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Pizzi já marcou e assistiu mais, em menos minutos, do que Bruno Fernandes na época passada. Recorde à vista?

Jogou menos minutos, mas marcou mais golos (19), fez mais assistências (10) e, para que deixe de ser um critério, tem o mesmo número de penáltis (três) batidos com sucesso. Comparados os primeiros 25 jogos da época de cada um, Pizzi tem melhores números do que Bruno Fernandes, no mesmo período, em 2018/19, quando o capitão do Sporting acabou por ser o médio mais goleador de sempre na Europa, ao fim de uma temporada. A manter o ritmo, o português do Benfica pode apanhá-lo, ou chegar lá perto

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues/Getty

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Aquele “Como jogas Luís Miguel 👏🏼” martelado por críticas, tão alvo para o lançamento industrial dos dardos críticos de quem, vendo de fora, critica a amostra pública - superficializada e sucinta, ao máximo, no comentário de uma imagem numa rede social - de uma relação de amizade entre dois jogadores de futebol que ninguém, ou pouquíssima gente, saberá como é, teve todo um fundo de razão.

O elogio cibernético de Bruno Fernandes, também dono de um Miguel como segundo nome, aconteceu depois do Benfica-Zenit, onde houve receções, toques bonitos, tabelas provocadas, acelerações com bola e jogadas germinadas pelo elogiado, coisas intangíveis entre o que o jogador, conhecido por Pizzi, fez de palpável, um golo, por vezes a única unidade que parece interessar na medição do que vale um futebolista.

Foi o 18.º dos 19 que leva esta época, ele, um médio que parte da direita e pisa mais relva fora da área, a apropriar-se de números próprios de um avançado, e, portanto, numericamente ainda mais elogiável por quem, a temporada passada, também jogou para ter um rendimento que se traduziu numa quantidade anormal de golos.

Ou Bruno Fernandes, talvez, previu o que já não parece assim tão improvável.

Se as lesões, os momentos de forma, as dinâmicas da equipa, a qualidade dos adversários e a inspiração individual se alinharem, Pizzi poderá estar encaminhado para chegar, ou ficar perto, dos 32 golos marcados pelo capitão do Sporting em 2018/19, que o fez bater o recorde para o médio mais goleador numa só época, na Europa.

EDUARDO COSTA/Lusa

Os números de Pizzi nos 25 jogos desta época nada prometem, ou provam, mas, servindo de comparação e além de exaltarem a influência que tem no jogo atacante do Benfica, podem augurar coisas. Em 1891 minutos, marcou 19 golos, três de penálti, dando 10 assistências entre 14 jogos no campeonato, seis na Liga dos Campeões, três na Taça de Portugal e a Supertaça.

Nos primeiros 25 jogos da época passada, Bruno Fernandes fez 13 golos, três também de penálti, contou nove assistências e ia com 2156 minutos de campo, divididos por 14 partidas no campeonato, seis na Liga Europa, três na Taça de Portugal e um na Taça da Liga.

Pizzi já marcou (19-13) e assistiu (10-9) mais, em menos tempo (1891-2156), do que Bruno Fernandes no mesmo número de jogos (25), o que nada garante para a contabilização final, em maio, nem prova o que seja quanto a quem é melhor que o outro. É uma questão de rendimento.

O médio do Benfica, partindo à direita de um 4-4-2 com dois médios bons de passe, ligação de jogo e associação atrás dele, e outro, fã de tabelas, à frente e perto dele, tem feito explodir a sua influência na equipa que, cada vez, joga num estilo para fazer a bola chegar na relva, em combinações curtas, até perto da área, onde Pizzi muito remata à mínima oportunidade que tem, ou facilmente tabela para arranjar o espaço que precisa.

O médio do Sporting, a época passada e ainda com Marcel Keizer, era o centro a que todas as posses de bola prestavam atenção, no meio do 4-3-3 ou 4-2-3-1 vertical, com preferência pelo jogo interior, que o deixava dar corda à sua já forte tendência para arriscar, em quase todas as zonas do meio campo adversário, e muito tentar finalizar jogadas.

São contextos diferentes, em épocas distintas: o Benfica, por exemplo, teve seis jogos na Liga dos Campeões em 2019/20; o Sporting, no mesmo período de 2018/19, fez meia dúzia na Liga Europa, contra adversários, em teoria, com menos qualidade para criarem tantas dificuldades na prática.

Existirem números que superam outros e batem recordes é uma história cíclica, que é e sempre será redutora, por descurar ou, no mínimo, não se justificar com o contexto em que acontece.

Continuando a exemplificar, Pizzi está, apenas, a sete golos dos 26 que são a melhor marca da carreira de Frank Lampard, o único médio a ultrapassar a centena de golos na história da Premier League, campeonato outra intensidade de jogo e qualidade de jogadores. E a 10 de Alex, o brasileiro goleador, no seu tempo, no Fenerbahçe, a quem Bruno Fernandes tirou o recorde.

Por mais acumulada que seja a tradução numérica do rendimento de um jogador, as estatísticas nunca vão provar, sozinhas, o quão elogiável foi o desempenho de alguém, no campo. Bruno Fernandes, de facto, elogiou “como” joga Pizzi, não o quanto ele joga. 🤔