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Sim, o risco até compensa

O Benfica não teve Rafa para saídas rápidas, nunca ligou jogo interior com Pizzi a ir ao centro do campo, jamais viu Grimaldo a construir jogadas e em minuto algum chegou à área contrária com a bola controlada. Porque o FC Porto pressionou alto, anulou tudo o rival tem de forte, criou oportunidades para marcar e ganhou (2-0) o clássico que apenas viu um remate perigoso dos encarnados ao fim de hora e meia

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues/Getty

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Supondo e ficando-nos, por momentos, no mundo das coisas hipotéticas, ver um treinador a optar por colocar a lateral direito um jogador que, no bilhete de identidade, tem extremo escrito à frente da profissão e, em campo, se comporta como as fintas e o drible fossem um vício irremediável a correr-lhe nas veias e injetar um pouco de parcimónia um veneno, far-nos-ia pensar em risco. Em que ele se estaria a pôr a jeito para algo correr mal.

É certo, sabido, vulgarizado, há muito tornado lugar-comum e comentado na televisão que, no futebol, é assim: pensar-se que o risco é muito arriscado para quem o comete porque pode gerar consequências más. E, fazendo o fast-forward, seria comum pensar que as hipóteses de consequências boas para o FC Porto aparecerem por o lateral direito ser o extremo Jesús Corona é como se não existissem.

Afinal, é da esquerda do ataque do Benfica, o defendido pelo mexicano mais habituado a atacar e ter que se concentrar sem a bola uns bons 40 metros mais à frente, que ia partir Rafa, o mais perigoso, rápido e vertical extremo em Portugal a conduzir transições em velocidade e sempre rumo à baliza. Projetar Corona como seria inevitável que ele o fizesse era descompensar a equipa, vagar muitos metros de relva, expor o FC Porto a contra-ataques.

Ou, obrigar Rafa a comprometer-se sem a bola e a fixá-lo tão dentro do meio campo do Benfica, a defender, que isso retiraria à equipa mais eficaz do campeonato no ataque à baliza, pós-recuperação de bola, o tipo em quem mais dependem quando o querem fazer.

Foi, sobretudo, este risco a limitar o Benfica durante uma parte. Cada vez que a equipa recuperou bolas - e a maioria apareceu em campo próprio -, Rafa estava perto da área errada, de costas para a certa, quase encostado a Grimaldo e rodeado por jogadores do FC Porto. Nem sempre Danilo ou Uribe compensavam a posição de Corona, à direita, mas quem para lá ia dar a opção lógica de saída rápida para o Benfica era o pouco ágil Seferovic, que Pepe anulava.

Com bola, o par de médios portista mantinha-se ao centro, muitas vezes alinhados, onde centravam as atenções de Florentino e Samaris, davam-lhes referências de pressão e faziam com que eles não virassem a cabeça para verem Romário Baró a pedir a bolas nas suas costas. O ex-júnior das rastas na cabeça fugia, quase sempre, da direita, onde apenas ficava quando o FC Porto defendia em 4-4-2 as poucas posses de bola em que o Benfica foi capaz de tentar sair em ataque calmo e organizado.

Ele deu tabelas ao meio, fartou-se de criar dúvidas aos centrais (entre o ir apertar ou ficar na linha) e recebeu para ligar o jogo a Luis Díaz, que caía sobre o pé trocado de Nuno Tavares enquanto Marega fixava Grimaldo e Zé Luís jogava no espaço entre Ferro e Rúben Dias.

O 1-0 apareceu (22’) porque o segundo central cabeceou contra as costas do primeiro, num canto, e o avançado cabo-verdiano rematou a sobra disparatada. Mas Zé Luís finalizou um contra-ataque contra Vlachodimos depois de Nuno Tavares se condenar a uma perda de bola, por se limitar a uma opção de passe ao receber sempre para o lado do pé preferido. Baró rematou em jeito à entrada da área. Marega tirou dois cruzamentos tensos e rasteiros que ameaçaram.

E o Benfica, não conseguindo sair pela via automática que é Rafa, sofreu com a pressão alta contrária. A construção de Grimaldo não saía, porque essa pressão era muito virada para o obrigar a decidir rápido e tentar levar a bola a ser filtrada pelo outro lado, o mais previsível e fácil de contrariar. A equipa não tinha a bola tempo suficiente para Pizzi ter jogadores perto, para se associar, então batia longo tudo o que lhe chegava. De Tomás aparecia só para ganhar faltas e tempo.

Não rematou à baliza até ao intervalo e o risco do FC Porto, portanto, só tinha consequências más para o Benfica.

MIGUEL A. LOPES/Lusa

A forma de a equipa de Bruno Lage lidar com os problemas ficou condicionada, logo, pela lesão de Samaris, que fez Taarabt ter 45 minutos em que teve, mais de metade do tempo, a sofrer como todos tinham sofrido: Pizzi nunca apareceu no jogo interior e só participava para cruzar a bola, Florentino já nem se virava para o jogo, com bola, quiçá temendo a pressão; e Rafa, mesmo já não acompanhando tanto Corona, só conseguiu arrancar um par de vezes para, nos últimos 30 metros, Pepe o anular com desarmes nas coberturas.

O FC Porto contrariou, ainda com maior sucesso, as saídas de bola do Benfica - Marega a cortar a linha para Grimaldo, Zé Luís a colar-se nas receções de Florentino - e levou o jogo para Nuno Tavares, que somou passes errados e corridas com bola desastradas. Danilo raramente falhou em tudo o que tentou fazer. Uribe acompanhou-o sempre bem na reação às perdas de bola.

Em bloco, os portistas continuaram a anular o Benfica, obrigando-o a ter as bolas longas como primeira solução e não último recurso até à entrada nos últimos 20 minutos, quando o autor do golo e Baró saíram, quem vestia de encarnado apenas vivia da luta pelas segundas bolas a meio campo.

A maneira que o Benfica teve de, também, injetar risco no seu jogo foi avançar a linha defensiva, aproximá-la da linha de metade do campo, deixar o trinco mais na frente dos centrais e deixar os laterais avançarem no campo do FC Porto, em simultâneo. Taarabt fixou-se mais perto de Grimaldo, com quem era mais fácil atrair pressão, evadi-la e variar a bola para fora dali.

O marroquino, mesmo sem o alcance e rapidez em bola longa de Gabriel, foi capaz de colocar a bola em Pizzi com o português mais perto da área. Ele cruzou mais vezes, com mais alvos presentes na área, a presença do Benfica nessas redondezas cresceu, mas sem que alguém ficasse com bolas para rematar. O risco deu-lhes um pouco de avanço territorial, mas houve consequências más, que tem a ver com o facto de ter sido Marega a ficar em campo e não Zé Luís.

MANUEL DE ALMEIDA/Lusa

O potente e explosivo sprinter, com mais metros entre a linha de quatro do Benfica e Vlachodimos, esperou por bolas para galopar na profundidade. A primeira, dada por Soares, deixou-o com 25 metros de ninguém e cinco segundos à-vontade para correr, espaço e tempo que o deixaram abrandar e não acertar com a bola na baliza. A segunda, vinda de Otávio, pediu-lhe para acelerar com Ferro por perto e, tendo que pensar e executar em velocidade, fez o 2-0 bater no poste (86’) antes de entrar.

Ainda faltava o relógio andar, mas, se não acabava com o resultado, o FC Porto fechava a vitória. Antes, já Luis Díaz rematar um míssil em drop, caído da casualidade de um ressalto após uma bola longa. Depois, o Benfica teve o primeiro remate perigoso do jogo, só aos 90’, e ainda teve uma bola dentro da baliza, anulada por fora-de-jogo quando já jogava com menos um - Chiquinho lesionou-se sem mais substituições para Bruno Lage tentar remediar o que não consertou durante hora e meia.

O clássico terminou com um minuto e 30 segundos de posse de bola portista, facto redutor porque foram ene passes trocados já nos descontos, perseguidos por jogadores do Benfica moribundos, mas evidência, também, que serve de prova final de como Sérgio Conceição e o FC Porto controlaram o adversário, anulando o que de mais forte tem.

Eles asfixiaram o raio de ação de Florentino-Samaris, criaram superioridade de números na zona dos médios, retiraram Grimaldo do jogo atacante, absorveram Rafa para o defensivo, obrigaram Nuno Tavares a tocar mais na bola do que desejaria, naquele lado do campo e, depois, envolveram Romário Baró entrelinhas, deram bolas aos avançados e conseguiram que as ações de Luis Díaz, em posse, fossem o colombiano a ir contra só um adversário (e a ganhar quase todos os duelos).

O Benfica não gerou jogo, criou nenhuma oportunidade de golo. A relação entre o que fez em campo e o que isso lhe valeu em hipótese esperadas para marcar, métrica conhecida por expected goals (xG), já não era tão reduzida, em jogos contra o FC Porto, desde o início de 2017/18.

Há muito tempo que o Benfica de Bruno Lage não jogava tão pouco. Há muito que o FC Porto não rendia tanto em clássicos - e uma das explicações deste desbalanço esteve nos proveitos que se podem retirar (e pensar, e valorizar e focar) quando se arrisca.