images

Há Brahimi. A criatividade com que passeia entre as linhas adversárias, e o toque de qualidade que tem quando escolhe vir por fora são a arma que torna o jogo do FC Porto diferenciado. É pelas incursões interiores do médio, pela qualidade e velocidade na execução, pela forma como chama os seus colegas para tabelar ou assume sozinho as despesas no momento de desequilibrar o adversário que tem sido ele o melhor médio ala, ou extremo, a jogar em Portugal.

Há Soares - o homem golo. Dentro da área é feroz pelo aproveitamento que faz para finalizar a partir das situações e dos espaços que lhe deixam. Não é jogador para individualmente resolver um lance com a bola controlada, quando tem oposição, e tão pouco é jogador para sair como apoio e decidir e executar com qualidade entre enquadrar os médios ou rodar; mas é o tipo de jogador que não deixa os defesas descansados por saberem que em qualquer erro, em qualquer situação em que apareça para finalizar, ele dirá presente. Não finaliza todas as situações que tem, mas aparece sempre a criar perigo. Tem menos nove jogos que Marega e fez apenas menos um golo, tendo já ultrapassado a sua melhor marca.

No ataque do Sport Lisboa e Benfica

Há Grimaldo. É o jogador que melhor ataca no Benfica. Com a bola nos seus pés não há pressão que resista, ela está sempre descoberta. É o melhor a encontrar soluções sem tempo e sem espaço, e é o melhor a tirar partido dos seus movimentos e da atração que o adversário tem pela bola para beneficiar os colegas. Não só procura o cruzamento, ou a cobertura, como é o jogador que mais vezes procura, estando no corredor lateral, colocar um colega de frente para a linha defensiva. É o jogador que melhor percebe como tirar partido das situações ofensivas, e como jogar com toda a oposição que enfrenta, por jogar não apenas no centro de jogo mas com o campo todo.

Há Gabriel. O novo responsável pelas operações ofensivas do Benfica, pela qualidade de passe que demonstra. Coloca as bolas com uma precisão assinalável, exatamente onde o treinador lhe pede - das zonas de construção para as de criação. Não tem grande preponderância quando a bola chega ao último terço, ficando mais em controlo e em equilíbrio para fazer variar o jogo, e com a responsabilidade de apertar quando a equipa perde a bola.

Carlos Rodrigues

Há João Félix. O grande responsável pela expressividade que os resultados da equipa de Bruno Lage têm tido. No jogo anterior, por exemplo, todos os golos têm pormenores deliciosos do miúdo. Mesmo tendo falhado algumas coisas, conseguiu mostrar a qualidade que o diferencia dos demais. A receção no primeiro golo, apesar do passe não ter saído depois; A recarga de primeira, e com o pé não dominante, depois de ter falhado a finalização num primeiro momento; e o passe que deixa Jonas na cara do terceiro golo.

Na defesa do Futebol Clube do Porto

Há Felipe. O líder de todo o processo da linha defensiva, como Sérgio Conceição o idealiza. Forte nos duelos e no jogo aéreo. Rápido a recuperar para controlar a profundidade, ou para cobrir um colega que saiu da posição. Impõe-se mais pelo físico e não tanto pela qualidade das ações. Porém, fundamental para liderar a defesa do FC Porto, até pela personalidade forte que demonstra ter mesmo quando comete erros.

Gualter Fatia

Há Danilo. É o elemento que mais falta faz ao modelo do Porto, pela forma conservadora como se coloca em campo. Não tanto pela qualidade posicional, ou pelas qualidades físicas, mas sim porque se resguarda mais por força das suas características, e por ser inteligente o suficiente para perceber as suas limitações. Os espaços que existem hoje entre setores não existem tanto quando Danilo está em campo, porque ele não tem o ímpeto para desequilibrar ofensivamente e ligar-se às jogadas para ser decisivo; assim como também não é dado a pressionar muito alto por ter alguma dificuldade em recuperar defensivamente.

Há Corona. Dos que jogam mais adiantados é o mais preponderante na dinâmica defensiva da equipa, e o que equilibra quando os avançados e o médio mais ofensivo pressionam na saída de bola. É, assim como o outro extremo, o jogador que fecha dentro ao lado do médio defensivo, e divide o espaço entre o corredor central e o lateral. Estando sempre preparado para pressionar de dentro para fora, sendo que quando a bola entra no corredor também continua a pressionar. A sua importância percebe-se na forma como recupera para fechar o corredor em transição defensiva, sobretudo quando a bola sai do lado contrário ao que defende.

Na defesa do Sport Lisboa e Benfica

SOPA Images

Há Vlachodimos. Apesar de não ser um elemento da linha defensiva, dos cinco mais recuados tem sido o mais importante. Não pela liderança, mas por ser chamado a intervir demasiadas vezes pelas más abordagens individuais e coletivas do sector que está mais próximo dele, e por intervir nessas situações com grande qualidade. Chegará o dia em que Bruno Lage terá a equipa tão bem trabalhada do ponto de vista defensivo, e tão forte do ponto de vista individual, que o guarda-redes terá apenas uma ou duas intervenções importantes na defesa da baliza; e aí se perceberá, pelos pormenores que terá de controlar, mais do que defender a baliza, se é o ideal para uma equipa grande ou não. Para já, tendo em conta o estado da situação, tem sido perfeito.

Há Florentino. Não estando certo que vá ser aposta, é o que melhor capacidade tem para jogar em "modo Fejsa" do ponto de vista defensivo. Em organização defensiva, mas sobretudo em transição. Tem uma leitura do jogo fora do comum e antecipa os lances pela sua intuição de forma fantástica. A agressividade que demonstra no momento em que a equipa perde a bola só é possível ser decisiva e só é possível ter tanto sucesso por estar no sítio certo, na altura indicada, para parar os contra ataques do adversário.

Há João Félix. Lidera a defesa a partir do ataque, não só na forma como pressiona e fecha o médio defensivo adversário, mas também pela forma abnegada como se dá ao jogo. Não é raro vê-lo a aparecer em zonas bem recuadas em situações de organização ou transição defensiva, para ajudar a defender o corredor lateral, ou criar superioridade no corredor central.