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O extinto de sobrevivência

O FC Porto venceu o Feirense por 2-1 num jogo e isto foi o que de melhor levou de Santa Maria da Feira perante uma equipa que luta desesperadamente para não cair na II Liga. Cansado, esgotado e previsível, mas com o instinto de sobrevivência no máximo, o FCP derrotou o adversário na contabilidade das bolas paradas e sofreu nos momentos finais para não perder pontos contra os fogaceiros que bateram um recorde que ninguém quer: 23 jogos consecutivos sem ganhar, a pior sequência da história da primeira divisão

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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E então o Feirense entrou com a pressa que os aflitos trazem no corpo quando fogem à tragédia; neste caso, a descida de divisão pré-anunciada por uma sequência de maus resultados que fazem deste Feirense uma das piores equipas de sempre. Não era exagero, apenas matemática: os fogaceiros estavam há 22 jogos sem ganhar, tal como o Varzim de 1984/85, eram (e são) os últimos classificados e traziam na alma seis derrotas – e o adversário era FC Porto. Obviamente, a probabilidade de tudo correr mal e de eles se tornarem desoladamente os piores entre os piores era grande. Tão grande como é a diferença do espaço que cada uma das equipas ocupa no futebol português.

Assim, nos primeiros 10, 15 minutos, o Feirense foi surpreendentemente melhor do que o FC Porto, não só pelo golo que marcou logo ao minuto 4 – cruzamento de Edson Farias que Felipe cortou para a baliza –, mas por toda a genica e pressão e coragem que imprimiu no jogo. Houve até um belo passe de Tiago Silva para Sturgeon se exibir diante de Militão (9'), aproveitando os seus naturais tiques de defesa central para chutar para uma boa defesa de Casillas. Podia ter sido o 2-0, não foi o 2-0 , mas sim um abre-olhos para os portistas elevarem o nível de jogo, que os fogaceiros estavam ali para dar réplica.

E o campeão nacional acelerou pelos corredores, à busca da largura e do tal cruzamento que encontrasse Marega ou Soares, dois avançados poderosos que tendem a ganhar a bola, o ressalto ou ao adversário. Jogando duro, com o físico e pouca criatividade, o FC Porto carregou e chegou ao empate num cabeceamento fogoso de Danilo, após canto batido por Corona. O mexicano, aliás, foi quem mais procurou outra coisa que não o overlap para chegar à baliza do Feirense, só que os portistas não foram a Santa Maria da Feira para grandes floreados, mas para ganhar forte e feio. Na verdade, talvez não desse para mais. Seria sempre complicado ganhar depois de um desgastante jogo de Champions jogado até ao limite, diante de uma equipa cujo instinto de sobrevivência é permanente – e, mais do que isso, usando o mesmo onze.

Portanto, quando Pepe fez o 2-1, outra vez num canto batido por Corona (e uma estranha sucessão de ressaltos pelo meio), era clarinho que o caminho seria aquele. E que seria sofrido. Tivesse João Silva a habilidade do mítico Artur-pontapé-de-moinho-Jorge e talvez o FC Porto tivesse ido para o intervalo empatado.

Depois, veio a segunda-parte e a segunda-parte não teve nada a ver com os primeiros minutos da primeira-parte. Faltas seguidas de outras faltas e de mais faltas, e o jogo entrou naquela fase que os sábios dizem ser incaraterístico, palavra doce para mal-jogado. Foi assim durante 10 minutos, até que o FC Porto se reencontrou com a previsibilidade: cruzamento de Corona ou de Alex Telles lá para o meio e fé no cabedal dos avançados no centro da área ou dos médios à entrada desta.

Era preciso mexer e foi isso que Sérgio fez, retirando Marega e pondo Brahimi, do 4x4x2 para o 4x3x3. Ato contínuo, o talentoso argelino driblou e tentou pôr a bola em Soares, instantes depois Corona chutou para o infinito e Soares remataria ao poste, lance anulado por fora-de-jogo. Não era muito, mas era alguma coisa, ainda não fosse nada de significativo, porque o resultado não se iria alterar. O cansaço foi-se acumulando, o músculo foi cedendo e Soares tinha a máscara do sobre-esforço a marcar-lhe a cara.

Por outro lado, houve mérito na determinação fogaceira, sobretudo do enérgico Ali Ghazal, que foi a todo o lado buscar adversários para lhes roubar a bola ou, pelo menos, complicar-lhes a vida; de Edinho, o veteraníssimo internacional português que entrou nos finais para sacudir a defesa portista. Numa boa combinação, Edinho assistiu Crivellaro que se preparava para a glória quando Pepe cortou a bola; e no final, Briseño aproveitou uma sobra confusa para um remate quase épico.

E assim o FC Porto pôs pressão no Benfica, que joga segunda-feira com o Belenenses. E assim se terá extinguido o instinto de sobrevivência do Feirense, o exemplo paradigmático de como uma chicotada psicológica pode correr realmente mal. Desde a saída de Nuno Manta Santos, os rapazes de Santa Maria da Feira sofreram 18 golos e marcaram apenas três. Em seis jogos.