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Para as calendas portuguesas... ou quase: a Liga está finalmente de volta

A Liga portuguesa esteve parada quase um mês, entre eleições, seleções e Taça da Liga. Segue-se agora um ciclo infernal que pode comprometer a competitividade europeia, como já se queixaram Sporting de Braga e Benfica, e uma pausa de inverno que não é bem vista por todos

Mariana Cabral

Sergio Perez

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É um bom hábito português: sempre que o ano está a começar, olhamos para a lista de feriados e pontes dos 365 dias que aí vêm para planearmos as férias possíveis e desejadas. Ora, para isto acontecer, recorremos, obviamente, ao calendário do ano, que nos permite antever tudo o resto. E se isto é assim para si, caro leitor, e também para mim, diz a lógica que também o deve ser para os 18 clubes que compõem a Liga NOS. Certo? Errado. Porque senão não chegaríamos à 7ª jornada da prova, no final de setembro, com alguns clubes e demais agentes desportivos subitamente a lamentarem-se da paragem de um mês na competição principal do futebol português.

É fazer as contas (ou olhar para a infografia aqui abaixo): o último jogo da 7ª jornada foi disputado a 30 de setembro e o primeiro jogo da 8ª jornada está marcado para 25 de outubro. São, então, 24 dias sem competição daquela que é, indiscutivelmente, a prova que mais mexe com o futebol em Portugal. Pelo meio, as justificações para tão prolongada paragem, que não foi replicada em mais nenhum dos principais campeonatos europeus: a 6 de outubro, data das eleições legislativas, decidiu-se que não haveria futebol, o que não permitia a disputa de uma jornada (só permitiu a realização de alguns jogos da Taça da Liga); de 7 a 14 de outubro, houve paragem internacional para seleções; e, por fim, este fim de semana, 19 e 20 de outubro, decidiu-se marcar a 3ª eliminatória da Taça de Portugal, antes de, na próxima semana, haver mais uma jornada da Liga dos Campeões e da Liga Europa.

Carlos Esteves

“Houve um compromisso com o Governo para que não existissem jogos no domingo, de forma a que os adeptos e os próprios agentes desportivos pudessem ir votar”, explica Sónia Carneiro, diretora executiva da Liga, à Tribuna Expresso. “Sem prejuízo disso, já percebemos todos que, apesar da boa vontade, a solução para diminuir a abstenção não é esta, o que nos leva a uma ponderação futura sobre a marcação de jogos em futuros dias de eleições”, acrescenta, explicando também que “não era possível” calendarizar uma jornada nesse fim de semana, já que FC Porto, Sporting, Braga e Vitória de Guimarães tinham disputado a Liga Europa na quinta-feira anterior, pelo que não podiam jogar nem sexta nem sábado, de acordo com o que está fixado no artigo 44º do Regulamento da Liga, que prevê um intervalo de 72 horas entre jogos.

Sónia Carneiro, diretora da Liga: “A Taça da Liga é uma competição tão apelativa e com tanta projeção como qualquer outra”

Depois da paragem da Liga portuguesa, interrompida durante um mês, Sónia Carneiro, diretora executiva da Liga Portugal, justificou à <strong>Tribuna Expresso</strong> a pausa na prova e também falou sobre os horários dos jogos - que poderão ser adaptados em breve à distância geográfica entre clubes - e sobre a Taça da Liga, recentemente criticada pelo Sporting de Braga

Das miniférias aos seis jogos em duas semanas

Foi assim que, de repente, o futebol português entrou numa espécie de miniférias de outono. “É óbvio que, sabendo de antemão que não há jogo, há um certo relaxamento nos treinos”, confessa António Xavier, jogador do Tondela, à Tribuna Expresso. “Não só por parte dos jogadores mas também dos próprios treinadores. Aproveita-se para haver exercícios mais lúdicos, por exemplo. Acho que estas paragens tão prolongadas só são benéficas se estiveres numa fase muito má. Para os outros acho que não é benéfico, porque estar a quebrar um ciclo de jogos... Quando voltares não vais estar com o mesmo andamento e com a mesma confiança com que estavas antes”, explica.

É que, no final do mês, haverá o reverso da pausa: no fim de semana de 26 e 27 disputa-se a 8ª jornada, a 30 — meio da semana — disputa-se a 9ª jornada e a 2 e 3 de novembro joga-se a 10ª jornada. O Tondela, para mitigar a carga dessa semana e, ao mesmo tempo, a paragem, decidiu antecipar a 9ª jornada, frente ao Aves, para 5 de outubro. “Acho que o clube fez muito bem, porque era um jogo que ia ser jogado a meio da semana e que ia ficar entre um jogo com o Benfica e outro com o Sporting, e sabemos que são sempre jogos complicados. Já que tínhamos sido eliminados da Taça da Liga, logo no primeiro jogo da época... Não vou dizer que é visto como um amigável, mas nessa altura as equipas ainda estão em modo pré-época, daí ser quase um jogo de pré-época”, diz Xavier.

António Xavier, jogador do Tondela

António Xavier, jogador do Tondela

Gualter Fatia

Os restantes clubes, pelo contrário, terão uma carga extraordinária de jogos, particularmente os cinco que estão nas competições europeias, que entrarão num ciclo verdadeiramente infernal. Foi isso que levou o Benfica, recentemente, a criticar o calendário. “É urgente repensar e alterar estas questões da calendarização. Não se trata somente da paragem prolongada — ainda mais se nos cingirmos ao Campeonato Nacional —, mas também da elevada concentração de jogos que se seguirá a esta paragem. Este não é, definitivamente, um calendário que salvaguarde os interesses do futebol português, tendo em conta, nomeadamente, a questão do ranking europeu.”

António Xavier: “Com jogos à segunda-feira à noite perdes um pouco daquilo que é a essência do futebol: o domingo à tarde, o espetáculo”

Logo na 1ª jornada da Liga portuguesa, o Tondela jogou à sgunda-feira à noite, em Setúbal. Na 2ª jornada, mais do mesmo: o clube voltou a jogar na segunda-feira às 20h15, desta vez em casa, frente ao Portimonense. António Xavier, jogador do Tondela, confessa à <strong>Tribuna Expresso</strong> que não gosta do horário e elogia o clube por ter conseguido mitigar a paragem de um mês na Liga, antecipando a 9ª jornada, que iria ser disputada a meio da semana

Contudo, o Benfica é um dos três clubes — juntamente com FC Porto e Sporting — com assento fixo na Comissão Permanente de Calendários (CPC), que trata precisamente da calendarização das provas nacionais e da marcação regular de jogos, juntamente com a Liga e com os operadores televisivos. À Tribuna Expresso, o clube garante que tal não configura uma contradição. “O Benfica está representado na CPC pelo seu diretor-geral, Tiago Pinto, e todas as considerações sobre o mesmo são feitas no âmbito dessa equipa de trabalho, que tem prestado, apesar de todas as dificuldades, um enorme contributo ao futebol português para que se consigam conjugar os regulamentos, os interesses dos operadores televisivos e a defesa dos clubes que jogam competições europeias”, defende o diretor de comunicação, Luís Bernardo.

“Isso não invalida a reflexão sugerida pelo Benfica, a exemplo de outros clubes que têm membros nessa comissão e que fizeram considerações críticas sobre o calendário em diferentes momentos, tendo em conta as apertadas exigências das competições internacionais. E que se entenda que, apesar do meritório trabalho realizado, todos em conjunto procurem aperfeiçoar o modelo de conjugação do calendário internacional com as competições nacionais”, acrescenta.

Carlos Rodrigues/Getty

Sporting de Braga vs Benfica e... Liga

Um dos clubes mais críticos em relação à calendarização é o Sporting de Braga, que também entrou esta época na CPC, juntamente com o Vitória de Guimarães, por estar a participar nas competições europeias (a título consultivo, sem direito de voto nas matérias), e que acusou o Benfica de prejudicar os clubes portugueses, por não permitir o adiamento do Boavista-Sporting de Braga, da tal 9ª jornada que será disputada a meio da semana, para 29 de dezembro, deixando que os bracarenses defrontassem o Besiktas, para a Liga Europa, de forma mais folgada.

Tendo o ranking europeu em mente, é importante que Benfica, FC Porto, Sporting, Braga e Vitória de Guimarães façam boa figura nas provas europeias, porque Portugal está quase a alcançar o 6º lugar, atualmente ocupado pela Rússia (Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e França ocupam, por esta ordem, os lugares cimeiros): tem 43,449 pontos — 4,300 deles conquistados esta época pelas cinco equipas —, enquanto os russos têm 43,549 — apenas com 2,666 esta época, conquistados pelas quatro equipas (das seis) ainda em prova.

De acordo com o Braga, tanto Tondela, Gil Vicente, Leixões, Cova da Piedade e Mafra, que também fazem parte da CPC (embora não de forma fixa), votaram a favor do adiamento do jogo em questão, mas Benfica, FC Porto e Sporting, “curiosamente clubes que competem na Europa e que teriam, no plano teórico, o máximo interesse na competitividade do futebol nacional na UEFA”, votaram contra. Com a maioria a favor, “seria expectável que a Liga oficializasse a marcação da jornada, tendo tal publicação sido continuamente protelada, ignorando a votação clara da CPC, o parecer do Departamento Jurídico da Liga e o próprio Regulamento de Competições, que não cria qualquer obstáculo à realização do referido jogo na data acordada entre os clubes”, diz o Braga. “Porém, e cedendo à pressão de uma minoria, a Liga remeteu o tema para a Federação, tendo esta reiterado que a marcação de jogos não é da sua competência, pelo que mais inusitado se torna que a direção da Liga tenha entrado em cena para negar a concretização do acordo obtido entre o Braga e o Boavista e validado pela CPC, único órgão a quem compete a marcação das jornadas, em mais uma clara demonstração de submissão aos antigos poderes do nosso futebol”, criticaram os bracarenses, em comunicado, para o qual também remeteram a Tribuna Expresso.

ERDEM SAHIN/Lusa

Já o Benfica conta uma versão diferente: “Tal como a grande maioria dos elementos da CPC e a própria direção da Liga (por unanimidade), fomos contra o adiamento desse jogo porque quebrava uma decisão tomada no início da temporada que se prende com a defesa do break de inverno”, pausa que o Benfica diz defender “de forma intransigente”, para “reduzir o risco de lesões” e para que seja celebrado o Natal. “A data desse jogo não só punha em causa o break como pode ser entendida como fator de injustiça competitiva, porque todos os outros clubes terão de jogar três jogos em sete dias, entre a 8ª e a 10ª jornadas”, justificou o clube, enquanto a Liga preferiu não abordar o assunto, explicando apenas que no processo de marcação de jogos “há absoluta democracia” e, “quando não há entendimento, faz-se como em qualquer democracia: vota-se e ganha a maioria”.

Depois da pausa outonal, a pausa de inverno. E a Taça da Liga?

A arenga terminou com o Sporting de Braga a abandonar definitivamente a CPC, a “retirar a confiança” à direção da Liga e a “questionar a sustentabilidade dos quadros competitivos”, manifestando-se, também, contra o novo “break de inverno”, que considera “inoportuno e contrário aos interesses da indústria”, à semelhança do que advogou Carlos Carvalhal, treinador do Rio Ave, que sentiu “estranheza” pela folga competitiva e “de repente jogar três vezes em oito dias”: “Estamos mal habituados. Somos profissionais bem pagos para promover espetáculos e para entreter as pessoas, dando-lhes um momento de catarse para que possam expelir os problemas que têm na sociedade. No mês de dezembro, quando é pago o 13º mês e as pessoas têm mais dinheiro, altura em que muitos emigrantes regressam a casa e em que se podia fazer do futebol uma festa, fechamos a loja. Temos de perceber que isto é um negócio e temos de trabalhar quando há mais dinheiro.”

Este ano, a última jornada da Liga em 2019 está marcada para o fim de semana de 14 e 15 de dezembro, sendo a prova retomada a 4 e 5 de janeiro de 2020. A 17, 18 e 19 de dezembro há oitavos de final da Taça de Portugal, e o fim de semana de 21 e 22 de dezembro está reservado para a última jornada da fase de grupos da Taça da Liga, prova que o Sporting de Braga também questiona, por “ao contrário do apregoado, não distribuir receitas pelos clubes que a tornem financeiramente atrativa” (segundo o Orçamento da Liga, há um total de €1,9 milhões de prémios da Taça da Liga a serem distribuídos pelos clubes, o que dá um valor médio de €57 mil por cada) e por “empurrar jornadas do campeonato para ciclos sobrelotados, tudo para que a menina dos olhos desta Liga possa ocupar fins de semana”.

Questionada pela Tribuna Expresso em relação à primazia dada à Taça da Liga no fim de semana de 21 e 22 de dezembro, Sónia Carneiro assegura que “a Taça da Liga é uma competição tão apelativa e com tanta projeção como qualquer outra das disputadas”, acrescentando que “os jogos de cada grupo na última jornada da Taça da Liga têm de ser todos à mesma hora”.

Sobre uma possível extinção da prova, como sugeriu o Braga e como anunciou recentemente a Liga francesa, que na próxima época já não terá Taça da Liga (a Inglaterra passa a ser o único dos grandes campeonatos europeus a ter Taça da Liga), a diretora da Liga tem uma perspetiva distinta: “Esta é uma competição jovem e que muito tem crescido ao longo dos 12 anos. Estejamos atentos ao que foi dito nesta última semana por jogadores e treinadores e percebe-se a importância desta competição e o quão apelativa é para todos”, diz, ainda que a assistência da 1ª e 2ª fases, esta época, tenha baixado em relação à época passada (de 5349 e 31.171 adeptos para 4454 e 18.447, respetivamente — os clubes grandes só entram na 3ª fase).

“No entanto, a vontade dos clubes, reafirmo, é soberana. Não vale a pena fazermos futurologia, até porque o fórum certo para se discutir o futuro desta competição, bem como os modelos competitivos das Ligas, é a Assembleia-Geral da Federação Portuguesa de Futebol”, conclui. Uma discussão que não convém deixar para as calendas greg... portuguesas.

Texto originalmente publicado na edição de 19 de outubro de 2019 do Expresso