Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

Meio jogo sem o Sporting tal e qual o conhecemos

Durante a primeira parte, a equipa de Silas, por fim, conseguiu ter paciência com bola, construir apoiado de trás e ser capaz de criar e explorar espaços até à outra área. Na segunda, contudo, viu-se novo o Sporting inconstante e errático desta época, que sofreu, mas conseguiu ganhar (1-2) ao Paços de Ferreira com assistência e golo de quem, venha o que vier, parece não mudar: Bruno Fernandes

Diogo Pombo

OCTAVIO PASSOS/Lusa

Partilhar

Perdoem-me a sinceridade, mas, ao começar, este jogo tirou-me os phones dos ouvidos e não me deixou continuar a ouvir Jamie Carragher, pelos vistos já dono do seu próprio podcast, a falar com Thierry Henry, um senhor que, no seu tempo, infernizava a vida a toda uma Premier League e hoje se admira que as pessoas o “olhem de lado”, por não se considerar um grande marcador de golos.

Uma pessoa, realmente, ouve com cada coisa. E, mesmo que despropositada, esta confissão de Henry seguiu-se a outra, mais longa, sobre uma vez em que o pai, como habitualmente, o levou a um jogo em que marcou seis golos. Regressou ao carro reinando sobre o umbigo, a barriga e tudo em redor, achando estar a ter um dia e pêras e esperando elogios do progenitor que, ao invés, lhe detalhou, ao minuto, aquela receção mal feita, aquele cruzamento feito sem jeito.

Carragher perguntou-lhe se não acha que ter um pai exigente, cobrador e impedidor de estados de satisfação foi o que deu a Henry a mentalidade que o levou longe, ao que o francês respondeu algo do género - não sei, porque foi esse o contexto que tive e nunca experimentei outro.

O que me leva, perdoem-me de novo se é forçado, ao Sporting, porque mais de metade do plantel não sabe o que é estar num Sporting estável dentro e fora de campo, ordeiro no plano desportivo e sem danças de treinadores. Logo, apenas conheciam todo um contexto que parecia ser impeditivo a que houvesse uma equipa que, resumindo, jogasse bem.

Mas, ao sexto jogo com Silas, eis o Sporting a falhar poucos passes, a não se precipitar, a movimentar os jogadores com nexo para, coletivamente, abrir espaços que deixassem Coates e Mathieu construírem de trás, os médios receberem nas costas da primeira pressão, Bruno Fernandes ter bola nos últimos 40 metros e entrelinhas, e que houve sempre um ou dois apoios, de frente, para quem recebesse um passe.

Um Sporting a controlar um jogo, com bola, durante 45 minutos, muito porque melhorou no tempo que passou sem ela: tendo os jogadores próximos, a equipa pressionava junta ao perder a posse, agressiva na reação, obrigado os adversários a terem que decidir sob urgência e a errarem.

Fora uma transição a que cinco jogadores reagiram ao sprint, para trás, o Paços de Ferreira era desorganizado nos momentos em que tentava apertar o Sporting, tinha os homens da frente muito afastados da linha dos médios, abrindo ene buracos e, depois, macio a apertar quem tinha a bola. Quando recebeu uma bola quase na grande área, Bruno Fernandes teve tempo e espaço para rodar, olhar e cruzar a bola com que Luiz Phellype marcou (11’) à antiga equipa.

Mais três ou quatro jogadas houve com tabelas, passes de primeira e três jogadores envolvidos para fixar atenções e libertar o homem livre, com critério, que ameaçaram a baliza, sempre com Bruno Fernandes a ser o íman de tudo. Até ao intervalo, segundo o GoalPoint, apenas Renan não fez um passe para o capitão.

OCTÁVIO PASSOS/Lusa

Depois, a reação esperada em avançar com as linhas, pressionar mais na frente a saída de bola e tentar colocar mais jogadores nas transições rápidas, deu ao Paços de Ferreira mais chegadas à área contrário. Bruno Santos curvou uma bola rasteira, só com o guarda-redes à frente, mas Renan desviou o que seria um castigo imediato à passividade do Sporting na primeira jogada pós-regresso ao campo.

Mesmo continuar com mais tempo na bola e chegadas à área finalizadas, as posses de bola do Sporting sofriam de menor esperança média de vida. Quem se movimentava à frente do portador fazia-o igual à primeira parte, à mesma distância, perante a maior pressão e bloco mais subido adversários, talvez a pedirem olhares mais verticais e diretos num apoio frontal, que ‘tirasse’ gente da jogada através de um passe.

O Sporting foi jogando da mesma forma, aliviando a intensidade com os minutos, porque, enfim, os futebolistas ainda são humanos. O Paços mantinha o risco, ligava mais jogadas até à área de Renan e, numa fase em que Acuña e Luiz Carlos eram os os tipos a perder a tampa com faltas, protestos e entradas durinhas, cada um teve o seu momento.

O argentino, cortando um remate na área com uma investida a roçar o suficiente para ser falta, deu o canto em que Coates não atacou o espaço, Renan plantou-se a meio caminho e Douglas Tanque saltou para empatar (74’). Minutos volvidos, o brasileiro estava na barreira posta dentro da área e esticou, descaradamente, o braço para tocar na bola cruzada por Bruno Fernandes, que marcou (79’) o penálti.

O que restou foi um jogo faltoso, de passes falhados, dividido em esticões e contra-ataques, cheio de jogadas intempestivas e sem que o Sporting o acalmasse para tentar controlar o que, no futebol, é indomável, mas evitável quanto mais a bola estiver nos pés da equipa que não deseja sofrer golos.

O Paços de Ferreira acabou a pressionar e na área adversária. Não marcou, mas fez por tornar o jogo como todos quase todos os que a equipa de Silas, mesmo antes de o treinador chegar e, por fim, vê-la, na primeira parte, mais constante, controlada e paciente com bola, tem feito esta época - sem um controlo constante da bola, estável na qualidade de jogo.

O que me leva, de volta, a Carragher e a Henry.

Porque, apesar dos bons sinais, da construção apoiada, da maior paciência com bola e de uma equipa mais produtiva a criar e explorar os espaços com movimentos trabalhados (Ristovski, finalmente recuperado, por exemplo, participou muito em jogadores ao centro do campo, associando-se à equipa com passes curtos), o Sporting ainda acabou a ser o Sporting tal e qual o conhecemos esta temporada. E ainda não sabemos como será quando Silas e os jogadores forem capazes de prolongar no tempo, contra outros adversários, o tipo de coisas que fizeram na primeira parte.

É, pelo menos, hipótese mais risonha do que a de Thierry Henry, que jamais saberá o que é crescer com outro tipo de exigência do pai.