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O 6-3 foi há 25 anos e “o Rui Costa não me perdoou ter jogado apenas 20 minutos”

Um dos jogos mais míticos da história do futebol português aconteceu há exatos 25 anos. Toni, treinador do Benfica na altura, recorda alguns dos episódios de bastidores

Lusa

Neal Simpson - EMPICS

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A noite chuvosa de 14 de maio de 1994 ainda hoje é lembrada, enaltecida, contada repetidas vezes, em conversas de benfiquistas, ao que os rivais respondem com o peso dos 7-1 em 1986, em que os 'leões' afundaram o rival, também no Estádio José Alvalade.

Em ambos os casos, o Benfica terminou campeão, com João Vieira Pinto herói de um lado, e Manuel Fernandes do outro, mas o treinador vencedor dos '6-3' admite que, acima disso, estão os campeonatos que se conquistam e que não os trocaria por qualquer goleada num dérbi ou clássico.

"Para mim troco cinco, seis ou sete por ser campeão. Perdes 5-0 ou 6-0 ou 10-0 e és campeão, perdes 10-0 e que sejas campeão. Para a história dos clubes ficam os campeonatos, para a história dos clubes e até dos próprios jogadores", considerou Toni, em entrevista à Lusa.

Para o ex-jogador e treinador do Benfica, é importante reconhecer que o 7-1 de 1986, em que os 'leões' golearam o Benfica será sempre "um marco histórico", pelo peso que teve, mas que não hesitaria se tivesse que optar em ser campeão.

"Para o Manuel Fernandes, que marcou tantos golos, e é um dos símbolos maiores do Sporting, não se contabilizam os campeonatos, contabiliza-se que foi o herói daquele jogo [quatro golos], como o João Pinto foi o herói dos 6-3", justificou Toni.

Em ambos os casos, o Benfica conquistou o título nacional, mas os resultados nesses dois dérbis levaram Toni a revelar o entusiasmo que os mesmos provocaram no seu filho e no de Manuel Fernandes.

"O Manuel Fernandes ficou ligado a um resultado que marca também a histórias dos dérbis, que é os 7-1. O filho do Manuel [Fernandes], o Tiago, é mais ou menos da idade do meu, e naquela altura eram VHS, as cassetes. Quer o filho do Manuel Fernandes, como o meu, de tanto terem visto os vídeos, estes gastaram-se", contou.

O Rui Costa

Deixar Rui Costa no banco no triunfo por 6-3 diante do Sporting foi uma decisão que marcou Toni, reconheceu o antigo treinador do Benfica, que enfrentou a discordância do seu adjunto e a mágoa do futebolista.


"A decisão do Rui é daquelas que mais me marcaram na carreira de treinador (...). E o Rui não me perdoa nunca o facto de nesse dia ter jogado apenas os últimos 20 minutos do jogo", revelou o treinador à agência Lusa.

Após 25 anos, o dérbi da 30.ª jornada do campeonato de 1993/94, disputado em 14 de maio de 1994, permanece na memória dos adeptos, pela diferença do resultado e pela superioridade na vitória dos encarnados, que abriu o caminho para o título do Benfica.

Rui Costa, que na época seguinte sairia para a Fiorentina, já mostrava a excelência que o consagrou em Itália, mas foi sacrificado por Toni num dos mais importantes dérbis da história entre Benfica e Sporting.

Para o treinador, a explicação para deixar o maestro no banco é simples: precisava de "equilibrar a equipa".

"Se eu jogasse com Vítor Paneira, com Rui Costa, e mais os três avançados que tinha, que eram de vocação não muito defensiva, ficava demasiado exposto para um jogo que teria de equilibrar a equipa em termos defensivos", justificou.

Toni ainda hoje explica que o jogo iria falar com ele e, por isso, saberia o que fazer, optando por não colocar o médio internacional português, até em oposição àquilo que Jesualdo Ferreira, então seu adjunto, defendia, com os dois em desacordo.

"O Jesualdo queria o Rui no 'onze' e eu argumentava, de uma forma sustentada. Era um trunfo, um joker para jogar. Aqueceu logo quando estava 2-1 [com o Benfica em desvantagem], em termos estratégicos, o jogo podia falar comigo e dar outra nuance", explicou.

A preparação durante a semana tinha sido clara, com Toni a colocar Rui Costa a fazer de Balakov nos treinos, optando antes por jogar mais à frente com Ailton, Isaías e João Vieira Pinto, à frente dos médios Vítor Paneira, Schwarz e Abel Xavier.

Na entrevista à Lusa, Toni aproveitou para elogiar Jesualdo Ferreira, com quem viveu uma verdadeira simbiose no Benfica nos títulos de 1988/89 e 1993/94, como um "dos grandes treinadores" portugueses.

"Fizemos uma dupla de sucesso no Benfica (...). Discutíamos na preparação dos jogos e havia divergências em relação a esse jogo, eu ouvia sempre e depois decidia, e não estávamos de acordo nesse dia, como em outros dias, mas sempre com o objetivo de ganhar", assinalou.

Rui Costa acabou por entrar a 19 minutos do final, ainda a tempo do Benfica fazer o 6-2, numa jogada desenhada entre Vítor Paneira e Hélder, com golo deste último, aos 74 minutos.