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Uma tolice que acabou em goleada e choro

O Benfica conquistou a Supertaça ao ganhar, por 5-0, a um Sporting que jogou uma hora com três centrais, num sistema nunca testado na pré-época, em jogos abertos, e, quando voltou à formação experimentada, já Pizzi (dois golos) e Rafa (um dos melhores em campo) estavam a desmantelar a equipa de Marcel Keizer com futebol rápido e vertical

Diogo Pombo

MARIO CRUZ/Lusa

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Antonio Conte não era, de todo, para aqui chamado, até se perceber que um colega de profissão calvo, simpático e de poucas palavras decidiu arriscar um sistema com três centrais, que nunca testou em algum dos seis jogos da pré-época. Porque o outrora também careca treinador foi campeão em Itália (Juventus) e Inglaterra (Chelsea) a jogar com um trio à frente da área e, um dia, disse isto:

“Os centrais à direita e à esquerda têm de ser muito rápidos e agressivos. O jogador no meio dos três defesas tem de ser mais tático, deve refletir mais e encontrar a melhor posição, para que possa comandar a linha para subir e descer.”

Ora, Luís Neto é rápido a reagir ou compensar, agressivo a atacar a bola ou quem a tenha. Mathieu não é tão veloz quanto já foi, mas tem o resto e compensa o que a idade lhe tirou ao corpo com a forma como pensa. Para ficar ao meio sobrou Coates, que mesmo com pés bons para construir, não é dos centrais mais ponderados e concentrados que há.

Keizer terá matutado e experimentado tudo, mesmo que só em contexto de treino, para tentar uma surpresa que, na primeira posse, até teve pronto efeito: o Benfica pressionou bem alto, junto à área, com os laterais a encostarem em Acuña e Thierry Correia, deixando espaço nas costas para os homens que sobram no 3-4-3. Mathieu rasgou um senhor passe para Bruno Fernandes entrar na área, tentar cruzar para Dost e Ferro quase marcar na própria ao cortar a bola.

O susto valente tão cedo no jogo fez o Benfica apertar uns metros atrás, deixando a bola nos três centrais para não partir a pressão de Seferovic-De Tomás e arriscar ser ultrapassado logo na primeira linha. Fechou as linhas de passe ao centro, fixou em Doumbia o sinal para fechar sobre a bola e tentou limitar o Sporting ao que jogar com três atrás implica, para atacar - que os centrais assumam a bola e fixem adversários.

Mathieu fê-lo na primeira jogada. Coates avançaria metros com ela (28’) até soltar uma trivela em Bas Dost, que amorteceu para Bruno Fernandes disparar um bomba de longe que Vlachodimos se esticou para desviar. Neto rasgou um passe vertical um par de vezes para lançar Raphinha no 1x1 com Grimaldo, com espaço. Mas os centrais assumiam o protagonismo só às vezes.

Porque o Benfica, assim que atinou o bloco com os sítios onde pressionar, ganhou eficácia na dupla Gabriel-Florentino, animais de fechar espaço e cerrar quem tem a bola ao centro. O tempo em posse era maior para a equipa de Bruno Lage, que aproveitava o curto 5-4-1 do Sporting a defender, enfiado na própria metade do campo, para recuperar muitas bolas perto da área de Renan.

Gabriel tinha muito tempo e espaço para soltar passes aéreos, a variar o jogo, sem respeitar muito Pizzi e Rafa, que pediam a bola entre os médios do Sporting, ao centro, onde Seferovic e De Tomás também não recebiam em condições de rematarem à baliza - quase o fizeram num contra-ataque, após um canto. De resto, só um livre de Grimaldo obrigou Renan a usar as mãos (21’), enquanto o perigo era mais de Bruno Fernandes, que voltaria a sacar de Vlachodimos (38’) uma parada salvadora de golo.

Começar a construir com três, ocupando com mais densidade o centro do campo, com os laterais a fixarem os extremos para deixarem Raphinha e Bruno Fernandes projetados, nos últimos 30 metros, dava ao Sporting mais chegada à baliza. Mas, à primeira bola que o Benfica picou na área, entre um central e um ala, viu-se como não é apenas a linha de três que conta.

Pizzi curvou um passe sobre Neto e, nas suas costas, Thierry até aparentou, pelo acerto à linha de corrida, que nem esperava ter alguém atrás - só olhou para a bola e para a marcação de Neto -, onde estava Rafa para rematar de primeira (40’). Estando a ajustar posições dentro da área, a linha de cinco defesas do Sporting era falível, por muito surpreendentes que fossem os três centrais.

MARIO CRUZ/Lusa

A surpresa, contudo, duraria sempre e só até ao intervalo.

Esses minutos para Bruno Lage falar com jogadores, corrigir coisas, ajustar posicionamentos e mudar reações a tomar. O Benfica voltou para sair na pressão, de novo, mais à frente, com os avançados a taparem linhas por fora e a convidarem os centrais do Sporting e ligarem-se com os médios. Era o engodo para Wendel ou Doumbia serem cercados.

A meias com uma paragem cerebral repartida entre Coates e Mathieu, que se atrapalharam com uma bola recuperada pelo uruguaio, na área, foi essa pressão alta a deixar Rafa roubar e passar a Pizzi (60’) para o 2-0. Outro curto-circuito no cérebro (64’) fez Coates ser demasiado agressivo a ceifar um adversário que estava parado, de costas para a baliza, para dar o livre com que Grimaldo bateu o 3-0.

Entre os dois golos ainda houve hipótese para outro, de Pizzi, sem que o Sporting aguentasse cinco segundos com bola. Marcel Keizer viu a equipa a desmantelar-se, tirou Coates e devolveu-lhe o 4-2-3-1 usado e abusado nos seis testes de pré-época que tiveram câmaras de televisão a filmar.

Mas a equipa partiu-se, as linhas cavaram buracos entre si, o peso na cabeça talvez já era maior do que nas pernas. Bruno Fernandes, o farol de qualquer bola em que o Sporting toque, ainda rematou de bem longe, única ameaça de um conjunto moribundo e a jogar quase pela honra.

E o Benfica confiante e embalado pelo estado das coisas, a jogar com mais espaço para cada jogador, acelerou no estilo vertical e ofensivo, com poucos passes para chegar à baliza. Ativou as transições rápidas para as quais Keizer, quiçá, se quis precaver com uma linha de três: Pizzi sprintou para receber de Rafa, livrar-se de Neto com uma receção orientada e fazer o 4-0; Grimaldo cruzou para Chiquinho marcar o 5-0, numa sobra atabalhoada, no fim de uma jogada com muitos passes e já depois de Doumbia ser expulso.

Mais chances houve para Rafa, Pizzi e Seferovic carregarem sobre o peso de uma derrota, cujo número é, talvez, demasiado, mas cujas circunstâncias não o são.

MARIO CRUZ/Lusa

Pareceu que Marcel Keizer tinha um plano para enquanto estivesse 0-0, que até foi positivo e teve o Sporting perto de se desfazer desse resultado. Findos os 45 minutos de surpresa, feito o primeiro e o segundo golos, tudo o que desaconselharia este risco caiu em cima dele e da equipa.

O ter feito a pré-época em 4-2-3-1; a insistência em rotinar sempre os mesmos jogadores-base, sobrecarregando-os, e encurtar nos minutos dados a outros; o cultivar da já superdependência com bola, seja em que momento for, em Bruno Fernandes, sabendo que provável é que ele seja vendido. A equipa habituou-se a jogar de uma forma para, na Supertaça, jogar de outra, o capitão acabar a cambalear de cansaço e Thierry Correia, o mais novo, a chorar perante esta acumulação dantesca de infortúnios.

Antes do jogo, Bruno Lage chamou tolice a certos títulos que se fazem na comunicação social. Depois deste resultado, e se virmos a tolice pelo significado de alguém presumir muito de si mesmo - ou, no caso, por parecer ter presumido em demasia que o que planeou ia correr bem - este jogo também teve uma tolice.