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Benfica, até quando você vai levando porrada, porrada?

O Benfica, em mais um jogo, foi incapaz de criar o que fosse em ataque organizado e com calma, contra um Santa Clara que lhe deu a iniciativa com bola e criou tantas, ou mais, oportunidades para marcar. A equipa de Bruno Lage ganhou (1-2), vai com 30 pontos em 33 possíveis no campeonato e os problemas continuam a não ser resolvidos, apenas disfarçados

Diogo Pombo

EDUARDO COSTA/Lusa

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Se cada derrota, cada passe falhado que gerou um contra-ataque, cada tentativa de construir da área, de forma apoiada, que emperrou e deu a bola aos outros tão perto da baliza, fossem um gatilho nervoso para, urgentemente, alterar a forma como faz as coisas em campo, uma equipa iria ser mais esquizofrénica e perdida na própria polaridade do que Mystique.

Caso não saibam, é uma fictícia personagem da saga X-Men, capaz de imitar a aparência de quem quiser, puxada para este analogia porque, razão lhe seja dada, Bruno Lage foi factual ao dizer que não há estratégia, rumo e algo preparado que resista se o termómetro usado for o de cada “desaire” que apareça.

Mas, nesta distopia do Benfica, a quem a vida europeia não está a dar bonanças, o problema está nas 27 vitórias em 29 jogos do campeonato com Lage, porque a falta de desaires é, talvez, a melhor desculpa para fugir com o rabo à seringa de um problema exposto, que nem um cataclismo, contra o Santa Clara - a paupérrima capacidade de fabricar coisas em organização ofensiva.

Com mais tempo na bola, maior espaço para ter quatro ou cinco jogadores nos primeiros 50 metros, de frente para a baliza, a construir as posses à entrada do campo adversário, o Benfica emperrou perante um Santa Clara compacto, a defender com bloco baixo, 11 tipos confortáveis atrás da linha da bola, a fechar qualquer toca ao centro.

Perante um adversário que, surpresa para ninguém, insistiu em dar a iniciativa territorial ao Benfica, a equipa banalizou-se. Florentino não se posicionou para receber as costas de alguém, os extremos parecia ter um solene juramento para não se descolarem da linha, Seferovic só tinha diagonais de dentro para fora.

Tudo era desgarrado, a acontecer por iniciativa própria, sem jogadas ou posicionamentos conjuntos, de um jogador a puxar marcação, vagar espaço e outro aparecer. Nada. Apenas Gabriel se desviava para a relva que Grimaldo costuma pisar -subindo o lateral para deixar o médio num sítio sem potencial para ameaçar quem fosse -, quando não estava a insistir, teimosamente, nos passes aéreos para variar o alvo da pressão do Santa Clara, sem que o Benfica, sequer, a atraísse para uma zona específica.

Em 12 bolas destas, acertou uma, entre outros passes rasteiros mal feitos. A casmurrice de Gabriel em insistir no tipo de passe que não lhe saía era o exemplo mais flagrante no Benfica incapaz de, coletivamente, criar oportunidades de golo a atacar com tempo e calma.

Só no início da segunda parte, na ressaca de um canto, rematou uma bola para o guarda-redes Marco defender, já Carlos Júnior marcara (17’) no fim de uma saída vertical e de poucos passes do Santa Clara, em que Rashid contornou um Jardel de olhos fixados na bola (para receber à sua frente e tocar para a ala) e inventou o simples desequilíbrio que desmontou uma equipa desnorteada.

EDUARDO COSTA/Lusa

Em dois contra-ataques rápidos com tração à esquerda, até o sprinter Zaidu ter espaço para cruzar, o Santa Clara quase marcou, cruel no momento sem bola em que o Benfica, por tradição com Bruno Lage, pior é a reagir. Mas, numa bola que perderam mal a recuperaram, os açorianos viram o lateral esquerdo cair no engodo de Pizzi, o português a cruzar rasteiro e Carlos Vinícius empatar (54’).

Um homem, uma simulação, uma finta, um passe tenso e alguém a desviar o mais fácil. O Benfica, numa jogada: invenção vinda de uma cabeça só após uma pressão imediata à perda de bola.

Chiquinho já jogava onde jogaria, depois, Taarabt, ao lado de um Gabriel que deixou de teimar nas bolas longas, mas continuou a falhar passes quase por ansiedade de errar. O Benfica avançou a pressão, apertou os adversários mais à frente no campo, intensificou aquilo em que mais confia e daí quis forçar as recompensas que a criação com tempo, com bola e com calma, em mais um jogo, nunca lhe deram.

O Santa Clara resistia à pressão com bola na relva, confiava nos pés de Rashid e Francisco Ramos para atraírem jogadores até alguém, de frente, tentar ligar um passe a Lincoln ou Ukra e saltar sobre o assalto roubador do Benfica. Mas, numa dessas tentativas, o central César foi impaciente, bateu um passe contra as costas de um colega que pareceu um chutão, Seferovic soltou logo Pizzi e o 1-2 sobreviveria aos 12 minutos restantes.

Na última jogada, Rashid resgatou a energia que lhe sobrava, cortou uma beckhamificada bola longa para as costas de Grimaldo, onde Urka a rematou de primeira, a rasar o poste esquerdo da baliza do Benfica que, aliviado, ganhou mais um jogo em que incapaz foi, à equipa grande, de desmontar a organização do adversário através de jogadas organizadas com bola.

O problema não é de agora, a resolução que pede também continua a não ser, porque é disfarçada (como era, e muito, por um rapazote que hoje mora em Madrid) nas invenções individuais dos melhores jogadores que tem e pela pressão forte que apanha na curva a maioria das equipas que defronta em Portugal.

Na Europa, ou contra o FC Porto, o Sporting e até o Vitória e o Braga, a equipa de Bruno Lage sofrerá mais do que sofreu com o Santa Clara, contra quem ter um Pizzi inspirado (13 golos e seis assistências esta época), um Rafa endiabrado quando voltar de lesão ou um Gabriel não em dia em que nada lhe corre bem é, muitas vezes, suficiente para se impor no campo.

Mas, citando outro Gabriel, o Pensador sem bola, até quando vai o Benfica, mesmo ganhando, continuar a levar porradas evitáveis?