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Benfica: sem Raúl, nem Piedade

Aos bocadinhos, o Benfica foi construindo uma goleada protocolar perante o Cova da Piedade, com dois golos de Pizzi e outros tanto do novo homem-golo Carlos Vinicius. Tudo isto aconteceu perante o olhar ansioso de Raúl de Tomás, estranhamente envolvido nos dois primeiros golos dos encarnados, mas que viu novamente os colegas fazerem aquilo pelo qual é pago: marcar. Ficou 4-0 e o SLB continua na Taça de Portugal

Pedro Candeias

Gualter Fatia

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O problema do Cova da Piedade foi a honestidade do treinador Jorge Casquilha. “Pressionar alto o Benfica será suicídio”, disse candidamente na conferência de imprensa; sem engodos, mind games, apenas a verdade, esvaziando por completo um possível efeito-surpresa que pudesse espevitar a curiosidade num jogo da Taça de Portugal bastante desequilibrado, mesmo antes de ser jogado: o campeão nacional absoluto Benfica versus o antepenúltimo da II Liga, que perdera quatro dos seus últimos cinco encontros.

Acho que perceberam o desnível da coisa.

Assim, apesar de alguma resistência ultradefensiva dos locais (5x4x1), de um ou outro cruzamento, e de um raide espetacular de Femi Balogun – que resultou numa lesão muscular para o próprio –, percebeu-se que o Cova da Piedade era pouco ambicioso e estava demasiado otimista na ocorrência do popularucho ‘lance fortuito’. Que raramente chega quando não é procurado.

Ora, isto aumentou dramaticamente a percentagem de favoritismo do Benfica, cujo triunfo previsível se foi transformando numa goleada (4-0) protocolar e competente, mas sem momentos brilhantes e poucos movimentos coletivos de tempos idos.

O click definitivo que libertou os encarnados sucedeu a segundos do final da primeira-parte: após três golos feitos falhados por Vinicius (dois) e Pizzi (um) e de más ações de Caio Lucas, o Benfica mexeu efetivamente na eliminatória quando Vinicius combinou com Pizzi e este chutou para o golo; um lance que acabou com Raul de Tomás a experimentar os pitons da chuteira do adversário na cabeça, quando já se encontrava dentro da baliza à espera de um ressalto qualquer que lhe trouxesse paz.

E foi aí que nasceu uma das duas histórias deste Cova da Piedade - Benfica: a luta interior entre Raul de Tomás e as suas ansiedades, de peito cheio e de cabeça enfaixada e de olhos nervosos à busca da sua catarse.

A outra foi a do nascimento de um homem-golo diferente dos outros dois, explosivo e esquerdino e bom de bola, chamado Carlos Vinicius, que acabou o jogo com dois golos e uma assistências.

Entre uma e outra, a primeira é definitivamente mais interessante.

Depois do intervalo, Raul De Tomás, a quem toda a gente reconhece qualidade mas que ninguém esquece ter custado 20 milhões, rematou desenquadrado no início da segunda-parte para uma péssima defesa de Tony Batista que Pizzi aproveitou para fazer o 2-0.

Estranhamente envolvido em ambos os lances, o espanhol acabou a ver os colegas fazerem aquilo pelo qual lhe pagam o salário: golos, e ele, nada.

E antes e depois, quando o Cova da Piedade quis mais do jogo e alterou para uma defesa a quatro, R.D.T. quis ser feliz, mas falhou todas as ocasiões que teve perante o guarda-redes, que as defendeu com o corpo ou com o famoso golpe de vista de Silvino, deixando o avançado inquieto e frustrado, incapaz de se divertir com os triunfos da equipa.

Não foi por acaso que Rui Costa o escolheu para umas palavrinhas no final do jogo, no centro do terreno, provavelmente a dizer-lhe a única coisa que pode dizer aos que desesperam: tem calma. Que o futebol não tem.