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“Vão querer fotografá-lo? E querem falar sobre o quê” Queremos falar sobre a vida, a vida de Rashid

Este é Osama Rashid, o refugiado iraquiano que domina seis línguas, fugiu e fugiu, estudou Gestão e marca golos pelo Santa Clara. O FC Porto vem já aí

Clara Silva (texto) e Rui Soares (fotos)

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Osama Rashid é o poliglota do Santa Clara. “É ele que ajuda na integração dos outros do plantel, fala seis línguas”, explicam-nos no Estádio de São Miguel, onde o clube açoriano joga. “Podem fazer a entrevista em inglês ou em português, é como quiserem.”

Tentamos o português e o médio iraquiano de 27 anos, camisola 6, domina o vocabulário quase na perfeição e até parece dizer Santa Clara com sotaque dos Açores. Antes da entrevista, os colegas à saída do balneário já sabiam quem seria o centro das atenções no fim do treino.

“Vão fotografar o Rashid, não é?” Também os responsáveis do clube não ficam surpreendidos pelo interesse. “É para falar do quê? Do lado mais exótico dele, não?” O “lado exótico” é o do país onde nasceu e de onde teve de fugir, mas já lá vamos.
Rashid chegou a São Miguel em 2017, “num projeto do clube para subir à primeira divisão”, diz com um sorriso. Banho tomado, aparelho nos dentes e sweat do Santa Clara, “o Benfica dos Açores”, como também chamam ao clube, aceita falar em vésperas de jogo importante no Dragão.

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Na ilha que agora é a sua casa – e onde já tem sítios preferidos, a “praia da Caloura”, por exemplo – tornou-se uma espécie de herói depois de, com oito golos na época passada, ter ajudado o clube a subir de divisão. “Tínhamos um plantel muito forte e escrevemos história”, orgulha-se. “Como é que se diz mesmo?”, pergunta ao responsável de comunicação do clube. “Cumprimos objetivos, é isso.”


O Santa Clara regressou à competição principal depois de 15 anos na II Liga e a equipa - o melhor Santa Clara de sempre - entrava na história dos Açores. Antes disso, a vida de Rashid já dava para muitas histórias.


Natural de Kirkuk, no Norte do Iraque, aos três anos fugia da guerra no país com a mãe e os dois irmãos, de 8 e 12 anos, mas disso quase não se lembra. “O meu pai ficou no Iraque, estava na guerra com o Irão. Não sabia de nada. Não sabia que tínhamos fugido para a Holanda, só descobriu depois.”
Com a mãe e os irmãos passaram primeiro pela Turquia e viveram em dois campos de refugiados. É na Holanda que as memórias lhe vêm à cabeça. “Esperámos cinco anos até ter papéis. Ao fim de um ano recebemos casa e depois passaporte.”

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O holandês acabou por se tornar a sua língua e a Holanda tornou-se a sua casa. “A minha vida foi muito boa na Holanda... Casa, escola, tudo”, recorda. “Havia muitas oportunidades. Ainda hoje agradeço tudo o que o país me deu, a mim e à minha família.”

A família conseguiu quase toda fugir. O pai juntou-se seis meses depois mas os tios de Rashid ficaram no Iraque. Na Holanda viveram primeiro numa cidade a meia hora de Amesterdão. “Como não havia muito trabalho”, quatro anos depois mudaram-se para Roterdão. Foi por sugestão do irmão que Rashid procurou um clube de futebol.

“Sempre gostei de jogar à bola. Comecei a jogar aos quatro anos e o meu irmão levou-me para um clube pequeno. O Ajax ainda queria que eu fosse jogar na academia, mas mudámos [de cidade] e fui jogar para o Feyenoord. O meu irmão, de novo, levou-me para lá. Fiz testes e joguei 12 anos.” Ao contrário de Rashid, o irmão acabou por desistir. “Tinha muitas lesões, não quis jogar mais.”

No Feyenoord as coisas correram bem até praticamente “ao fim do contrato”. Jogou na selecção holandesa de sub-16, sub-17 e sub-19, até se lesionar num campeonato europeu e tudo se complicar. “O meu contrato estava a acabar e não o renovaram. Aí fui para um outro clube da Holanda, o FC Den Bosch. Fiquei lá um ano mas não gostei. Joguei sempre num grande clube e depois fui para um pequeno. Não foi fácil adaptar-me.”

Aos 19 anos começou a jogar na seleção iraquiana e foi por sugestão do treinador na altura, o alemão Wolfgang Sidka, que fez testes para o Werder Bremen. “Eles fizeram-me uma proposta e o negócio estava quase fechado, mas o Feyenoord queria dinheiro. Eles não tinham direitos para receber dinheiro, a proposta não aconteceu.”

Foi depois dessa desilusão que ficou “farto de futebol”. “Decidi jogar em clubes amadores porque queria acabar a faculdade. Tinha começado [os estudos] com 16 anos, mas parei. Quis acabar acabar e acabei. Fiz um mestrado em Gestão e em 2015 recebi uma proposta do Farense e vim para cá.”

A Gestão ficou em stand-by mas no futuro, mais que para impressionar os colegas de equipa, como acontece agora, o curso pode vir a dar jeito. “Posso fazer muitas coisas com este curso, ainda não sei o quê. Quero depois trabalhar dentro do futebol.”

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Quando Diogo Boa Alma, diretor desportivo do Santa Clara, o contactou pela primeira vez para integrar o clube, Rashid rejeitou. “Não queria ir. Fui para a Primeira Liga da Bulgária [em 2016], fiquei lá quatro meses e acabei por não gostar. Aqui as pessoas são muito calorosas, lá é o contrário.”

Acabou por voltar a pegar no convite do Santa Clara. “O clube já deixou uma boa imagem no país todo e era isso que queríamos. Sabemos que temos muita qualidade no plantel e nunca tínhamos dúvidas de que íamos fazer uma boa época. É para continuar, para valorizar jogadores, o clube e até os Açores.”

Nesta época, Rashid, que também é um dos capitães da equipa, marcou seis golos, um deles golo do mês, marcado na quarta jornada, um livre direto ao Boavista. Quando falamos do golo não percebe a que nos estamos a referir. “Ah, sim. No canto direito. Pessoalmente comecei muito bem. Depois fui para a Taça da Ásia [em Janeiro], perdi um mês, joguei dois jogos e lesionei-me. Tive pena da segunda parte da época, mas ainda tenho cinco jogos.”

Dois deles são com os clubes que disputam o primeiro lugar, o FC Porto, este sábado, e o Benfica, na última jornada. “Quando jogas na Primeira Liga são esses jogos fora que queres jogar, de estádio cheio. A manutenção [o Santa Clara soma 37 pontos, no oitavo lugar] está praticamente assegurada e podemos ir ao Dragão jogar sem pressão. A pressão está toda do lado do FC Porto.”

Nos jogos com o Benfica e com o FC Porto, e com o Estádio de São Miguel cheio, o Santa Clara ainda não fez pontos em casa. “Contra clubes grandes jogamos sempre bem, mas até agora ainda não ganhámos pontos. Espero que ganhemos pontos contra o FC Porto.”

Por enquanto o foco continua no Santa Clara mas há rumores de que possa sair no fim da época e admite que gostava de “dar o salto”. Para outro país, porque não, apesar de se sentir bem em Portugal. “Gosto da cultura, da comida, de tudo. Não é muito parecido com a Holanda, é mais parecido com o Iraque.”
Na última vez em que lá esteve foi em 2012.

“Agora já podemos jogar os nossos jogos em casa. Antes a FIFA não deixava por questões de segurança, jogávamos no Dubai. Também tinha muita gente mas era diferente. Agora há muitos novos estádios e temos sempre 80 mil pessoas em casa.”