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Um ponto que é um conto sobre a intensidade de um encosto

O Benfica bateu o Rio Ave por 3-2, somou três pontos e está agora apenas um de conquistar o seu 37.º título. Em linhas gerais, foi isto que aconteceu, mas se o jogo de Vila do Conde foi muito mais do que os cinco golos marcados. Foi, também, uma história de erros, enganos, coração, músculos cansados e coragem. Esta crónica conta com a participação de Duarte Gomes

MIGUEL RIOPA

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Ninguém gosta de começar uma crónica por aqui e também não serei eu a fazê-lo, mas alguém que percebe da poda como ninguém.

Apresento Duarte Gomes, ex-árbitro, comentador SICN e cronista da Tribuna, a quem pergunto o que se passou no 2-0 do Benfica. Responde ele: “Duplo erro, primeiro, há falta de Florentino sobre Gabrielzinho fora da área do Benfica e o VAR devia ter intervido; segundo, João Félix está fora de jogo no momento do passe inicial”.

Está na lei, o 2-0 que deu uma folga ao Benfica nunca devia ter acontecido. Mas aconteceu. E agora?

O golo polémico de João Félix

Este é o golo de que toda a gente vai falar. Porque há um lance estranho perto da grande área do Benfica a preceder o lance que dá o 2-0, ficando no ar uma falta de Florentino que o VAR decidiu não existir

Agora o Benfica está apenas a um ponto do título, porque saiu de Vila do Conde com um triunfo difícil (3-2) na mesma medida que é fundamental para o que lhe interessava desde o início desta época em que espalhou hashtags pelo espaço mediático: a #reconquista.

Mas seria injustificável reduzir um jogaço destes à inépcia de Hugo Miguel & ajudantes: o Rio Ave - Benfica foi um turbilhão de emoções, coisas certas e desacertadas, estratégias, táticas, coração e muito, muito músculo cansado, sobretudo do candidato ao título que terminou com Samaris, Pizzi, Félix ou Florentino nos mínimos exigíveis. Mas até esse ponto, correu muita coisa.

Foi assim:
O Benfica entrou fortíssimo, com aquela pressão subida de Samaris e Florentino, provocando o erro do Rio Ave que chegou num mau corte após cruzamento de André Almeida - a bola foi parar a Rafa e ao minuto três os encarnados punham-se à frente do marcador. E a estratégia encarnada prosseguiu, tensa e veloz, até mais ou menos aos vinte minutos, que depois o Rio Ave tentou contrariar, aproveitando alguma ingenuidade/lentidão do meio-campo encarnado e erros de posicionamento dos defesas.

Os perigossímos Nuno Santos e Gabrielzinho metidos ali, entre linhas, foram provocando arrepios a Bruno Lage que, às tantas, mandou baixar o bloco para evitar surpresas dispensáveis. Que não apareceram por mero caso, primeiro, no golo anulado a Tarantini, e segundo, no tal lance pelo qual preferia não ter referido no arranque.

Mas o que lá foi, lá foi e o Benfica chegou ao intervalo a ganhar por 2-0 e a passar por dificuldades e intranquilidades nascidas da intensidade e esperteza postas pelo Rio Ave em campo. Portanto, ninguém se espantou quando Tarantini reduziu aos 50’, após um remate do elétrico Nuno Santos.

Com 2-1 no marcador, era possível que a coisa apertasse definitivamente para os lisboetas, não tivesse o certeiro Ferro lançado uma bola longa para o pé esquerdo de Grimaldo que se desfez do adversário num ressalto para assistir Pizzi. Com 3-1, o Benfica respirou fundo, ou melhor, achou que podia respirar fundo e então congelar o jogo. Só que o problema é que nesta fase - ou talvez em qualquer outra fase - o Benfica não está feito para segurar resultados e fazer uma gestão saudável do jogo; não ajuda, por outro lado, que Seferovic esteja na fase que todos nós sabemos.

Por isso, valeu Vlachodimos, no sítio certo e com as intervenções certas, a adiar o segundo golo dos orgulhosos vilacondenses, e valeu a extraordinária exibição de Samaris a proteger as falhas de Florentino, que terá no corpo um botão on/off demasiado sensível para uma equipa candidata ao título. Mas, aos 84’, o Rio Ave chegou merecidamente ao 2-3 numa jogada cozinhada pelos suplentes utilizados Galeno e Ronan. Até final, sucederam-se cantos e livres da formação da casa e um remate de Jonas interceptado pelo renascido Rúben Semedo.

Pouco depois, Hugo Miguel apitou para o fim e o Benfica ficou a um ponto do título.