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A redenção vem em horas extraordinárias

O Sporting esteve a perder, depois empatou, esteve a ganhar e depois deixou-se empatar nos descontos do prolongamento. E foi ganhar a sua 17.ª Taça de Portugal nas grandes penalidades, no mesmo cenário onde há um ano viveu talvez um dos dias desportivamente mais difíceis da sua história recente. É possível que os deuses quisessem saldar contas com os leões, fechar um ciclo, mas a derrota também é cruel para o FC Porto, que foi a melhor equipa em campo

Lídia Paralta Gomes

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Não haverá livro mais metafórico que a Bíblia. O vinho é o sangue, o pão é a carne e a cura não é necessariamente ficar-se bom após um resfriado. É o resgate da alma, uma qualquer libertação, é o pegar de volta da dignidade, a superação depois de uma provação muito grande.

Sim, perdoem-me o atrevimento, mas estou mesmo a comparar o golo de Bas Dost aos 101 minutos e depois a última grande penalidade marcada por Luiz Phellype, para o canto superior direito da baliza de Vaná, a uma escritura bíblica. Porque não são dois golos que contem uma única história, a história de uma vitória e de uma Taça. São dois golos que contam bem mais que isso, que talvez fechem um estado de sítio do Sporting, que desportivamente teve o seu pior momento exatamente ali, no Jamor, há um ano, quando um grupo de homens destroçados ali caíu frente ao Desportivo das Aves, dias depois do ataque a Alcochete.

Os épicos escrevem-se assim, às vezes mais com o coração do que com arte, num jogo que nem sempre foi bem jogado, e principalmente até nem sempre bem jogado pelo Sporting. E a redenção, como já é hábito nestas finais de Taça entre Sporting e FC Porto veio em horas extraordinárias, com prolongamento e grandes penalidades e muitas lágrimas no final, de quem venceu, porque provavelmente se lembra do que se passou ali há um ano, e de quem perdeu, porque muita coisa se perdeu no Dragão nas últimas semanas, e isso, principalmente quando se marca o golo do empate aos 120’+1, tem de doer.

Com tudo isto, houve um jogo, sim, em que o Sporting começou melhor, com mais vontade que o costume de pegar num jogo frente ao FC Porto. Nas quatro vezes que as equipas se haviam encontrado este ano, o que se viu foi um Sporting temeroso, responsivo - mas não este sábado. Ou pelo menos durante os primeiros 45 minutos, em que o jogo foi equilibrado, com lances de perigo nas duas balizas.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Apesar do Sporting ter tido mais bola no início, a primeira oportunidade foi do FC Porto, depois de um mau alívio de Bruno Gaspar que sobrou para Otávio (Renan esteve bem). Respondeu Bruno Fernandes, com um remate forte, que teve resposta atenta de Vaná, e Raphinha, que num remate de ressaca levou a bola a passar muito perto do poste.

O Sporting levava mais perigo nesta altura à baliza do FC Porto e aos 17’ foi a vez de Pepe salvar o FC Porto, depois de Diaby trocar as voltas a Felipe e cruzar para a área. O internacional português cortou quando Luiz Phellype já estava de carrinho feito para marcar. Mas quem colocou a bola na baliza foram mesmo os dragões. Primeiro por Soares, aos 25’, num lance que seria anulado pelo VAR, e depois, já a contar, aos 41’, de novo por Soares, na sequência de um livre em que a bola viajou para o lado direito, Herrera recebeu com o ombro (ou assim o considerou o árbitro) e cruzou para a área. O brasileiro, sem grande oposição, cabeceou para o primeiro.

Uma 1.ª parte que até aí tinha sido bem interessante, não deixou de ser interessante até final. Quatro minutos depois do golo de Soares, Bruno Fernandes, sempre ele, fez o empate. O Sporting ganhou uma bola a meio-campo, esta seguiu para Acuña que deu para o capitão dos leões, que entrava de rompante pelo miolo. O remate foi forte, mas a bola só entrou porque Danilo meteu o pé onde talvez não fosse chamado.

Na 2.ª parte, o jogo mudou. O Sporting deixou de ter um meio-campo funcional, Wendel e Gudelj desapareceram em combate e o FC Porto esteve sempre mais perto de marcar. Soares atirou ao poste aos 48’ e só não marcou aos 63’ porque Coates lhe roubou uma bola que era um golo feito.

Sem conseguir ganhar qualquer bola ou construir uma jogada, valeu ao Sporting a exibição extraterrestre dos seus dois centrais, Coates e principalmente Mathieu, que limparam tudo o que havia para limpar, sem sinais de pânico mesmo quando a bola parecia não querer sair daquela área.

ANTONIO COTRIM/EPA

O Sporting melhorou ligeiramente quando Keizer assumiu os três centrais, depois da entrada de Ilori e de Bas Dost, mas foi apenas um fogacho: até ao final dos 90 minutos, foi com o credo na boca que os leões aguentaram, estoicamente.

Foi por isso que talvez tenha parecido a muitos sportinguistas e se calhar também àquela equipa que aquele golo de Bas Dost, aos 101 minutos, tenha caído do céu, como que recompensa divina pela via crucis leonina. Ao cruzamento de Acuña, Felipe respondeu com um corte torto e a bola foi como que lânguida ter com Bas Dost, que no último poste fez o 2-1.

Mas os deuses queriam dar mais algum sofrimento ao Sporting, ou a esperança ao FC Porto de uma alegria no final da época - de qualquer forma, os deuses são fixes e cruéis ao mesmo tempo, a Bíblia é toda sobre isso.

E foi já nos descontos do prolongamento que Felipe, que tinha feito um jogo a pender para o mau, empatou e levou tudo para as grandes penalidades, tal como já tinha acontecido na final da Taça da Liga. Aí, falhou Bas Dost primeiro, Pepe depois e numa altura em que mais ninguém parecia querer falhar, não acertou Fernando Andrade, ou melhor, acertou Renan, de novo héroi a lançar-se à bola naquela linha de golo.

Venceu o Sporting, a sua 17.ª Taça de Portugal, desempatando, curiosamente, com o FC Porto. Sérgio Conceição diria mais tarde que esta noite a crueldade e a injustiça do futebol atingiu o seu ponto máximo, e talvez tenha mesmo atingido, mas se é possível que a crueldade tivesse umas contas a saldar com o Sporting, que precisava da sua redenção, mesmo que ela tenha vindo um ano mais tarde e em horas extraordinárias.