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Jérémy falou na aula hoje

Das duas, uma: o Sporting ganhava isto e tentava chegar ao segundo lugar apostando num deslize de domingo e num triunfo final heróico com o FC Porto; ou o Tondela ganhava isto e dava outro passo na sua já curiosa história de manutenções garantidas no limite. Acabou por não acontecer nada, a não ser uma boa exibição de Jérémy Mathieu que no fim protagonizou um plot twist em Alvalade: ele quer ficar, o clube sabe que ele quer ficar, mas ainda ninguém lhe disse e ele fica ou não. O título é do Eddie Vedder

Pedro Candeias

Gualter Fatia

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Das duas, uma: o Sporting ganhava isto e tentava chegar ao segundo lugar apostando num deslize de domingo e num triunfo final heróico com o FC Porto; ou o Tondela ganhava isto e dava outro passo na sua já curiosa história de manutenções garantidas no limite.

Fosse como fosse, a coisa prometia, porque jogava-se por algo mais - e porque foi isso que os treinadores nos prometeram nas conferências, com respostas motivacionais às perguntas feitas. “Lutar até ao fim”, “o impossível não entra no nosso balneário” foram as expressões que retive e lá parti todo contente para uma crónica de um jogo entretido à partida que começou por aborrecer de tédio quem viu e também provavelmente quem o jogou.

Um pequeno spoiler: houve momentos divertidos na segunda-parte, especialmente nos últimos quinze minutos, quando as duas equipas, bloqueadas pelo cansaço (o Sporting) e pelo medo (o Tondela), se partiram aos bocados e as oportunidades aconteceram.

Só que antes disso houve uma primeira-parte inteiramente dedicada à temática do futebol português, que inclui discussões com o árbitro, assobiadelas ao árbitro, saltos para a piscina para o árbitro ver, contenção estratégica e pisadelas estúpidas. Como a de Ristovski em Juan Delgado que o levou à expulsão após consulta demorada no VAR. Foi ao minto 38’.

Nessa altura, já o Sporting ganhava, depois do impecável Bruno Fernandes ter marcado de penálti (minuto 6), assinalado por falta ingénua do veterano Ricardo Costa sobre Luiz Phellype. Na verdade, esse acabou por ser o único lance perigoso em 45 minutos, pois nem o Sporting nem o Tondela se revelaram particularmente intensos e o mantra da “luta até ao fim” que torna “o impossível”, possível soava a lengalenga.

Aliás, nem mesmo a jogar contra 10 o aflitíssimo Tondela conseguiu lidar com a pressão negativa de saber que um pontinho lhe bastava para levar tudo para a última jornada - isso e, claro, o facto de Pepa ter deixado o melhor futebolista (Xavier) no banco e posto o defensivo Jaquité no meio-campo para, lá está, não perder.

De maneira que ao intervalo o oráculo da Liga NOS na SporttV dizia tudo: uma oportunidade para cada lado, embora aquele remate a abrir de Tomané tenha levado a bola à troposfera, e um remate enquadrado para cada lado também.

O que de mais interessante se via em campo era a inteligência de Bruno Fernandes e a disponibilidade de Jérémy Mathieu, provavelmente o central mais completo e capaz deste campeonato, a caminho de uma exibição que lhe valeria o prémio de melhor em campo - e o título deste texto.

Bom, na segunda-parte o jogo melhorou consideravelmente a partir da altura em que Pepa se deixou de salamaleques e atacou o resultado com Xavier, que logo se embrulhou com Acuña no instante seguinte.

O irrequieto e talentoso extremo do Tondela trouxe a criatividade necessária para encontrar os espaços no Sporting que, não esqueçamos, tinha menos um em campo. Os beirões esticaram-se no relvado, provocando a reação esperada dos lisboetas, que passaram a contra-atacar, aproveitando o balanço do adversário para o jogo vertical que isolou Mathieu por duas vezes na cara de Cláudio Ramos; na segunda tentativa, a mais vistosa, o francês rematou em moinho - bem, mais o menos em moinho - e o guarda-redes defendeu com o corpo.

Segundos depois, o Tondela chegaria ao golo pelo robusto Tomané, numa bola parada mal defendida pelo Sporting que deixou tudo empatado. Faltavam ainda 20 minutos e foi então que o Sporting - Tondela espevitou, com algumas correrias e remates de parte a parte que levaram a lado nenhum, mas pelo menos sacudiram a letargia de um jogo condenado a um contínuo bocejo.

Bas Dost entrou e alinhou ao lado de Luiz Phellype, com Keizer a experimentar um estranho e ineficaz 4x3x2 que durou até à substituição do brasileiro e Acuña, óbvio, ainda foi a tempo de pegar-se com um adversário dentro de campo.

Assim sendo, nem o Sporting chegou ao segundo lugar (e à Champions) nem foi desta que o Tondela já se safou da descida, pelo que os argumentos fervorosos dos treinadores se diluíram na realidade. Mas houve um pequeno plot twist de Mathieu: o francês garantiu que quer ficar cá e que o Sporting sabe que ele ficar cá. Jérémy falou hoje.