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Se for preciso pôr Bruno Fernandes a jogar a defesa-direito, Bruno Fernandes jogará a defesa-direito

Silas entrou de supetão neste caldeirão, apanhando-se com jogadores que não escolheu, no meio de um conflito que não procurou, na sua primeira grande experiência de treinador principal - profissão que, legalmente, nem pode exercer com todos os direitos. Portanto, o melhor é deixar o idealismo de fora e apostar no pragmatismo. O Sporting venceu o Vitória de Guimarães por 3-1, aproveitando erros alheios, sobretudo do guarda-redes Miguel Silva, e usando a mobilidade do seu ataque, em contra-ataque

Pedro Candeias

Bruno Fernandes e Miguel Silva, protagonistas do jogo por razões diferentes

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Não havendo um momento ideal para complicações, era difícil encontrar um contexto menos simpático para o Sporting, na medida em que o seu jogo anda pelos níveis do sofrível e o Vitória de Guimarães estava motivado e é talentoso. E, depois, o factor-casa, bem, o factor-casa já não é aquilo que costumava ser num estádio de Alvalade inusitadamente silencioso e despido de gente nas bancadas, onde antes se viam corpos e se ouviam berrarias.

São as contingências de uma guerra civil entre a presidência e as claques mais vocais, que sublinham uma crise também ela desportiva, que começa na vulnerabilidade do plantel e acaba na falta de estratégia.

E foi neste caldeirão que Silas entrou de supetão, apanhando-se com jogadores que não escolheu e no meio de um conflito que não procurou, na sua primeira grande experiência de treinador principal - profissão que, legalmente, nem pode exercer com todos os direitos.

Silas tinha de ser cuidadoso e foi-o, porque o que interessa agora é vencer: apostou num ataque móvel - com Vietto, Bolasie e Jesé -, baixou o bloco e apostou em transições, pois do outro lado estava o Vitória de Guimarães, equipa que gosta de ter a bola e de impôr o seu jogo em qualquer terreno, no seu 4x3x3 que se transforma em 4x3x2x1, com os extremos por dentro e os interiores a na largura, de forma a pressionar o meio-campo adversário. Sem medo, ao primeiro ou segundo toques, e ao ataque: em Londres, contra o Arsenal, saiu de lá derrotado (3-2), apenas porque o guarda-redes Miguel Silva cometeu erros fatais em alta competição.

Só que em Alvalade, Miguel deu sequência à má exibição londrina, em ações questionáveis e/ou infantis que resultaram em golos-contra: no primeiro, sentando-se bem antes de Jesé executar a finta; no segundo, desprotegendo o poste e tentando adivinhar o remate de Acuña; e, no terceiro, na segunda-parte, já depois de o Vitória ter reduzido por Leo Bonatini na sua melhor fase, soltando uma bola fácil num remate que Coates aproveitou para expiar pecados antigos.

Convém, também, ressalvar que Frederico Venâncio esteve particularmente desastrado nos dois primeiros: deu um passo em frente e não acompanhou Jesé, julgando conseguindo pôr o espanhol em fora-de-jogo no passe de Vietto; e perdeu caricatamente a bola para Vietto que assistiu, então, Acuña. Estes três, sobretudo Vietto, e o inevitável Bruno Fernandes, foram os melhores do Sporting em campo.

Resumindo, se quisermos, o Sporting foi feliz no aproveitamento dos erros e do desgaste de um rival desabituado a jogar na Europa - e que cumpriu o seu 20.º jogo esta época, à oitava jornada, talvez metade do que está historicamente acostumado a fazer numa temporada inteira. Mas também teve a humildade suficiente para perceber que, nesta altura, não dá para mais e que se for preciso pôr Bruno Fernandes a jogar a defesa-direito, Bruno Fernandes jogará a defesa-direito.

Sem problemas.