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Francisco J. Marques: “FC Porto não autorizou nem impediu divulgação dos e-mails. Tive carta branca”

Diretor de Comunicação e Informação do Porto Canal justifica divulgação de e-mails internos do Benfica em nome do interesse público e da defesa do FC Porto e demais clubes, alegadamente prejudicados com a espionagem que os 'encarnados' faziam aos árbitros e aos concorrentes. Coautor do livro 'O Polvo Encarnado' diz que o título certo seria 'A teia do poder encarnado'

Isabel Paulo

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Francisco J. Marques garantiu, esta quarta-feira, no Tribunal Central Cível do Porto, ter tido carta branca por parte da administração da SAD do FC Porto para gizar a estratégia de divulgação dos conteúdos dos e-mails internos do Benfica, recebidos através de uma conta, supostamente alemã. Réu no processo dos e-mails, no qual o Benfica pede ao FC Porto e ao Porto Canal uma indemnização no valor de €17,7 milhões por danos de imagem e financeiros devido à revelação de correspondência eletrónica privada, o diretor de informação e comunicação dos 'dragões' afirmou ao juiz ter informado Pinto da Costa, Fernando Gomes e Adelino Caldeira sobre o envio dos e-mails, tendo recebido “carta branca” para a divulgação dos seus conteúdos.

“Nenhum dos administradores ou o presidente autorizaram ou impediram a sua divulgação”, afirmou J. Marques em tribunal, negando ainda que, para além dele e de Diogo Faria, comentador do Porto Canal, qualquer responsável do FC Porto tenha tido acesso aos conteúdos da correspondência eletrónica da Luz. De acordo com o réu, que pediu para ser ouvido voluntariamente, a difusão dos e-mails teve por objetivo “o interesse público, a defesa do FC Porto e dos concorrentes”, face aos conteúdos das mensagens.

“O Benfica acha que o FC Porto fez espionagem, quando pelo conteúdo dos e-mails se percebe que é o Benfica que fazia espionagem aos concorrentes e aos árbitros”, declarou Francisco J. Marques, alegando que a troca de e-mails indiciava “atividades ilegais que adulteraram a verdade desportiva e prejudicaram o FC Porto”.

O coautor do livro 'O Polvo Encarnado', em conjunto com Diogo Faria, frisou que hoje, com mais discernimento teria titulado a obra de 'A teia do poder encarnado', garantindo ter ficado por divulgar vários pormenores pessoais das pessoas referidas nos e-mails, em especial da vida privada dos árbitros, como fotos de alegadas amantes.

Questionado pelo juiz sobre em que condição divulgou os documentos, Francisco J. Marques avançou que o fez enquanto diretor de informação da grelha televisiva relativa aos conteúdos do FC Porto e como jornalista, embora sem carteira profissional. “O meu comportamento foi puramente jornalístico, tendo eu e o Diogo procurado a veracidade dos factos”, referiu, dando como exemplo a estratégia do "Der Spiegel" no caso Football L.eaks. O responsável pela comunicação dos 'dragões' avançou que recebeu o primeiro e-mail em abril de 2017, durante um almoço. “Vi no telemóvel, enviada para o meu endereço eletrónico do FC Porto”, disse, assegurando não saber até hoje quem os remeteu.

Dado receber cerca de 500 e-mails de trabalho por dia, Francisco J. Marques adiantou em tribunal que passados uns dias criou um e-mail próprio - “tutanova” - através do qual passou a receber os ficheiros, enviados até julho de 2017, relativos inicialmente àquilo que ficou conhecido pela 'cartilha', supostamente da autoria do empresário Carlos Janela e seguida pelos comentadores afetos ao Benfica.

“Só nos interessava as tramóias do Benfica”

O réu frisou que a maior parte da triagem do conteúdo dos e-mails era feita por Diogo Faria, cabendo-lhe depois a seleção final dos que seriam divulgados no programa Universo Porto, num total de cerca de 200 e-mails. Francisco J. Marques recusou ter tido conhecimento da informação relativa a metodologias de treino da formação do Benfica, já que os únicos dados que interessavam eram “as tramóias” do Benfica.

A título de exemplo, lembrou a troca de e-mails entre Carlos Deus Pereira, então presidente da Assembleia Geral da Liga, e Pedro Guerra e que continham mensagens de correio eletrónico de Fernando Gomes, ex-presidente da Liga de Clubes e atual líder da FPF, ou ainda o acesso a dados do computador de Jorge Jesus e a notas dos árbitros.

O responsável pelo programa "Universo Porto - Da bancada" disse ainda ao juiz ter sugerido à fonte anónima que lhe enviava os e-mails que os remetesse para as autoridades policiais, mas que lhe terá sido respondido que “tinha muita coisa complicada sobre a justiça”. Francisco J. Marques revelou que foi contactado pela Polícia Judiciária em junho de 2017, altura em que entregou a primeira remessa de correspondência, no Dragão Caixa: “A segunda foi quando fui a Lisboa ser ouvido pelo Conselho de Disciplina da FPF, tendo feito a entrega das pen ao lado da prisão de Caxias”.

A última entrega de provas, em novembro do mesmo ano, foi efetuada através de um serviço “do género we transfer”, criado pela PJ. No dia em que terminou a fase de produção de provas, o juiz da ação cível acordou com os advogados de ambas as partes que as alegações finais serão apresentadas por escrito no máximo até 30 de abril. Decorrido este prazo, será proferida a sentença 30 dias após a conclusão do processo.