Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

Rúben Amorim: “Joguei cá, fiquei em 4.º lugar e foi o fim do mundo. Sei que dependo dos resultados, já tive problemas mais fortes na vida”

O novo treinador do Braga foi apresentado, falou de criar uma nova identidade, transversal a todas as equipas, garantiu que "tem uma ideia clara de como quer jogar e que jogadores quer pôr em determinadas posições" e que não tem "dúvidas nenhumas" de que "os jogadores vão saber o que fazer com bola e sem bola". Durante a apresentação do novo técnico, o presidente António Salvador considerou "uma tamanha injustiça" as críticas às habilitações de Rúben Amorim: "Não se pode estar 8 anos à espera para se tirar o curso. Isso é que deve ser discutido em fóruns"

Tribuna Expresso

Clive Rose/Getty

Partilhar

Umas palavras de António Salvador

"O Rúben Amorim tem conhecimento e capacidade para o assumir. Tenho a certeza que será mais um dos grandes treinadores que o Sporting de Braga projeta para o futebol internacional. As qualidades no treino, na relação com o grupo de trabalho e na procuração do jogo são os seus principais atributos. Também o escolhemos porque sentimos que é preciso dar resposta aos objetivos de ganhar, praticar bom futebol e valorizar os jogadores e a nossa formação. Sabemos o lugar a que pertencemos e é lá que vamos estar. Temos que fazer mais e melhor.

O Rúben Amorim esteve nesta casa em épocas fundamentais para o saldo competitivo deste clube. Foram conquistas que jamais podem ser postas em causa. Não julgamos nenhum funcionário ou colaborador pela idade, mas pelo seu valor e vontade de lutar em prol do crescimento da instituição. Vamos conseguir o que nunca foi feito e levar o clube ao mais alto patamar que ambicionamos."

O porquê da substituição de treinador

"Para triunfar neste clube é preciso ganhar, praticar bom futebol que os nossos sócios gostem e, sobretudo, valorizar jogadores e a nossa formação. É isso que entendemos que o Rúben Amorim quer. É o momento ideal para ser o nosso treinador, acompanhado por cinco elementos na equipa técnica. O Rúben jogou na Liga dos Campeões neste clube e ganhou uma Taça da Liga."

Rúben Amorim e o resumo dos objetivos

"Quero agradecer a confiança do presidente e de todos. É o início de um novo ciclo, vai muito mais além da mudança de treinador, é algo muito mais profundo, é o tentar criar uma nova identidade e achamos ser o momento ideal. O Braga cresceu muito e é necessário criar uma identidade desta cidade, deste clube. Criar algo único que reflita a cidade, o clube e este crescimento."

Habilitações, cursos de treinador e matriz de jogo

"Sinceramente, não tenho tido um conhecimento tão profundo como toda a gente. Entendo as críticas, mas tenho que fazer o meu trabalho e é esse o meu foco.

"Será algo diferente do que tem vindo a ser feito. Passa muito por criar uma identidade. A equipa do Braga vai ter algo que, a meu ver, ainda não teve. Vai ter pontos fortes muito claros. Tive grandes treinadores e professores, esses sim foram meus professores. Quero criar uma identidade profunda, que seja transversal da primeira equipa até às camadas mais jovens. Quando falamos da identidade é um pouco vago, mas estamos a falar de identidade dos jogadores que cresceram aqui.

Joguei cá, fiquei em quarto lugar e foi o fim do mundo. Sei dessa responsabilidade e estou preparado. Essa falta de habilitações que tem vindo a ser falada é um papel, sim senhor, mas passei a minha vida a jogar em todas as posições, em grandes clubes, tive processos disciplinares - de que não me orgulho. Quero transparecer a minha personalidade e passá-la ao clube."

A opinião de Salvador sobre isto

"É de uma tamanha injustiça as declarações do presidente da ANTF. Primeiro, porque o Braga foi dos clubes que mais valorizou o treinador português. Jesualdo Ferreira, Jesus, Domingos, Leonardo Jardim, José Peseiro, Sérgio Conceição, Paulo Fonseca e, por último, o Abel Ferreira, que saiu porque entendeu que devia ter saído e era o treinador que há mais tempo seguido estava ligado a um clube. Todos saíram devido a uma valorização enorme do Sporting Clube de Braga. Sempre valorizámos o treinador português.

Hoje estamos perante um défice de treinadores de qualidade, em Portugal, com a tal carteira que se fala para exercerem as suas funções. Isso é um problema que teve ser debatido por todas as entidades. É inconcebível. Não temos treinadores de uma nova vaga e geração que queiram representar clubes. Há o exemplo de um treinador que ganhou a Youth League e teve que ir para o estrangeiro para poder treinar [Mário Silva].

Não se pode estar 8 anos à espera para se tirar o curso. Isso é que deve ser discutido em fóruns. É um problema do futebol português. O Braga vai cumprir todos os regulamentos e, na nossa equipa técnica, temos dois treinadores com o IV nível."

Salvador ainda pensa ser campeão nacional?

"O que disse, de querer ser campeão nacional até 2021, não é um objetivo, é um desejo. Cada vez é mais difícil lutar com o que existe. Há uma diferença muito grande de recursos financeiros para os três maiores clubes do campeonato. O fosso é cada vez maior. O futebol português está partido em três partes - os três que têm cada vez mais dinheiro, depois, os três ou quatro que lutam pelas competições europeias, e os que estão em baixo. O dinheiro não faz ganhar, mas ajuda a ter os melhores jogadores."

Objetivos de Rúben Amorim para a época

"A primeira prioridade é vencer o Belenenses SAD. Não vou falar em objetivos. Por ser o clube que é, o Braga já tem o objetivo de vencer competições. Começar a projetar jogadores da equipa B e é este o caminho que queremos fazer. Em vez de estarmos a colocar pressão nos jogadores, vamos colocar no treinador.

Temos um plantel até longo demais. Não haverá entradas, talvez saídas. Vamos entrar sempre para vencer, temos plantel para isso. A prioridade será sempre o jogo seguinte, se não jogar um, jogará outro, temos plantel para isso. Também temos jogadores que têm muito talento e vamos tentar arriscar. Jogadores como o Xadas e o Trincão terão que ser aproveitados."

O sistema de jogo

"Já tenho uma noção. Tenho uma ideia clara de como quero jogar e que jogadores quero pôr em determinadas posições. Todos os treinadores que tive tiveram influência, retirei um bocadinho de cada um. Passei 7 anos com o Jorge Jesus e, apesar de todos os problemas que tive com ele, houve aspetos que ficaram, apesar de termos feitios completamente diferentes. Criei uma ideia minha, não é nada por aí além, mas é uma identidade minha, a forma como entendia como jogador.

Por vezes, queria fazer coisas que o corpo não deixava, mas, agora, posso fazer mais. A ideia está na minha cabeça, não tenho dúvidas nenhumas, os jogadores vão saber o que fazer com bola e sem bola e isso é que é importante para mim."

Estava à espera disto em setembro?

"Sinceramente, não. Mas, durante a minha carreira, foi tudo tão de repente... A minha carreira deu-me alguma capacidade para lidar com o momento e a minha preocupação é saber o que quero fazer. Estou bastante tranquilo, tenho uma ideia clara, conversei muito com o presidente sobre a formação, a identidade que queremos passar para todas as equipas do Braga. Sei que isto não é um mar de rosas, dependo dos resultados, mas a ideia é muito clara e isto é muito mais profundo.

Sei que dependo dos resultados, convivi muitos anos com isso, já tive problemas mais fortes na vida, estou orientado, sei o que quero."