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Quem não marca, s... Não, chama-se eficácia

O Sporting teve cinco oportunidades claras, boas e na área para marcar na segunda parte, durante o período em que o FC Porto estava moribundo, desorientado e a abrir espaços por todo o lado. Mas, depois de marcar na primeira chance do jogo, a equipa de Sérgio Conceição voltou a fazê-lo à primeira situação que teve na segunda parte, aproveitando dois erros defensivos em momentos que eram previsíveis. Onze anos e 14 clássicos depois, o FC Porto ganhou em Alvalade e deixou o Sporting a 12 pontos de distância

Diogo Pombo

Gualter Fatia/Getty

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Corona pisa a linha que corta o campo ao meio. Está longe da baliza, até recua um metro com o primeiro toque, recebendo a bola, orientando-a do pé direito para o esquerdo, erguendo os olhos e a cabeça por um segundo, nem por isso uma matutice, mas um dos sinais que desencadeiam a série de inações que, tem o relógio seis minutos de vida, desmontam o barro do Sporting.

Porque o mexicano recebe a bola, olha para o outro lado do campo, mira no galopante que mais olhares portistas fitam, religiosamente, a cada jogo, e goza de tempo e espaço, livre de alguém a pressioná-lo, dono de uma bola descoberta, o mais perigoso estado da bola que quem defende pode enfrentar, e corta um passe longo e aéreo.

Ao erro que o deixa fazê-lo, à vontade, soma-se o Ristovski que está vidrado na bola e não vê o previsível Marega e a circulá-lo, sair-lhe das costas, arrancar uma diagonal entre ele e Coates, copiador do erro do macedónio, ambos imóveis, sem olhar para o adversário, nem recuar para ajustar a posição e encurtar o espaço nas costas como Mathieu, o único a fazê-lo instintivamente.

Corona à vontade, bola descoberta, Marega a partir na diagonal habitual entre lateral e central, passe longo de fora para dentro (em teoria, os mais complicados para quem defende) e o maliano inventar o 0-1 sem rematar. A receção que tenta sai esticada, mas Maximiano também sai da baliza, erro de aniversariante por julgar que Marega, talvez, porventura, não chegasse à bola.

São quatro parágrafos para esmiuçar uma jogada em que a cadeia de erros faz o previsível resultar, acalma ao FC Porto a definir a primeira linha de pressão na frente dos centrais e stressa Bruno Fernandes, Acuña e muitas das posses de bola do Sporting.

Durante meia hora, é raro a equipa de Silas ligar passes interiores, entre as linhas compactas do adversário. Não encontra Vietto ou Bolasie que muito se dão como opções ao centro, mas, apenas, esperando por dentro, quase estáticos, confiando que a largura projetada pelos laterais é suficiente para Coates e Mathieu, os dois que mais passes tentam até ao intervalo, os encontrarem.

Fechando as linhas de passe ao centro, o FC Porto força o Sporting a jogar por fora, Acuña e Ristovski tocam muito na bola, mas raras são as jogadas com mais do que quatro ou cinco passes.

A equipa de Silas nunca liga coisas até Luiz Phellype ser um apoio útil ou Bruno Fernandes receber, de frente, à porta da área; a de Sérgio Conceição afunila-se pelo centro do campo, onde o certo Nakajima é o único a não acumular más decisões, precipitações ou bolas levantadas. Mais uma vez, um clássico é farto em duelos aéreos (19, até ao intervalo) e pele e osso em jogadas com princípio, meio e fim na relva.

O encadeamento de erros com bola alastra até Marchesín, que tem os centrais abertos, a equipa esticada no campo, está quase no fim da área e vê Otávio, de facto, solto, mas a bola que levanta é murcha, lenta e cai uns dois metros antes do brasileiro. É o gatilho para Acuña deixar a marcação, arriscar uma antecipação, conseguir, tocar em Luiz Phellype, que dá de frente em Vietto para o argentino solar na área e o lateral empatar, a minutos do intervalo.

Desconhece-se o paradeiro, ou origem, deste lugar-comum, mas costume é achar-se que a melhor altura para marcar, especialmente assim, num clássico, e empatando, é mesmo antes do descanso e o Sporting, factualmente, retornou vivaço, intenso e certeiro nas ações, capaz tocar tabelas ao centro, arrastar jogadores e, depois, lançar gente na profundidade.

RODRIGO ANTUNES/Lusa

Foram 20 minutos em que Otávio e Corona, à direita, eram ultrapassados, em série, por qualquer jogada que tivesse passes postos no espaço à frente de Acuña, constantemente solto no corredor por Vietto ou Bruno Fernandes, que se aproximavam no centro-esquerda do ataque, tocavam na bola e fixavam um Danilo e um Uribe que, posicionando-se em linha, chegavam tarde a tudo quanto era por ali criado.

Meia hora do que mais se assemelha, esta época, a um Sporting avassalador. O pé esquerdo de Vietto rematou ao poste e ao lado;. A cabeça de Luiz Phellype antecipou-se a Mbemba e não acertou na baliza; o influente pé direito de Bruno Fernandes, em suspensão, desviou uma bola pouco por cima da barra. Tudo finalizações na área a cruzamentos de Acuña, nunca condicionado a executar o que é principal virtude que tem.

São cinco situações bem criadas e mal finalizadas, acumuladas, aos poucos, com fragrância de outro cliché banalizante. Porque quem não marca enquanto o adversário estava desorganizado, perdido nas referências de marcação, esburacado a ocupar espaços nos 30 metros defensivos, não tem o carimbo de vir a sofrer na certa - tem, sim, a certeza de que as consequências serão maiores quando tal acontecer.

E, aos 73’, um canto isolou o jogo no momento imune aos ritmos, às tendências e a quem está por cima e por baixo na bola corrida. Os jogadores do Sporting limitaram-se a estar nos lugares da defesa à zona, não atacaram os espaços e a bola cruzada por Alex Telles caiu no salto de Soares, imperturbável no 1-2 que lhe saiu da cabeça.

O FC Porto já não tinha o tipo com mais dribles completos, faltas sofridas e recuperações medíveis, e critério imensurável com bola, pois Sérgio Conceição trocara Nakajima por Luis Díaz, não mexendo para tentar ajudar às dificuldades que a equipa tinha sem bola, sim alterando para o que, coincidência, bem serviu à equipa após o golo.

O colombiano sofreu faltas para cortar o ritmo, obrigou adversários a ajustarem posições, quase marcou nas barbas de Maximiano e muito explorou a profundidade quando Silas, para o último quarto de hora, desfez a estrutura da equipa com uma injeção de desespero.

Tirou Acuña do flanco que alimentava os ataques, pô-lo como terceiro central, deu Rafael Camacho à direito, Gonzalo Plata a deambular um pouco por todo o lado e Bruno Fernandes mais a compensar os seus desequilíbrios do que a tentar causá-los no FC Porto. Só num canto, já a acabar, é que Coates rematou, com a cabeça, uma bola à barra.

Em jogo criado e ligado, com vários passes, em oportunidades criadas, na área, para finalizar, ou no volume de bola usado para encostar o adversário à própria área, o FC Porto não foi a melhor equipa, durante mais tempo. Mas, a aproveitar o que de melhor tem - diagonais de Marega na profundidades e bolas paradas ofensivas -, foi a mais eficaz e certeira, qualidades que ganham meros jogos e, mais ainda, clássicos renhidos.

Este deixa o mais perigoso, finalizador e ameaçador Sporting a 12 pontos dos portistas. a 16 do Benfica, a jeito de acabar a jornada atrás do Famalicão e a lamentar a ineficácia que retira a validade prática a oportunidades de golo criadas. Não é porque quem não marcar sofre. Muitas vezes, é, simplesmente, uma questão de eficácia.