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João Almeida Rosa

João Almeida Rosa

Treinador de futebol

O favorito, os perseguidores e os cada vez menos pequenos: bem-vindos à Liga 2019/20

A Liga NOS 2019/20 começa esta sexta-feira, com a mais forte candidatura ao título dos últimos anos, mas também com a edição em que os ‘pequenos’ apresentam mais argumentos. Conheça os desafios dos treinadores e as figuras das equipas que lutam pelos lugares cimeiros, mas também as potenciais surpresas do campeonato português

João Almeida Rosa

Carlos Rodrigues

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O futebol destaca-se das outras modalidades pela imprevisibilidade que lhe está inerente. Por isso nunca é fácil realizar previsões, sobretudo quando muitas equipas ainda não cumpriram jogos oficiais e o mercado vai continuar aberto por quase mais um mês – o que na verdade é um problema, que de resto até já foi resolvido em Inglaterra, onde o mercado fechou antes da 1.ª jornada da Premier League.

No entanto, ao olhar para os plantéis e respetivos treinadores, as pré-épocas realizadas e o passado recente dos clubes, é possível perceber, entre outras coisas, que o SL Benfica é favorito como há anos não existe nenhum em Portugal.

É verdade que os encarnados perderam João Félix e Jonas, mas também o é que reforçaram o setor ofensivo com jogadores de qualidade como Raúl de Tomás e Carlos Vinícius, além de Chiquinho. O desafio de Bruno Lage não passa por reeditar a dupla de Seferovic com Félix, mas antes formar uma outra igualmente bem-sucedida, ainda que com dinâmicas algo diferentes provavelmente entre o suíço e Raúl de Tomás.

Os dois são compatíveis, como se viu na Supertaça, e o único problema poderia ser exigir ao espanhol que fosse... quem ele não é – João Félix. De resto, as águias tornaram-se mais fortes naquilo em que eram menos: a primeira fase de construção.

Comparando esta com a equipa que começava a época 18/19 há um ano, podemos ver que Ferro substituiu Jardel no eixo da defesa e Florentino ocupa o lugar que era de Fejsa. Tanto um como o outro oferecem bem mais qualidade com bola e o SL Benfica será mais resistente a adversários que os pressionem alto.

Desta forma, trata-se de uma equipa mais completa, com mais soluções (Nuno Tavares surge como alternativa que não existia a Grimaldo, por exemplo) e mais madura, fruto do trabalho já desenvolvido com o seu treinador. É difícil identificar uma figura da equipa, mas Pizzi e Raúl de Tomás são fortes candidatos.

MÁRIO CRUZ/LUSA

O grande favoritismo encarnado não é justificável apenas pelo crescimento dos atuais campeões nacionais, mas também pela fase algo instável dos seus dois rivais. O FC Porto perdeu, por razões distintas, três titulares a custo zero: o capitão Herrera, o desequilibrador Brahimi e o guarda-redes Casillas.

Do 11 saiu também Felipe e a equipa está a ser reconstruída. O objetivo e por isso também o desafio de Conceição é mudar o necessário para conseguir manter a equipa o mais semelhante possível àquilo que é desde a sua chegada e foi nesse sentido que vieram jogadores como Uribe, médio com semelhanças a Herrera, Marcano, que já foi orientado pelo técnico português, ou Nakajima, extremo de perfil parecido a Brahimi.

O outro desafio é também integrar o talento dos jovens vencedores da UEFA Youth League, nomeadamente o de Tomás Esteves, Diogo Leite, Romario Baró e Fábio Silva, que parecem francamente preparados para adicionar valor… no imediato.

A figura poderá ser Alex Telles, ele que é peça fundamental nas bolas paradas ofensivas, que constituem uma das principais armas dos azuis e brancos.

Já o Sporting CP continua a tentar reerguer-se do rombo que a equipa sofreu pós-Alcochete, quando vários jogadores importantes rescindiram com o clube e deixaram os leões a custo 0, e tem um caminho mais longo pela frente.

Em termos individuais, o plantel tem menos qualidade sobretudo do que o SL Benfica (o que se agrava se Bruno Fernandes vier a sair, mas é verdade mesmo com a permanência do capitão leonino), apresentando lacunas no meio-campo, onde nem Doumbia nem Eduardo garantem a qualidade exigida a um 6 de equipa grande.

Na baliza, Renan destacou-se na conquista das duas Taças em 18/19, mas continua a ser algo irregular e o lote de extremos, à partida, também parece curto qualitativamente para um candidato ao título. Até pelos pontos fracos identificados, faz pouco sentido a não aposta em jovens com qualidade como Daniel Bragança ou Matheus Pereira.

Para Keizer, o desafio será sobretudo o de melhorar os comportamentos sem bola, quer em organização, quer em transição. A equipa é um caos defensivamente e terá dificuldades para competir caso assim continue. Se Bruno Fernandes sair, também será curioso ver como os leões o conseguem substituir. Se ficar, será certamente a figura da equipa; caso contrário, os centrais serão os esteios do grupo, mas Wendel pode ter o seu ano de explosão.

HUGO DELGADO

Com dois 4.º lugares consecutivos, o SC Braga surpreendeu ao escolher Ricardo Sá Pinto para suceder a Abel Ferreira e surge, em 19/20, como a maior incógnita da Liga NOS.

O potencial da equipa é tremendo pela qualidade e profundidade do plantel, mas o técnico português ainda não estabilizou em qualquer clube desde a saída do Sporting CP em 2012. Se conseguir rentabilizar os seus melhores jogadores e tornar a equipa organizada e competente sem bola, Sá Pinto pode intrometer-se na luta pelo pódio e quiçá pelo acesso à Liga dos Campeões, uma vez que tem armas no ataque capazes de desequilibrar qualquer defesa.

Paulinho e Hassan oferecem poucas dúvidas, Galeno foi um ótimo reforço, Francisco Trincão é um dos jovens de maior potencial da Liga NOS, Wilson Eduardo é garantia de golos e Murillo e Xadas também têm qualidade.

As figuras, contudo, serão os irmãos Horta, com destaque especial para André, que tem tudo para se afirmar como o melhor jogador do campeonato fora dos grandes. O desafio do treinador bracarense será potenciar ao máximo todo este valor individual e fazê-lo servir um coletivo forte.

HUGO DELGADO

No entanto, se o SC Braga não se apresentar na sua plenitude ao longo da época, esta será a temporada em que mais facilmente poderá ficar aquém do 4.º lugar. O Vitória de Guimarães, seu eterno rival, apostou em Ivo Vieira, que realizou um espectacular trabalho ao serviço do Moreirense, e o técnico português conta com um bom plantel, adequado ao seu estilo de jogo positivo.

Os vimaranenses perderam Tozé e Osorio, mas reforçaram o centro do ataque (a sua posição mais carenciada) com André Pereira e subiram à equipa A alguns jogadores de muito potencial.

Tapsoba, central de 20 anos, é imponente fisicamente e igualmente tranquilo com bola e pode ser a surpresa da equipa ao agarrar o lugar de Osorio. André Almeida, também da formação do Vitória, não deverá ser já titular, mas também é certamente um dos nomes dos quais se vai ouvir falar no futuro.

Rebecca Naden

Lado a lado com o Vit. Guimarães surge o Rio Ave, que apostou forte em Carlos Carvalhal, e quererá ficar entre os seis primeiros, tendo uma palavra a dizer face aos dois clubes minhotos.

Além do experiente treinador português, os vila condenses garantiram Carlos Mané e Mehdi Taremi, dois reforços de peso para o ataque que devem ter a companhia de Nuno Santos na frente.

No primeiro jogo, na Taça da Liga, golearam por 6-1 a UD Oliveirense e agora vão enfrentar a equipa de Ivo Vieira naquele que será o jogo mais interessante da 1.ª jornada desta Liga NOS.

Entre as restantes equipas há realidades distintas, mas todas elas procurarão em primeiro lugar assegurar a manutenção o mais cedo possível. O Belenenses SAD de Silas viveu um ano tranquilo dentro das quatro linhas e em 19/20 não deve ser diferente; o Portimonense juntou Marlos Moreno, um dos mais sonantes reforços além dos grandes, a Jackson Martinez, Bruno Tabata e Paulinho, e tem um poder ofensivo de assinalar; e o Boavista acaba há três anos na metade de cima da tabela e por aí é previsível que continue.

Noutro patamar, clubes como o Moreirense e o Santa Clara viveram uma época acima das expetativas e por isso é normal que haja uma quebra em relação à temporada anterior, mas há que ter atenção ao jovem e muito talentoso Filipe Soares (Moreirense) e ao reforço Lincoln (Santa Clara) que chegou aos Açores após ser uma promessa no Brasil.

No Marítimo, se Nuno Manta Santos tiver estabilidade também deve evitar que o emblema madeirense viva momentos de aflição no final da época, à medida que o Famalicão, recém-promovido à Liga NOS, realizou várias boas contratações com Fábio Martins à cabeça, mas também Rúben Lameiras e os jovens Diogo Gonçalves, Nico Schiappacasse e Alex Centelles – é provável que a equipa demore a chegar ao seu melhor, dado tratar-se de um plantel praticamente todo construído de raiz, mas há potencial para ser trabalho por João Pedro Sousa, também ele um estreante como treinador principal.

Por fim, o CD Aves (onde se deve ter atenção ao reforço Mahmoud Kahraba), o Vitória de Setúbal, o Tondela, o Paços de Ferreira (que tem em Bernardo Martins e Dadashov duas das possíveis surpresas da época) e o Gil Vicente deverão ser os principais candidatos à descida, com destaque para o conjunto gilista que subiu diretamente do Campeonato de Portugal e cujo plantel tem somente cinco jogadores com experiência na Liga NOS, mas também um búlgaro de 22 anos com boas referências: Bozhidar Kraev destacou-se no Levski Sofia, chegou do Midtjylland e já deu a vitória frente ao CD Aves na Taça da Liga.

Seja como for, este ano a tendência é clara – os ‘pequenos’ alargaram horizontes no mercado, contrataram estrangeiros que outrora se achariam inacessíveis e vão estar mais fortes. Ganham os próprios, a Liga, mas sobretudo aqueles que gostam do jogo: os adeptos.