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O português suave é o novo futebol total

O Sporting bateu o Desportivo das Aves (3-1) com golos de Luiz Phellype, Mathieu e Bruno Fernandes - e com menos um jogador desde o minuto quatro. Chegou assim à sexta vitória consecutiva na liga, iguala a sua melhor série do ano e este é o melhor Sporting de Keizer do ano. Menos vertiginoso e idealista, mas bastante mais prático e, digamos, aportuguesado. A vida é uma aprendizagem contínua

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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A vida é uma aprendizagem contínua, e da próxima vez que Renan e Mathieu se encontrarem a meio caminho de algo certamente estarão falar a mesma língua. Convém, a bem do Sporting, para que disparates como este não se repitam e resultem, ao mesmo tempo, na expulsão mais estranha e rápida da Liga 2018-19.

Inevitavelmente, a crónica do Aves - Sporting tinha de começar por aqui, porque aconteceu cedo e porque tudo mudou a partir de então. É que, por força das circunstâncias - entrou Salin para o lugar do jovem Jovane -, o Sporting viu-se instantaneamente desobrigado de jogar o “very passing game” futebol total de Keizer. E recuou e contra-atacou, com Raphinha e Acunã, e deixou o faz-tudo, faz-tudo-bem Bruno Fernandes a tomar, como dizem os fiscais de obras, conta da ocorrência.

E isso chegou para enfrentar calmamente o Desportivo das Aves dos cinco defesas e pouco risco da primeira-parte: num passe daqueles de Bruno Fernandes para Acuña, nasceu o golo, por Luiz Phellype, que apareceu ao primeiro poste no cruzamento do argentino.

Num paradoxo matemático, o Sporting foi melhor, ainda que, noutro desencontro feliz de um homem com luvas e uma bola, o Aves tenha chegado ao empate. Foi num penálti, convertido por Falcão e cavado por Luquinhas, um diminutivo injusto para este irrequieto e intrépido brasileiro que já tem alguns quilómetros em Portugal. Ainda assim, não tem tantos como Fariña, sejamos sinceros, que tem mais milhas e carimbos que Phileas Fogg, apesar dos seus 28 anos, e é outro dos futebolistas talentosos do aflitíssimo Desportivo das Aves.

Só que ambos foram insuficientes para conseguir que o Aves chegasse ao intervalo empatado, pois Mathieu aproveitou uma bola perdida por Wendel para fazer o 1-2. Augusto Inácio, astuta raposa cá do burgo, mantivera o ferrolho e a defesa a cinco provavelmente por tempo de mais.

E, assim, era impossível.

Por isso, na segunda-parte, saiu Ponck e entrou Varela, e inevitavelmente o Desportivo das Aves subiu no terreno e incomodou um pouco o meio-campo e defesa sportinguinstas. Mathieu e Coates foram obrigados a atenções redobradas nas dobras perante as insistências dos referidos Luquinhas e Fariña, enquanto o valente Derley se tentava meter pelo meio. O jogo, que já fora entretido na primeira-parte, ficou mais nervoso com o cerco consentido do Aves ao Sporting, sucedendo-se lances que faziam adivinhar i perigo, mas que geralmente redundaram em poucochinho para as gentes da casa [n.d.r.: vide remates do veterano Vítor Gomes e o remate à figura de Luquinhas, claro].

Na verdade, o remate de Raphinha às pernas de Beunardeau foi a melhor oportunidade da segunda-parte até o implacável Bruno Fernandes se desmarcar, enganar e pular como um ponta de lança para o 3-1, de cabeça. Depois disso, o VAR de Artur Soares Dias ainda anulou um golo a Derley, mas o desfecho estava fechado e o Sporting chegaria à sua sétima vitória consecutiva na Liga. E esta é a sua melhor série do ano - e o melhor Sporting de Keizer do ano; menos vertiginoso e idealista, mas bastante mais prático e, digamos, português. Suave

Lá está, estamos sempre a aprender.