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Cássio confirma em tribunal que foi ouvido pela PJ

Julgamento opõe o guarda-redes que jogou no Rio Ave a César Boaventura. Na última sessão, o ex-colega de equipa Lionn acusou o empresário de tentar suborná-lo para perder contra o Benfica

Isabel Paulo

FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

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O guarda-redes Cássio prestou depoimento no Tribunal de Esposende na tarde desta segunda-feira. Um processo que opõe o ex-guardião do Rio Ave ao empresário de jogadores César Boaventura, por este ter insinuado no Facebook que teria facilitado num encontro contra o FC Porto (5-0 para os dragões).

No tribunal, Cássio declarou que depois do post a sua vida "virou um inferno". E acrescentou: "Foi duro ver a minha filha de 9 anos chegar da escola chorando." O guarda-redes recordou que depois do post no Facebook e do vídeo - com uma parte em câmara lenta sugerindo que tinha retirado a mão para entrar o primeiro golo - houve adeptos de equipas adversárias que lhe acenaram com notas. "O que Boaventura escreveu mexeu com o meu caráter a minha honra." E acrescentou: "Nunca tal me aconteceu antes. Vaiavam no aquecimento antes dos jogos, o normal por parte dos adeptos adversários, mas isso até me dava mais força."

Neste julgamento, o atleta referiu que foi ouvido pela Polícia Judiciária em maio de 2017, sobre um caso do qual diz não poder de falar "por se encontrar em segredo de justiça".

Cássio alegou ainda que falou uma vez pessoalmente com César Boaventura, e mais "algumas vezes" por telefone. Não explicou qual a razão. Apenas disse que seriam "questões profissionais".

O advogado de César Boaventura desvalorizou por várias vezes o post colocado no Facebook pelo empresário, argumentando que Boaventura não nomeou o jogador em causa e que este inclusive fez um contrato vantajoso com uma equipa de futebol estrangeira. O guarda-redes joga atualmente no Al Taawon, da Liga da Arábia Saudita.

Daniele, a mulher de Cássio, também inquirida esta segunda-feira, confirmou que o marido de 38 anos foi auferir um contrato mais alto na equipa treinada por Pedro Emanuel, na Arábia Saudita. Contou em tribunal que infelizmente a família sofreu muito com os efeitos do post, a começar pela filha mais “gozada na escola pelas outras crianças, que falavam que o pai era um vendido, que deixava as bolas passarem por dinheiro”.

“A mais nova é muito pequena e ainda não tem entendimento das coisas, mas a mais velha, que é muito sensível e sempre teve o maior orgulho no pai, foi difícil explicar que tudo era mentira”. Daniele avançou ainda que a vida em Paços de Ferreira, onde residiam desde que vieram para Portugal há 12 anos, mudou para toda a família. “O Cássio sempre foi um ótimo profissional, trabalhador, muito vivo e falador. A seguir à publicação e ao vídeo, ficou introvertido e triste”, afirmou ao juiz, referindo que passaram a evitar sair de casa para ir ao shopping ou ao restaurante para não ficarem melindrados com“ os olhares críticos e os cochichos”.

A defesa de César Boaventura insistiu com Cássio para dizer em que jogo ou jogos lhe acenaram com notas após o post, mas o guarda-redes brasileiro adiantou num jogo com o Guimarães, não se recordando de mais nenhum. Dado o nome de Cássio não figurar no post do empresário e que ditou o processo de difamação, a defesa questionou Cássio e a mulher qual o motivo que os levaram a crer que seria o guarda-redes o visado na publicação. Além de ter sido o titular do jogo, o vídeo publicado é o do primeiro golo do encontro, referiu o guarda-redes.

O julgamento prossegue dia 1 de abril, às 14 h, tendo o advogado de Cássio, José Rebelo da Silva, feito um requerimento para Marcelo, também ex-jogador do Rio Ave e agora a jogar na liga norte-americana ser ouvido por vídeo-conferência, dado não o tribunal não ter disponibilizado hoje condições técnicas para ouvir o jogador que também passou pelo Sporting.

O contexto

Na passada semana, o ex-jogador do Rio Ave Lionn revelou no mesmo tribunal ter recebido uma oferta para perder contra o Benfica, apontando como alegado corruptor o empresário César Boaventura. Segundo o agora jogador do Desportivo de Chaves, o empresário tentou comprá-lo num jogo contra o Benfica, mas não só. "A mim, ao Cássio e ao Marcelo Também", afirmou sob juramento, no decurso do de um processo por difamação movido pelo ex-guarda-redes do Rio Ave, após Boaventura ter insinuado nas redes-sociais que Cássio teria entregado o resultado numa vitória contra o FC Porto por 5-0, em fevereiro de 2018.

César Boaventura nega tudo, advertindo que vai processar Lionn e justifica "a invenção" do jogador como parte de uma manobra com algumas pessoas do FC Porto e com Bruno de Carvalho.

Ao que o Expresso apurou junto de fonte do processo, o agente de futebolistas ter-se-á apresentado como "mandatado por Luís Filipe Vieira" e oferecido a Cássio cerca de 250 mil euros para facilitar o jogo conta o Benfica. O guarda-redes brasileiro terá de seguida alertado alguns dirigentes do Rio Ave, que decidiram manter o episódio em segredo. O incidente não abalou também a confiança do então treinador do Rio Ave, Pedro Martins, que manteve o jogador alvo de tentativa de suborno como titular da baliza no encontro que o Benfica, em 2016, venceu por 1-0.

Ao que o Expresso apurou, o guarda-redes estará disposto a contar à Polícia Judiciária como foi aliciado.

César Boaventura adiantou ao Expresso já ter denunciado os três jogadores - Cássio, Lionn e Marcelo - por estarem "feitos" com a "coligação" entre o FC Porto e o ex-presidente do Sporting e irá contra-atacar também como um processo por difamação.

Numa das escutas, além dos três jogadores visados, a PJ terá ainda intercetado em escutas telefónicas a Nelson Monte, formado no Benfica e futebolista dos vila-condenses e que também já testemunhou contra o agente de Viana do Castelo. Nelson avançou que Boaventura foi visto nas nas instalações do clube e terá tentado aliciar o central Marcelo, posteriormente transferido para o Sporting e foi vendido em dezembro aos Chicago Fire, da Liga norte-americada (MLA)

Numa troca de mensagens WhatsApp trocadas entre Boaventura e Marcelo, a o teor da conversa é revelador:

- Está aqui um gajo do Porto a dizer que eu te aliciei para visiação de resultados. Diz que te queixaste.

- Nunca comentei com ninguém. Os únicos que sabem são o Cássio e o Lionn.

- Apaga as mensagens, amigo. Apaga todas.

E Marcelo não só não apagou, como colaborou com as autoridades.