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Júlio Velázquez: “É uma situação de terceiro mundo. Se não tenho jogadores, será uma equipa de merda. Não vou colocar em risco a sua saúde”

Irritado, frontal e sem filtros. Em conferência de imprensa, o treinador do Vitória de Setúbal abordou a "situação surrealista" de ter a equipa num "estado lastimável" e a Liga de Clubes decidir não adiar o jogo de sábado, contra o Sporting. Júlio Velázquez falou dos telefonemas com Silas, de possíveis datas em março para remarcar o encontro, dos apenas quatro jogadores que tem disponíveis e de como não quer fazer "uma figura de merda" numa "liga de primeiro nível"

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Gabriele Maltinti/Getty

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A "realidade" do que se passa

"Neste momento, a equipa não está a 100% para fazer um jogo de futebol profissional. Quero aproveitar, como sempre e com muita sinceridade, dizer que, na semana passada, apanhámos um vírus e já para o jogo contra o Famalicão, por exemplo, o Brian Mansilla não estava bem. No dia do jogo melhorou e pode ir, pelo menos, para o banco. Já nessa noite, outros três jogadores tiveram febre.

Que eu saiba, nem antes ou depois do jogo, não falei disto. Só de questões futebolísticas. Não ganhámos porque o Famalicão foi melhor. Depois, a realidade é que, na segunda-feira, tivemos folga e, na terça, só treinámos com 10 jogadores de campo e mais um guarda-redes da segunda equipa. Na quarta-feira, ouvi que a nossa realidade não era a falada. Começámos o treino com 14 jogadores de campo, mais um guarda-redes da primeira equipa e outro dos sub-23. Dois jogadores tiveram que abandonar devido a sintomas difíceis.

Quinta-feira fiquei assustado, falei com o clube e pedi para falarem com a Liga e o Sporting para arranjarem uma solução. Treinámos com um jogador de campo, o Carlinhos, e três guarda-redes. Os jogadores tinham febre e diarreira. É a verdade a 100% e não gosto de desculpas. Esta é a situação e a realidade desta equipa, não há outra. Dito isto, e depois de o presidente e o diretor desportivo me dizerem que não havia acordo com o Sporting, não acredita que ficaríamos, hoje, nesta situação, em Portugal, numa liga de primeira nível.

Estou totalmente assombrado que estejamos nesta situação. A última solução que tinha era tentar que o meu colega de profissão faça um exercício de empatia. Falámos das equipas, da liga e de outras pessoas. Liguei ao Silas duas vezes, não o consegui apanhar, ele enviou-me uma mensagem, ligou-me e falámos com muito respeito. Expliquei-lhe a situação, ele argumentou com a situações deles e percebeu a nossa situação. Não quero fazer uma figura de merda. Se falo, é porque é uma situação real e disse isto ao Silas.

Uma possível data em março

Ele percebeu muito bem e argumentou que este é um mês muito difícil. Concordámos com a data da Taça de Portugal, porque nenhuma equipa joga. Uma data que lhes ficava bem era no início de março e decidimos que era uma boa possibilidade. É-me indiferente quando jogamos, não quero é colocar em risco a saúde dos jogadores. É o meu objetivo principal.

A 3, 4 ou 5 de Março, ou 12, 13 ou 14. O clube falou com a Liga e há uma situação no regulamento que, quando há uma situação assim, tens quatro semanas para agendar o jogo, se for adiado. Se há uma data possível para o Sporting e para nós - não temos problemas em jogar em março -, se eles percebem a nossa situação, que é muito grande, pior do que se fala, e se nós percebemos a situação deles, para isso é que existem as situações excecionais.

O Sporting tem muitos jogos, compreendo a situação, mas temos 18 ou 19 jogadores em estado de alerta máximo. É uma situação excecional. Poderíamos jogar em março, sem fazer uma figura de merda. Se, no sábado, acontecer algo grave, levaremos as mãos à cabeça e faremos homenagens. Hoje, o máximo que poderemos fazer é criar condições para que dêem uma corrida. Não quero falar demais, gosto muito de Portugal e da liga portuguesa, que para mim está entre as seis melhores da Europa. Há que perceber a situação do Sporting, mas o principal é o estado de saúde de jogadores que não podem jogar no sábado.

Não vou colocar em risco a saúde dos jogadores. O jogo vai ser televisionado e se, aos 20 minutos, houver um jogador que não pode correr mais, não é bom mostrar isso ao mundo. Isso não é uma liga de primeiro nível. Portugal é um país que ganhou o Europeu e temos que buscar o bem-estar dos jogadores. Não é depois, quando acontece alguma coisa, e levamos as mãos à cabeça."

Tem esperança que o jogo seja adiado?

"Depois de tudo isto, o último mensagem que enviei ao treinador do Sporting foi para tentar que a Liga mude a situação, a bem dos jogadores. A imagem da Liga, amanhã, e de todos nós, corre risco. Só há dois jogadores que têm gripe, todos os outros estão com um vírus que ainda não foi possível identificar. Jogamos para os adeptos, que merecem outra coisa. O país merece outra coisa.

Espero que haja sentido comum. O nosso capitão, o Semedo, hoje acordou com 40.º de febre. É um exercício de surrealismo se este jogo não for reavaliado. Só tenho quatro jogadores que não tiveram nada. Já houve situações excecionais com outras coisas em Portugal."

Que equipa poderá apresentar?

"É uma situação de terceiro mundo. Se não tenho jogadores, será uma equipa de merda. Que equipa vou apresentar com jogadores com 40.º de febre? Não sei o que vai acontecer amanhã de manhã. Falarmos desta situação ainda esta sexta-feira é surrealista. Não posso ser mais sincero.

O Vitória tem feito um trabalho extraordinário. Puseram pessoas a limpar balneários e gabinetes para que a estrutura fique nas melhores condições possíveis, porque ainda não se sabe que tipo de vírus é."