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Júlio Mendes demite-se da presidência do Vitória de Guimarães

A direção do Vitória de Guimarães convocou os jornalistas para uma conferência de imprensa de balanço da época 2018/19 e, no final, demitiu-se

Isabel Paulo

Anadolu Agency

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Numa conferência de imprensa em que se esperava um mero balanço da temporada, o presidente do Vitória de Guimarães, Júlio Mendes, e a restante direção apresentaram a demissão do clube.

"Em dia que devia ter sido de festa, houve insultos", explicou o presidente, referindo-se à última jornada da Liga, quando o clube venceu o Moreirense e roubou o 5º lugar da prova ao adversário de Moreira de Cónegos. "Nada mais nos prende ao Vitória que não a paixão. Não o podermos fazer neste permanente clima de guerrilha que alguns promovem. Apresentámos em conjunto a nossa renúncia aos cargos que exercemos", revelou.

O Vitória de Guimarães, treinado por Luís Castro, terminou o campeonato em quinto lugar, garantindo assim presença nas competições europeias.

Segundo apurou a Tribuna Expresso, a demissão em bloco da direção do Vitória não será alheia às críticas feitas há um mês pelo acionista maioritário da SAD, Mário Ferreira, que após ter investido €5 milhões defendeu mudanças na SAD criada em abril de 2013. “É necessário mexer na estrutura da SAD, porque não podemos continuar assim”, afirmou ao jornal "A Bola", desiludido por no final de abril a equipa não ter assegurado ainda um lugar no contingente europeu.

“O orçamento do Vitória deve ser o dobro do do Moreirense e estamos numa situação em que podemos ir à Liga Europa porque a outra equipa não se inscreveu na prova”, advertiu na altura Mário Ferreira. O empresário português radicado na África do Sul detém 56% da estrutura acionista da SAD criada em abril de 2013, sendo o restante capital social repartido entre o clube, com 40%, e pequenos acionistas.

Em finais de abril, Mário Ferreira criticou ainda “elevadas despesas com comissões” pagas em transferências, lembrando que o seu papel de investidor maioritário não lhe conferiam poderes de influência, por ter apenas um administrador não executivo a trabalhar na SAD, liderada por Júlio Mendes. Em março de 2018, Júlio Mendes foi reeleito presidente do clube por uma margem reduzida de 52% dos votos contra Júlio Vieira de Castro (48%), mandato que deveria terminar em 2021.

“Desta eleição, saiu vencedora a então lista B, por mim liderada, que apresentou a sufrágio um projecto bem definido”, avança o presidente do Vitória, há seis anos na liderança do clube. Em comunicado, o clube vimaranense adianta que o início de um novo ciclo de mais três anos assentou no desenvolvimento de um projecto de crescimento do Vitória, alicerçado na melhoria das suas infraestruturas, por um lado, e no alcançar, na Vitória Sport Clube – Futebol, SAD, de resultados desportivos cada vez mais sólidos e capazes de nos aproximar dos clubes que, tradicionalmente, ocupam os lugares de maior destaque no futebol português.

“Este projecto, para ser implementado, não podia ser de um grupo de sócios ou da Direcção do Clube apenas. Um tal projecto precisava e precisa do empenhamento de todo o universo vitoriano. Sucede, no entanto, que parte dos sócios do Vitória Sport Clube não conseguiu, até hoje, ultrapassar os resultados da referida eleição de março de 2018 e não foi capaz, nunca, de aceitar verdadeiramente os resultados dessa eleição, conforme aliás declaração surpreendente feita no próprio dia das eleições, depois de conhecidos os resultados", acrescenta o comunicado.

"Desejo de fracasso"

Embora não pretenda unanimismos ou consensos artificiais, a direção adverte que “o que não pode suceder é que se instale um ambiente permanente de insulto, de injúria e de indisfarçável desejo de fracasso do Vitória Sport Clube, sublinhando que o último ano de vida do Vitória foi pautado por um conjunto de acontecimentos que apenas tiveram por consequência cindir os seus sócios e adeptos em dois grupos: os que estão a favor da Direcção do Clube e os que estão contra a Direcção do Clube.

“Isto é inaceitável”, refere ainda a direção, que lembra que há sete anos, quando tomou as rédeas do clube, a situação era de todos bem conhecida: “Mais de 5 meses de salário em atraso, milhões de euros em dívidas a terceiros, há muito vencidas e por pagar e o clube na iminência de fechar as suas portas”.

“Hoje, a Vitória Sport Clube – Futebol, SAD é vista como uma extensão natural do Vitória Sport Clube e cumprimos integralmente o que sempre prometemos aos sócios do Vitória: que o clube teria sempre uma participação não inferior a 40% do capital social da SAD; o Vitória, através dos seus representantes, não poderia, nunca, ser afastado da tomada de qualquer decisão na SAD e que seriam lançadas as bases que permitiriam angariar investidores, com o objetivo de, em primeira linha, salvar o Vitória da bancarrota e, de seguida, catapultá-lo para os lugares cimeiros do futebol português e, por conseguinte, apurar a nossa equipa, de forma consistente, para as competições europeias”, adianta ainda o clube.

Num longo comunicado, a direção garante que os dois primeiros objetivos estão assegurados, mas faltava encontrar quem quisesse e pudesse investir na Vitória Sport Clube – Futebol, SAD de forma a tornar realidade aquele último objetivo. “E tais caminhos passariam por alterações cirúrgicas no modelo da SAD, visando seduzir terceiros a investir de forma continuada e consistente com tais objetivos, sem que a sociedade perdesse a matriz vitoriana”, acrescenta a direção liderada por Júlio Mendes, que alerta que caso “esta inversão no modelo da SAD não ocorra, não só se revelará cada vez mais difícil combater, ano após ano, as assimetrias com aqueles clubes que tradicionalmente ocupam os lugares cimeiros na Liga Portuguesa de Futebol Profissional, como veremos também clubes tradicionalmente de dimensão muito inferior à do Vitória aproximarem-se, cada vez mais, dos nossos resultados desportivos, justamente por terem criado condições que tornem tais clubes atrativos ao investimento”.