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Aí vão 20 anos desde a Taça que ficou na história, do futebol e da família Sousa: “É o momento da minha vida. Só queria abraçar o meu pai”

Completam-se hoje 20 anos de uma final da Taça de Portugal que, contada, parece mentira. Ou não tivesse sido resolvida com um golo do filho do treinador de uma equipa que acabou reduzida a nove unidades. E em que nenhum dos grandes esteve envolvido - a última vez até hoje. É a história de um sonho de menino e de duas regiões que se uniram à volta dos seus clubes para um jogo único. É a história do Beira Mar-Campomaiorense, que acabou com a vitória dos aveirenses, com um golo de Ricardo Sousa, filho de António Sousa

Tiago Oliveira

António Sousa ergue a Taça de Portugal conquistada pelo Beira-Mar em 1999

Lusa

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"Achei que passei por cinco ou seis. Senti que tinha que arriscar." O relógio do Jamor aproximava-se dos 70 minutos. O dia era 19 de junho de 1999 e a temperatura seria melhor descrita pela seguinte expressão técnica: muito quente. Calor que encontrava eco em cada disputa de bola no campo do estádio onde Beira-Mar e Campomaiorense disputavam o jogo mais importante da vida dos clubes.

As forças já começavam a faltar mas no topo Sul, fazendo jus à música, Ricardo Sousa já nem estava aí. Porque quando recebeu a bola do lado direito, o jogador aveirense já só viu baliza, apesar de faltar muito para lá chegar. E muito ainda há para contar até ao momento que marca esta viagem de 20 anos rumo ao passado.

É um enredo que faria chorar de inveja qualquer produtor de Hollywood à procura de uma ideia para um filme emocionante de futebol. Os ingredientes estão lá todos, desde heróis improváveis a lutas contra a adversidade, passando por reviravoltas contra todas as expectativas e impacto emocional. Ou o marcador do 1-0 final não tivesse arrancado para a jogada do lado em que o seu pai se encontrava. Só que não na bancada, mas sim no banco do Beira-Mar, como seu treinador. Isto escreve-se? "Nem nos meus melhores sonhos", revela Ricardo Sousa à Tribuna Expresso.

Ricardo Sousa será o treinador do Beira-Mar em 2019/20

Ricardo Sousa será o treinador do Beira-Mar em 2019/20

Fernando Veludo

Se alguém quisesse aplicar o adjetivo 'atípico' a uma qualquer edição da Taça de Portugal, teria dificuldades em encontrar época mais adequada do que a de 1998/1999. No ano em que o FC Porto se sagrou pentacampeão por mão de Fernando Santos, foi eliminado em pleno estádio das Antas pelo improvável Torreense, por exemplo, e, só para se ter uma ideia, nos oitavos-de-final já não havia grandes a disputar a prova.

"Estavam todos com medo de jogar contra o Beira-Mar", atira entre risos o guardião Palatsi. "Foi a taça dos pequeninos."

Algo praticamente impensável nos dias de hoje, até porque efetivamente ainda não voltou a acontecer. Nem nesta fase, nem na final, porque desde que Beira-Mar e Campomaiorense pisaram o relvado do Estádio Nacional, nenhuma final deixou de ter pelo menos um dos três grandes.

"A Taça é isto mesmo, mas nesse ano foi ainda mais", lembra o então técnico do Campomaiorense, José Pereira. Não só pela ausência de grandes, mas também pela dimensão dos clubes, com um palmarés muito reduzido. Sem deixar de admitir alguma fortuna no sorteio, recorda que o clube alentejano eliminou três equipas de primeira divisão ao longo do percurso, entre as quais o Alverca, do "mestre Mário Wilson", que, na sequência desse jogo, foi despedido. "Tinha por ele uma grande admiração, fiquei deveras aborrecido", confessa.

Todo o Alentejo a apoiar

Mesmo com uma vitória sobre o Marítimo nos quartos de final só após finalíssima e penáltis, esse nem sequer foi o jogo mais complicado, porque, na opinião do agora presidente da Associação Nacional de Treinadores, o pior foi a meia-final disputada no terreno do Esposende. Sim, leu bem. Então na segunda divisão, o clube minhoto tinha eliminado de forma surpreendente o Boavista (que ficou esse ano em segundo lugar no campeonato e apresentava a base que lhe daria o título nacional dois anos mais tarde) e também queria fazer história.

O estádio Padre Sá Pereira acabou por ser pequeno para os milhares de adeptos de ambas as equipas, que assistiram a um jogo no qual a equipa da casa apresentou um muito jovem Petit no onze inicial e dificultou a vida ao primodivisionário Campomaiorense. "Foi muito difícil", garante o antigo lateral Rogério Matias, e só os golos da dupla Demétrius e Isaías é que desbloquearam o bilhete para o Jamor.

"A viagem até Campo Maior foi uma grande festa. Demoramos uma eternidade", conta Rogério Matias, que acredita nunca ter visto tanta gente na vila alentejana, acordada até altas horas para receber em festa os jogadores. "Tínhamos todo o Alentejo connosco", atira.

Se de um lado tínhamos um Campomaiorense mais estável, com um plantel de nomes já conhecidos, do outro lado o cenário não trazia grandes semelhanças. O final da Liga 1998/1999 tinha confirmado a despromoção para o Beira-Mar e o treinador António Sousa não esconde que foi muito difícil motivar e concentrar os jogadores para o Jamor. "Dei-lhes quatro dias de folga após o último jogo, para que pudessem ficar mais tranquilos. E, no regresso ao trabalho, disse-lhes que o mais importante agora era ter esta alegria. Foi a motivação que lhes transmiti", revela.

Duas finalíssimas

Ao contrário do que é habitual, a final não se realizou no fim de semana a seguir ao final do campeonato, mas sim três semanas depois. O técnico acredita que esse período foi essencial para focar os atletas que ao longo da época de Taça já tinham vivido a sua quota parte de jogos emocionantes e até de finais.

Só com duas finalíssimas é que o Beira-Mar ultrapassou União de Leiria (sexto no campeonato) e Moreirense nos oitavos e quartos de final, respetivamente, com o primeiro dessa maratona de jogos a ser considerado dos mais marcantes na caminhada. "Só empatámos no final dos 90' com um golo do Jorge Neves", aponta Palatsi, com a posterior vitória na cidade do Lis a ser arrancada a ferros e "contra as expectativas."

As meias-finais trouxeram uma receção no Estádio Mário Duarte ao 'europeu' Vitória de Setúbal e, num jogo muito disputado, Ricardo Sousa fez valer o fator casa com um golo que deu a vitória e deixou todos a contemplar a visita ao Jamor. "Numa equipa como o Beira-Mar é preciso ter sorte no sorteio e ele foi jogando a nosso favor", defende. O que importa pouco na hora de jogar a final, só que não impediu o médio de considerar que o favoritismo estava lado do lado alentejano: "Tinham uma super equipa."

Foi o tio que começou por levar António Magno Martins aos jogos da equipa da terra e desde então que a paixão pelo Campomaiorense acompanha o adepto e administrador de um grupo de adeptos da instituição no Facebook. Uma verdadeira 'galgomania' (em honra do galgo que pontifica no emblema do clube) e que já o levou a muito lado. Inclusivamente ao Jamor onde foi "com mais 30 autocarros de Campo Maior" e com grandes esperanças. "Os meus pais disseram-me que parecia uma cidade fantasma, não estava lá ninguém. E achava que 80% das hipóteses de vitória estavam connosco", confessa.

"Estávamos conscientes de que tudo podia acontecer", garante José Pereira. E a preparação também refletiu isso mesmo se bem que, à distância de 20 anos, o intervalo de três semanas é visto pelo lateral direito dessa equipa, Quim Machado, como "o fator de desvantagem" e que poderá ter feito pender a balança para o outro lado "em termos anímicos." O que não quer dizer que os jogadores não estivessem "todos confiantes" e com vontade de "ir para lá levantar o caneco."

Mar amarelo e verde

Palatsi recorda que a sua equipa "era tudo menos favorita. Há que dizer, pouca gente tinha esperança em ganhar." Por isso António Sousa levou a equipa uns dias para a Costa da Caparica no processo de preparação e "a pressão foi diminuindo." Ricardo Sousa olha para a decisão do pai como fundamental, ao fazer o plantel "perceber e entender que poderia contornar a descida" com uma "oportunidade única" para lançar a próxima época.

E se a dimensão dos clubes podia significar um Jamor mais entregue às moscas, isso não aconteceu. Foi um mar amarelo e verde que irrompeu pela mata patrocinado pelos beneméritos de cada clube (Vulcano para os aveirenses e Delta para os alentejanos) e que deu um dia inesquecível a adeptos pouco habituados a estas andanças. Se para o Campomaiorense - clube que só tinha chegado à Primeira Divisão em 1995 - a final era uma estreia, o Beira-Mar tinha a segunda hipótese de conquistar a prova rainha, após a derrota com o FC Porto em 1991 no prolongamento. Com uma curiosidade: António Sousa a titular no onze aveirense.

"Era um sonho ir", conta Artur Cruz. Então com 13 anos, é atualmente o presidente da claque Ultras Auri-Negros e recorda-se como se fosse hoje de "um ambiente incrível com um calor abrasador." Foi um "grande convívio entre todos, uma jornada que nunca mais se esquece."

"A Taça é festa fora de campo. Dentro é guerra"

A uns metros de distância da festa, vivia-se a tensão dos últimos momentos antes das equipas entrarem em campo. Situação a que ajuda a colocação estratégica dos balneários do Jamor mesmo ao lado da porta de entrada dos adeptos e as opções arquitetónicas de interior. "Os jogadores ficaram divididos em duas partes nos balneários, foi difícil passar a mensagem", conta José Pereira, enquanto António Sousa se deparava com outro problema.

Marco Caneira tinha feito toda a época no Beira-Mar por empréstimo do Sporting e era assumido por todos que iria jogar. Só que António Sousa tinha sido informado uns dias antes que o contrato de empréstimo tinha acabado durante o período de pausa entre campeonato e final e que, afinal, o jogador não poderia atuar. "Ainda bem que nos avisaram", lembra. Só que para não distrair a equipa, optou por só contar ao plantel no dia do jogo. Caneira incluído. "Marco ficou muito triste, também ele não sabia. Pedi-lhes para ganharem a final por ele."

Caso que para Palatsi continua tem uma explicação simples. Isto porque segundo o guarda-redes, o acordo para Caneira jogar só não foi facilitado "porque o Campomaiorense é filial do Sporting." A situação fez todo o grupo "sentir uma grande injustiça, com toda a gente a chorar na manhã", o que acabou por "unir ainda mais o grupo." Se o treinador já tinha ganho a final como jogador, também o defesa Caetano já a tinha ganho e Palatsi acredita que esta experiência foi fundamental. "O Caetano virou-se para nós e disse que a Taça é festa fora de campo. Dentro é a guerra. E foi, porque acabamos com nove."

Nem de propósito, o primeiro expulso (num total de três) foi mesmo o próprio Caetano, com o segundo amarelo a tirá-lo de campo aos 59 minutos. O cartão foi provocado por Wellington, jogador que José Pereira introduziu em campo na segunda parte para explorar a velocidade e "expulsar os dois laterais adversários", o que aconteceu, para a capitalizar a entrada "muito boa em campo da equipa".

Braços no ar

Parecia estar mais facilitada a tarefa de abrir brechas numa defesa que até então se tinha mostrado muito resiliente perante o ligeiro ascendente dos alentejanos que, como afiança Rogério Matias, tiveram "as melhores oportunidades" num jogo em que o "Campomaiorense foi claramente superior." Quim Machado também não tem dúvidas de o Campomaiorense "foi melhor" e que só faltou mesmo converter o domínio em golos, com "bolas a passar à frente da baliza" sem entrar, por exemplo. Não estava fadado. E do outro lado ainda faltava o momento do jogo.

"O Ricardo Sousa era um jogador a que não podíamos dar muito espaço", diz Rogério Matias. E bastou um bocadinho de espaço e muito de inspiração para o médio sacar o coelho da cartola que resolveu o jogo para o Beira-Mar que jogava com dez. "Saía naturalmente em vários momentos da minha carreira", recorda Ricardo Sousa. "Como estava o jogo, sabia que só com uma grande jogada individual é que se podia resolver." E assim foi.

Após uma jogada do ataque alentejano que esbarrou nas pernas de Palatsi, a bola foi para o meio-campo onde uma falta rapidamente batida acabou nos pés do médio. Seguiu-se um slalom da direita para o meio que passou por vários jogadores do Campomaiorense até Ricardo encarar a baliza e rematar de pé esquerdo de fora da área para o fundo das redes de Poleksic, para delírio dos adeptos por detrás da baliza e também do pai, que saltou para dentro de campo de braços no ar.

"Por vezes não se encontram palavras. Foi uma situação que não consigo descrever, toca-me muito", confessa António Sousa. Cabe por isso a José Pereira afirmar que se tratou "de um golo, diga-se de passagem, monumental, um lance genial." Tento que fez "desmoronar a bancada", garante Artur Cruz. E que colocou o Beira-Mar na frente e deixou Ricardo Sousa com a certeza que este "era o dia."

A jogar com mais um e, a partir dos 79 minutos, com mais dois, o Campomaiorense partiu com tudo para cima dos aveirenses que aguentaram como puderam. "Só defendemos", diz Palatsi que se lembra de pensar: "Se sofremos, estamos lixados." Esforço coletivo que também contou com várias defesas do francês, não se esquece Rogério Matias, mas em que o coletivo do Beira-Mar também disse presente. "Só homens com H grande é que conseguiriam vencer naqueles condições", defende Ricardo Sousa.

Sem largar

"Sofremos a bom sofrer, foi muito difícil a todos os níveis", garante António Sousa. Do outro lado, o nervosismo ia aumentado e Quim Machado diz que "tentou-se tudo para vencer." O Campomaiorense acabou por ter também uma expulsão a terminar o jogo, com o duplo amarelo a Renê Rivas nos descontos a tirar mais uma arma à equipa no assalto final. Que acabou por não ter sucesso perante o apito de Lucílio Baptista a confirmar a vitória do Beira-Mar.

Rogério Matias não esconde que ainda hoje sente "um amargo de boca" quando pensa na oportunidade perdida que seria a cereja no topo do bolo de "um grande feito." Foi "uma desilusão trabalhar tanto para depois não conseguir ganhar", confessa Quim Machado, até porque "teria sido fantástico para a região." Apesar da "tristeza pela derrota", António Magno Martins prefere olhar para "o dia inesquecível."

Lembranças que da parte aurinegra se escrevem ao som da festa vivida intensamente no Jamor pelo clube e adeptos. "Depois de tudo, conseguimos. Foi inesquecível, só queria correr e abraçar", recorda Palatsi, enquanto António Sousa fala de "um sentimento de entusiasmo a dobrar, pela equipa e pelo filho." Não admira por isso que tenha sido "o apito final que mais alegria" lhe deu.

"É o momento da minha vida. Só queria abraçar o meu pai no dia histórico do Beira-Mar", não esconde Ricardo Sousa, que vestiu a pele de herói da festa enquanto o palco da entrega da Taça era montado no centro do palco em substituição da habitual atribuição na tribuna. "Estávamos a contar subir. Tira algo, mas é pouco", diz Palatsi. Que no meio dos festejos só pegou na taça meia-hora depois da cerimónia para "não mais a querer largar."

Fernando Veludo

Gilberto Madaíl era então o presidente da FPF e não sabe precisar a razão porque tal aconteceu. Só é certo que "ficou muito satisfeito com a vitória do Beira-Mar", clube do qual foi presidente da direção durante dois anos e único emblema do qual é sócio. O que não o impediu de "manter a imparcialidade" como o cargo lhe pedia.

Seguiu a festa para Aveiro onde uma multidão imensa esperava os jogadores, com a entrada na cidade e a praça do Rossio, onde estava montado um palco, completamente cheios. "Para avançarmos 200 metros demoramos duas horas", garante Ricardo Sousa, ao passo que o pai fala de "uma festa digna de um tributo" para um título que para ele significou "tanto ou mais que a Taça dos Campeões Europeus obtida ao serviço do FC Porto. "Não fazia ideia que em Aveiro havia tantas pessoas", conta Palatsi, que resume a festa para facilitar as descrições: "Brincamos, cantamos e ninguém partiu as pernas nem a Taça."

"Nunca falhou um salário"

E se hoje a jornada histórica destes dois clubes faz 20 anos, o que é que o futuro lhes reserva? Os últimos anos não têm sido simpáticos para ambos, com crises e desinvestimento a marcarem a história recente. Após os dias áureos de jogadores como Jimmy Floyd Hasselbaink ou Demetrius, o Campomaiorense não tem atualmente futebol sénior e a ausência do clube das grandes lides é sentida pelos antigas figuras.

"Fazem falta, continuo a sentir muito carinho por eles", revela Quim Machado com Rogério Matias a afinar pelo mesmo diapasão e a falar de um clube que "nunca falhou um salário" e que era o "grande representante de uma região algo esquecida." Sem esquecer "as condições muitos boas e o bom ambiente que se vivia", recorda José Pereira.

Já o Beira-Mar vive uma fase diferente. Na semana passada, Ricardo Sousa (já é capaz de ter visto o nome dele numa ou noutra passagem deste texto) foi anunciado como o novo treinador após a saída dos distritais para o Campeonato de Portugal. "É gratificante poder voltar a envergar a camisola do Beira-Mar", diz, sem esquecer que o espera "muito trabalho e humildade" para um projeto planeado "a dois anos." Palatsi defende que uma cidade com a importância de Aveiro devia ter "um clube a competir com o Braga" e Gilberto Madaíl acredita que "o clube parece estar a recuperar. Vamos ver."

É a esperança possível nos 20 anos de um dia que continua bem presente nas memórias de quem o viveu dentro e fora de campo. Com a esperança dos dois lados de um dia voltar. "Faço votos disso", conclui António Sousa.