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Os números de Ferro não foram de ferro no clássico e a culpa é do contexto

O resultado do clássico não é uma consequência, de forma alguma, de Ferro ter sido o defesa que menos duelos ganhou, mais passes errou na saída de bola e o mais vezes foi driblado no Benfica. Os seus números individuais são, sim, uma consequência de como a equipa jogou e o FC Porto atacou. Logo, do contexto que foi criado para que fosse o português a ter mais ações defensivas - e mais hipóteses de as coisas lhe correrem mal

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Primeiro, um resumo bem sintético do contexto que é necessário para os números.

A estratégia do FC Porto para o clássico, sem bola, foi pressionar em zonas altas do campo, perto da área, a saída do Benfica, para condicionar a influência de Grimaldo e tentar obrigar que a primeira filtragem do jogo fosse para Nuno Tavares. Com bola, a equipa de Sérgio Conceição teve sempre o lateral Corona a projetar-se, como um extremo, para comprometer Rafa a acompanhá-lo e 'puxá-lo' para o meio campo do Benfica, onde ficou mais perto de ser cercado rapidamente pós-bolas perdidas.

Atacando muito mais pela direita, quase abdicou do costume de querer ter os cruzamentos de Alex Telles nos últimos 35 metros, deixando o lateral subido, sim, mas para apertar Pizzi e não o deixar receber passes à-vontade.

Sim, o risco até compensa

O Benfica não teve Rafa para saídas rápidas, nunca ligou jogo interior com Pizzi a ir ao centro do campo, jamais viu Grimaldo a construir jogadas e em minuto algum chegou à área contrária com a bola controlada. Porque o FC Porto pressionou alto, anulou tudo o rival tem de forte, criou oportunidades para marcar e ganhou (2-0) o clássico que apenas viu um remate perigoso dos encarnados ao fim de hora e meia

O plano resultou, o FC Porto anulou as coisas mais fortes que o Benfica tem com bola e, ao mesmo tempo, criou condições para aplicar que, pela terceira época seguida, são as fortalezas do seu jogo quando se vira para a baliza dos outros: muito passe vertical, muito olho para as costas da linha defensiva adversário logo ao primeiro ou segundo passes e muitas corridas de rutura de Marega para esse espaço, sobretudo entre o central e o lateral contrários.

Em números gordos e totais disponibilizados pela "InStat", porém, o controlo real que o FC Porto teve no clássico só cai, realmente, no fosso de diferença, quando olhamos para os golos (2-0), as bolas que acertaram na baliza (5-1) e os passes que chegaram ao destino pretendido (85%-80%). No resto das estatísticas de equipa, o Benfica não fica a perder por mais de dois ou três pontos em relação ao que o rival fez, nem mesmo nos duelos defensivos ganhos (58%-55%).

Mas, esmiuçando as ações à cabeça, os erros individuais que cavaram, ainda mais, as diferenças na qualidade de jogo das equipas, expõem certos jogadores à responsabilidade.

MIGUEL A. LOPES/Lusa

Tendo sido no seu raio de ação e nos espaços que cobre onde Marega apontou a maioria dos movimentos de rutura para pedir a bola na frente, o jogo exigiu mais intervenções a Ferro.

Ele foi o central do Benfica que mais duelos (18) teve que disputar na própria metade do campo e que acabou com pior acerto (61%) - Rúben Dias acabou com 11 e 73%.

No lado portista, Marcano apenas teve sucesso em 50% das oito vezes em que discutiu a bola com um adversários, mas a errância do espanhol aconteceu em bolas que discutiu com De Tomás ou Seferovic, quando os avançados estavam de costas para a baliza, com os apoios na relva, a quererem segurar a bola. Não com um adversário de frente, embalado com a bola e a orientar os toques já para rematar à baliza.

Foi esse o contexto que Ferro teve de contrariar, quase sempre.

O central português não é, por morfologia, é especialmente forte a ter o corpo a jeito (de lado e perfilado, entre o sítio onde está a bola e onde o adversário direto aponta uma desmarcação) ter que se virar rápido e arrancar. Muito menos a ter que comer metros de relva, ao sprint, para compensar um espaço perdido nas costas ou uma bola que um avançado receba, de forma orientada, e o faça atrasar-se na reação.

Pizzi identifica pelos menos um problema: Marega

A análise do capitão encarnado à derrota diante do FC Porto (declarações prestadas à Benfica TV)

Foi este tipo de situação que Marega lhe causou, porque, entrando o FC Porto com bola no meio campo do Benfica pela direita, para usar Corona e prender Rafa, claro que as desmarcações em diagonal do maliano - a cortar o espaço entre central e lateral - apontasse ao lado da bola, por ser mais fácil e rápido que saia um passe rasteiro. Até Zé Luís, quando pediu passes para a corrida, o fez na metade esquerda da linha defensiva do Benfica.

Onde esteve Ferro a ser chamado a agir, reagir e tentar conter os movimentos dos avançados. Ele foi driblado três vezes, as três fora da área, ainda mais a fim de ser ultrapassado por o Benfica defender com a linha alta no campo e por não ter a cobertura de Florentino ou Samaris (depois Taarabt).

Eles eram fixados por Danilo e Uribe, que se mantiveram muito na mesma linha, perto da área do Benfica, para atraírem as atenções do par de médios adversário e tentar que não recuassem para criarem superioridades nos duelos que Rúben Dias e Ferro tinham que disputar.

O contexto não favoreceu Ferro e, consequentemente, o seu jogo, em números, não foi de ferro.

  • Sim, o risco até compensa

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    O Benfica não teve Rafa para saídas rápidas, nunca ligou jogo interior com Pizzi a ir ao centro do campo, jamais viu Grimaldo a construir jogadas e em minuto algum chegou à área contrária com a bola controlada. Porque o FC Porto pressionou alto, anulou tudo o rival tem de forte, criou oportunidades para marcar e ganhou (2-0) o clássico que apenas viu um remate perigoso dos encarnados ao fim de hora e meia