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Futebol nacional

A diferença está na pólvora

Benfica esteve a perder com o Portimonense, que assinou uma grande primeira parte. Na última meia hora, já com Jonas em campo, os encarnados marcaram cinco golos

Hugo Tavares da Silva

Gualter Fatia

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O calor que está lá fora ajuda à metáfora. Quantas vezes é que, qualquer um de nós, deixou toalhas e mala no mesmo lugar quando o mar ameaçava? Vinha uma onda e uff já passou. E, depois, mais outra. E outra. E a malta quietinha, confiante, como se o mar tivesse consciência. Até que, claro, lá vem outra e ensopa toalhas e malas. Todos, cada um dos culpados, sabiam que aquilo ia acontecer mas nada foi feito para anular o fado. Foi mais ou menos o que aconteceu no Benfica-Portimonense.

Os algarvios chegaram iluminados ao Estádio da Luz. Ideias frescas, pernas rápidas, movimentações acertadas, ousadia no drible, qualidade na saída de bola. Estavam com tudo. Conseguiram furar a teia tenra dos encarnados e criaram muito perigo. O Benfica estava vulnerável, sem muita ligação entre jogadores, e não sabia corrigir ou travar aquela gente que veste branco e preto. E, sem surpresa, como a história do mar inconsciente, o Portimonense chegou ao golo (53’), por Tabata, que assinou uma bela exibição, com muito drible e soluções para problemas.

Só depois, com o orgulho ferido e a lembrança terna da luta pelo título, é que os rapazes de Bruno Lage carregaram no pedal. É coisa de equipa grande: o futebol nem melhorou muito, mas aquela gente nas bancadas, o compromisso e a camisola ainda pesam, e o Portimonense foi empurrado para trás, como uma onda quase eterna. Já com Jonas em campo, por troca por Samaris (Pizzi para dentro), o Benfica virou o jogo em quatro minutos: Rafa marcou os dois golos. O primeiro até resultou de um chutão da defesa, que depois os de Portimão complicaram, deixando Rafa isolar-se e desviar de Ricardo Ferreira. Pouco depois, a reviravolta aconteceu com ressaltos à mistura.

O Portimonense manteve-se vivo, principalmente num lance aos 78’ em que Jardel evitou a tragédia (cortando uma linha passe que isolaria o avançado forasteiro), depois de mais um erro da defesa da casa. Mas, e vale a pena deixar isto muito preto no branco, o Portimonense jogou muito futebol na primeira parte. Tinha mais bola, encontrava vantagens sucessivamente, tanto a defender como a atacar, fechando caminhos para a baliza e dando asas ao futebol dos atrevidos Paulinho, Tabata e Lucas Fernandes. Estavam subidos, corajosos. E tiveram três, quatro, cinco chances flagrantes

Gualter Fatia

O Benfica, num 4-4-2 clássico (com Pizzi a pisar terras interiores), tinha dificuldades no momento em que perdia a bola. Depois, como consequência, o medo a esse momento da transição defensiva, parecia estender a equipa, deixando pelo caminho Florentino e Samaris, que não davam as coberturas úteis, para dar continuidade ao jogo, aos homens da frente. Ou seja, havia poucas linhas de passe, poucas soluções. O apagão de João Félix ajudou pouco, já que a sua criatividade na zona 10 resolve alguns enigmas. Apesar deste afrouxamento, o Benfica ainda teve duas oportunidades importantes para inaugurar o marcador.

Mas aquela última meia hora sufocou o arrojo do Portimonense de António Folha, que ora defende com linha de 4 ora de 5. Há flexibilidade, o que significa que há cultura e trabalho. O Benfica, pouco importado com essas questões teóricas, aproveitou os erros e o talento dos que vestem de vermelho: Seferovic marcou mais dois golos no campeonato. Quatro-um.

Depois da hora, um senhor amado pelas gentes lisboetas e não só, acabou por molhar a sopa. André Almeida surgiu na linha, pelo lado direito, sacou um cruzamento e Jonas meteu a cabeça, 5-1. O brasileiro festejou como um menino feliz. Apito final na Luz, com direito a lágrimas de André Almeida, denunciando a tensão que esta gente leva debaixo da pele.

Este é um daqueles casos em que o resultado é malandro. O jogo do Portimonense, que criou muito e falhou muito, merecia qualquer coisa, algo muito mais do que sair goleado da Luz.

Mas o futebol, que não é mentiroso, é como o mar: não tem consciência.